Custos e ROI

Dentistas como PJ na clínica: qual o risco trabalhista e quanto provisionar?

Contratar dentista como PJ é lícito, mas vira passivo se a relação tiver pessoalidade, habitualidade, onerosidade e subordinação juntas. Se o vínculo for reconhecido, você paga FGTS, 13º, férias com 1/3 e multas retroativos de até 5 anos. Veja como estimar quanto provisionar por dentista PJ e como reduzir o risco, com jurisprudência e fonte.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 1 de julho de 2026 · 17 min de leitura
TL;DR

O risco existe quando o dentista PJ trabalha como empregado (horário fixo, subordinação, pessoalidade e pagamento habitual): aí a Justiça do Trabalho pode reconhecer vínculo e você paga FGTS, 13º, férias com 1/3 e multas retroativos de até 5 anos, então provisione estimando o que teria custado em CLT sobre o período mais correção, juros e honorários.

Pontos-chave
  • A conta retroage até 5 anos. A prescrição trabalhista é quinquenal (5 anos), limitada a 2 anos após o fim do contrato: o ex-prestador tem 2 anos para entrar com a ação e pode cobrar os 5 anos anteriores, segundo o Guia Trabalhista.
  • Se o vínculo for reconhecido, entra FGTS de 8% ao mês mais multa de 40% na dispensa sem justa causa, e o FGTS ainda incide sobre o 13º e sobre as férias com 1/3, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (FGTS Digital).
  • Os fatos decidem, não o contrato. O TRT-4 reconheceu o vínculo de um dentista com jornada fixa e cerca de R$ 6.000 por mês durante quase 5 anos, enquanto o TRT-3 afastou o vínculo de um dentista com autonomia real e pagamento por dias trabalhados (fontes TRT-4 e TRT-3).

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Contratar dentista como PJ é legal? Sim, com uma condição
  4. Os 4 elementos que transformam PJ em vínculo
  5. Primazia da realidade: por que o contrato assinado não te protege sozinho
  6. Os sinais de pejotização fraudulenta no consultório
  7. Jurisprudência: quando a Justiça reconhece e quando afasta o vínculo
  8. As verbas que entram na conta se o vínculo for reconhecido
  9. Encargos processuais: o que ainda infla a conta
  10. Prescrição e retroatividade: até onde a conta volta
  11. Quanto provisionar por dentista PJ (exemplo aberto)
  12. Por que as clínicas pejotizam: o custo CLT x PJ
  13. Modelos de contratação em odontologia (e onde cada um mora no risco)
  14. Tributação: o que muda entre autônomo e PJ
  15. STF e o Tema 1389: por que a régua ainda pode mudar
  16. Como reduzir o risco: o checklist de PJ seguro
  17. Seu próximo passo
  18. Perguntas frequentes

"Tenho dentistas como PJ na minha clínica: qual o risco trabalhista e quanto devo provisionar?"

Você contrata PJ porque a conta fecha melhor. E dorme com um medo no fundo da cabeça: o processo que estoura três anos depois.

Esse medo tem nome, tem número e tem prazo. E dá para calcular.

O risco não é o modelo PJ em si, que é lícito. O risco é a relação de PJ que, na prática, é de emprego. Quando isso acontece e o dentista aciona a Justiça, a conta retroage e vem com multa.

A boa notícia: passivo trabalhista se estima. Você consegue provisionar por dentista PJ, saber até onde a conta volta e reduzir a chance de ela nascer.

Neste guia você vai ver:

  • Por que contratar dentista como PJ é legal (e quando deixa de ser)
  • Os 4 elementos que transformam PJ em vínculo, e a primazia da realidade
  • Os sinais de pejotização fraudulenta específicos do consultório
  • O que a Justiça decidiu: casos com vínculo reconhecido e casos com vínculo afastado
  • As verbas e os encargos processuais que entram na conta
  • Quanto provisionar por dentista PJ, com um exemplo aberto
  • O checklist para contratar PJ sem fabricar prova contra você

Antes de falar de risco, tire uma pedra do caminho: contratar dentista como PJ é lícito.

Depois da Reforma Trabalhista e das decisões do STF, a terceirização passou a ser permitida inclusive na atividade-fim, e não só nas atividades de apoio. Ao julgar a licitude da terceirização (ADPF 324), o STF firmou que contratar prestador de serviço não é, por si só, fraude.

Ou seja: um dentista com CNPJ próprio, emitindo nota fiscal, prestando serviço com autonomia, é um arranjo válido.

A condição está na palavra autonomia. O modelo PJ é legal quando existe prestação de serviço de verdade. Ele vira ilegal quando o contrato de PJ só serve para mascarar um empregado.

Lembre: o problema nunca é o CNPJ. É a relação por trás dele. Um dentista PJ com horário batido, ordem direta e exclusividade imposta é um empregado com outro nome, e a Justiça enxerga isso.

Os 4 elementos que transformam PJ em vínculo

Aqui está o coração do risco. A CLT define emprego por quatro requisitos que precisam aparecer ao mesmo tempo. Presentes os quatro, há vínculo, não importa o que o contrato diga.

Segundo o Conselho Regional de Odontologia do Paraná (CRO-PR), o vínculo empregatício exige a presença concomitante dos quatro requisitos do artigo 3º da CLT:

  1. Pessoalidade: o serviço é prestado por aquele dentista específico, que não pode mandar outro no lugar dele.
  2. Subordinação: o profissional recebe ordens, cumpre horário, é fiscalizado e segue o processo da clínica.
  3. Habitualidade (não-eventualidade): a prestação é contínua e rotineira, não esporádica.
  4. Onerosidade: há pagamento habitual pelo trabalho.

Repare no detalhe que muda tudo: falta um dos quatro e não há vínculo. Presentes os quatro, o CNPJ não segura nada.

O elemento que mais pega clínica é a subordinação. Agenda ditada pela recepção, horário fixo de entrada e saída, protocolo obrigatório de atendimento: tudo isso é subordinação, mesmo com o dentista sendo "PJ".

Primazia da realidade: por que o contrato assinado não te protege sozinho

Muita clínica acha que um contrato bem redigido é blindagem. Não é.

O Direito do Trabalho funciona sob um princípio chamado primazia da realidade: o que vale é o que acontece no dia a dia, não o que está escrito no papel.

Pensa assim: se o contrato diz "prestação autônoma de serviços" mas o dentista bate ponto, cumpre escala e recebe valor fixo todo mês, o juiz olha os fatos, não o título do documento.

O contrato conta como prova, mas é a prova mais fraca de todas quando a rotina contradiz o texto. Cartão de ponto, mensagens de cobrança de horário, escala fixa e depósito mensal de valor redondo pesam muito mais do que a cláusula que chama a relação de autônoma.

Lembre: você não é julgado pelo que escreveu, é julgado pelo que fez. Um contrato de PJ impecável com uma rotina de empregado é uma bomba com laço bonito.

Os sinais de pejotização fraudulenta no consultório

A pejotização fraudulenta tem sintomas específicos na odontologia. O CRO-PR lista os indícios que, na prática, denunciam o emprego disfarçado do dentista.

São quatro sinais concretos que você consegue auditar hoje na sua operação:

  • Agenda controlada pela clínica: a recepção define os horários e os pacientes do dentista, não ele.
  • Frequência estabelecida: o profissional é obrigado a comparecer em dias e horários fixos, como um funcionário escalado.
  • Pagamento por período: o dentista recebe um valor por mês ou por dia trabalhado, não por procedimento ou por resultado da prestação.
  • Supervisão e controle de ponto: alguém fiscaliza a jornada e a forma de trabalhar, e há registro de entrada e saída.

Quando esses sinais aparecem juntos, segundo o CRO-PR, o caminho correto é regularizar a relação, porque ela já é de emprego na essência.

Faça o teste honesto: se você trocar a palavra "PJ" por "funcionário" na descrição da rotina do seu dentista e a frase continuar verdadeira, você tem um passivo em formação.

Jurisprudência: quando a Justiça reconhece e quando afasta o vínculo

Isso não é teoria. Os tribunais decidem casos de dentista PJ o tempo todo, e a diferença entre ganhar e perder está nos fatos da rotina. Veja os dois lados.

O caso em que o vínculo foi RECONHECIDO (TRT-4)

A 4ª Turma do TRT-4 (Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região) reconheceu o vínculo de emprego de um dentista, mesmo sem carteira assinada.

O que pesou:

  • Jornada fixa: segunda a sexta das 8h às 12h e das 13h às 19h, mais sábado das 8h às 14h.
  • Remuneração habitual: cerca de R$ 6.000 por mês.
  • Duração longa: quase 5 anos (de abril de 2012 a março de 2017).
  • Sem nenhum direito pago: sem 13º, sem férias, sem benefícios.
  • Economia da clínica sobre o trabalho dele: a clínica retinha 75% do valor cobrado dos pacientes.

O que fechou o vínculo foi a integração à atividade-fim somada ao horário e à falta de autonomia: o dentista era peça fixa da operação, não um prestador independente.

O caso em que o vínculo foi AFASTADO (TRT-3)

Do outro lado, a Justiça também afasta o vínculo quando a autonomia é real. O TRT-3 (Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região) afastou o vínculo de um cirurgião-dentista contratado por um grupo de clínicas em Minas Gerais.

O que mudou o resultado, segundo a ConJur:

  • O "Contrato de Prestação de Serviços Odontológicos Autônomos" foi presumido válido, sem prova de fraude ou vício.
  • O dentista tinha liberdade de decisão e gestão sobre a própria execução.
  • Ele não recebia ordens diretas de ninguém e ninguém o supervisionava.
  • Era pago conforme os dias trabalhados, não por salário fixo.

O tribunal ainda invocou o precedente do STF na ADPF 324 sobre a licitude da terceirização. A lição é direta: o que afasta o vínculo é autonomia de verdade, não a palavra "PJ" no papel.

O que separa um caso do outro

Fator Vínculo RECONHECIDO (TRT-4) Vínculo AFASTADO (TRT-3)
Jornada Horário fixo, seg a sáb Sem horário imposto
Pagamento Valor mensal habitual (~R$ 6.000) Por dias trabalhados
Ordens e fiscalização Presentes Ausentes
Autonomia de gestão Nenhuma Real
Contrato x realidade Realidade de empregado Realidade de autônomo

O padrão é claro: horário fixo, pagamento por período e ausência de autonomia puxam para o vínculo. Liberdade de gestão, pagamento por entrega e ausência de subordinação afastam.

As verbas que entram na conta se o vínculo for reconhecido

Quando o vínculo é reconhecido, a clínica paga, retroativo, tudo que deixou de pagar. E o pacote é pesado.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (FGTS Digital), o FGTS é um depósito mensal de 8% da remuneração, e na dispensa sem justa causa incide uma multa rescisória de 40% sobre o total depositado. Mais: o FGTS também incide sobre o 13º e sobre as férias com 1/3.

Numa reclamatória de vínculo reconhecido, entram na conta, para todo o período:

  • FGTS: 8% sobre cada pagamento do período.
  • Multa do FGTS: 40% sobre o total depositado, na dispensa sem justa causa.
  • 13º salário: proporcional de cada ano.
  • Férias mais 1/3: de cada período aquisitivo.
  • Aviso prévio: conforme o tempo de casa.
  • Horas extras e adicionais: se houver jornada além do limite (o caso do TRT-4 tinha sábado trabalhado).
  • INSS: contribuições previdenciárias do período.

Pensa assim: você "economizou" os encargos por anos, e se o vínculo é reconhecido, paga boa parte disso de uma vez, retroativo, com multa em cima. O barato acumulado vira caro concentrado.

Encargos processuais: o que ainda infla a conta

O passivo não para nas verbas. Uma condenação trabalhista carrega custos processuais que aumentam bastante o valor final.

Some ao pacote de verbas:

  • Correção monetária: os valores antigos são atualizados para o valor de hoje.
  • Juros: incidem sobre o débito ao longo do tempo.
  • Honorários advocatícios: de sucumbência, quando devidos.
  • Custas processuais: as despesas do processo.

O efeito prático é que a conta final costuma ser bem maior que a soma nominal das verbas. Uma dívida de anos atrás, corrigida e com juros, chega ao presente inchada. Esse é o tipo de risco que também aparece quando o assunto é se proteger de processo na clínica.

Prescrição e retroatividade: até onde a conta volta

Aqui está a parte que define o tamanho da sua provisão: o prazo.

Segundo o Guia Trabalhista, a prescrição trabalhista (artigo 7º, XXIX, da Constituição) tem duas camadas:

  • Prescrição quinquenal (5 anos): o trabalhador pode cobrar os créditos dos últimos 5 anos da relação.
  • Prescrição bienal (2 anos): ele tem até 2 anos após o fim do contrato para entrar com a ação.

Traduzindo para a sua realidade: o ex-dentista tem 2 anos depois de sair para ajuizar, e nessa ação cobra os 5 anos anteriores.

Por isso o passivo não morre no dia em que o profissional vai embora. Ele fica vivo por 2 anos. E se o vínculo é reconhecido, entra ainda a anotação retroativa na CTPS, com registro de todo o período reconhecido, até o limite dos 5 anos.

Lembre: a provisão não pode zerar quando o dentista PJ deixa a clínica. Ela precisa continuar de pé por mais 2 anos, porque é nesse intervalo que a ação pode aparecer.

Quanto provisionar por dentista PJ (exemplo aberto)

Chegamos à pergunta central: quanto reservar por dentista PJ. Não existe número mágico, mas existe método.

A lógica é simples: provisione o que a relação teria custado em regime CLT sobre o período em risco, some a multa do FGTS e acrescente os encargos processuais.

O passo a passo:

  1. Defina a base. Use a remuneração mensal do dentista PJ como referência de salário.
  2. Aplique os encargos. Some FGTS (8%), 13º, férias com 1/3 e demais verbas do período.
  3. Multiplique pelo horizonte. Provisione com base em até 5 anos (a prescrição quinquenal), enquanto a relação durar, e mantenha por 2 anos após a saída.
  4. Acrescente a multa e os encargos processuais. Multa de 40% do FGTS, mais correção, juros e honorários.

Veja um exemplo ilustrativo (não é uma tabela de mercado), usando como base os cerca de R$ 6.000 por mês do caso real do TRT-4:

Verba Por ano (base ~R$ 6.000/mês) Em 5 anos
FGTS (8% ao mês) ~R$ 5.760 ~R$ 28.800
Multa de 40% do FGTS - ~R$ 11.520
13º salário ~R$ 6.000 ~R$ 30.000
Férias mais 1/3 ~R$ 8.000 ~R$ 40.000
Subtotal ilustrativo ~R$ 110.000

Esse subtotal é só o começo: ainda entram aviso prévio, horas extras e adicionais (se houver), INSS, e por cima de tudo a correção monetária, os juros e os honorários. O FGTS, lembre, ainda incide sobre o 13º e as férias (FGTS Digital), o que soma mais um pouco.

O recado da conta é brutal: um único dentista "PJ" com rotina de empregado, por 5 anos, pode representar um passivo na casa das dezenas ou centenas de milhares de reais. Multiplique pelo número de dentistas na mesma situação e você tem a dimensão do risco.

Lembre: os números acima são um exemplo aberto para você enxergar a mecânica, não uma estimativa da sua clínica. O valor real depende do caso, da jornada, dos adicionais e da decisão judicial. Feche a conta com seu contador e seu advogado.

Por que as clínicas pejotizam: o custo CLT x PJ

Você não pejotiza por maldade. Pejotiza porque a diferença de custo direto é enorme. E entender essa diferença é o que mostra por que o risco vale a pena ser gerido, não ignorado.

Sobre o salário de um empregado CLT, numa empresa fora do Simples, incidem encargos que somam 67,22%, segundo o Guia Trabalhista. Veja a conta aberta:

Encargo Percentual sobre o salário
13º salário 8,33%
Férias (com 1/3) 11,11%
INSS patronal 20,00%
RAT / SAT até 3,00%
Salário-educação 2,50%
Sistema S 3,30%
FGTS 8,00%
Provisão da multa do FGTS 3,20%
Previdenciário sobre 13º e férias 7,78%
Total 67,22%

Fonte: Guia Trabalhista (empresa fora do Simples, cálculo mensal sobre o salário).

É por isso que o PJ atrai: em vez de salário mais 67% de encargo, você paga a nota fiscal e pronto. Na clínica que já fatura alto, com vários dentistas, essa diferença vira um número grande na DRE.

Mas repare no trade-off: você troca um custo certo e mensal (o encargo do CLT) por um custo incerto e concentrado (o passivo do vínculo reconhecido). A economia é real, o risco também. A gestão certa é decidir isso de olhos abertos, não fingir que o risco não existe. Para o comparativo por função, veja CLT, PJ ou terceirizar a equipe.

Modelos de contratação em odontologia (e onde cada um mora no risco)

Para dimensionar o risco, você precisa saber que PJ não é a única opção. A odontologia trabalha com um leque de modelos, cada um com uma exposição diferente.

  • CLT (empregado): carteira assinada, todos os direitos. Custo alto e previsível, risco trabalhista baixo (a relação já é formal).
  • PJ (pessoa jurídica): o dentista tem CNPJ e emite nota. Custo direto menor, risco de vínculo se faltar autonomia.
  • Autônomo (RPA): pessoa física que presta serviço eventual, recolhendo por recibo. Faz sentido para quem atende poucos dias; vira risco se a rotina for de empregado.
  • Sociedade: o dentista é sócio da clínica, com participação nos resultados. Não é empregado, é dono, sem subordinação.
  • Parceria / repasse de honorários: o dentista atende e divide o valor do procedimento com a clínica, num arranjo de parceria.

Repare no padrão: quanto mais o modelo depende de pagamento por entrega e autonomia (sociedade, parceria, RPA eventual), mais longe fica do vínculo. Quanto mais depende de horário e pagamento por período, mais perto. Para a conta financeira do repasse, veja o custo real de um dentista associado.

Tributação: o que muda entre autônomo e PJ

O modelo de contratação também muda a carga tributária, e isso pesa na decisão. Não é o foco do risco trabalhista, mas entra na conta total.

No autônomo (RPA), a clínica ainda arca com o INSS patronal de 20% sobre o pagamento (a mesma alíquota de INSS patronal que aparece nos encargos do CLT, segundo o Guia Trabalhista), além do IRRF retido na fonte e do ISS municipal. Por isso o RPA raramente é o mais leve para quem atende com frequência.

No PJ, a tributação corre pelo CNPJ do dentista, não pela sua folha:

  • Simples Nacional ou outro regime do prestador, conforme o enquadramento dele.
  • ISS municipal sobre o serviço, que varia por cidade.
  • IRRF, PIS e Cofins conforme o regime, quando aplicáveis.

Para a clínica, a vantagem do PJ é não carregar o encargo patronal sobre aquele pagamento. A desvantagem, de novo, é jurídica, não tributária. A carga tributária exata depende do regime de cada parte, e é tema para o seu contador. Veja também a carga tributária real da clínica odontológica.

STF e o Tema 1389: por que a régua ainda pode mudar

O assunto ficou ainda mais sensível em 2025, e quem contrata PJ hoje precisa saber disso.

Em abril de 2025, o ministro Gilmar Mendes determinou a suspensão nacional de todos os processos que discutem a licitude da contratação de PJ ou autônomo, no Tema 1389 (ARE 1.532.603), segundo a ConJur. A repercussão geral foi reconhecida por ampla maioria do plenário (10 votos a 1), com base em precedentes do próprio STF sobre terceirização, como a ADPF 324.

O que está em jogo na definição:

  • A legalidade de contratar autônomo e PJ.
  • A competência da Justiça do Trabalho para julgar esses casos.
  • Quem deve provar a fraude na contratação.

Isso evidencia uma divergência de fundo: o STF tende a validar a terceirização e a pejotização lícita, enquanto a Justiça do Trabalho, historicamente, reconhece vínculo com mais frequência. Enquanto o mérito não é julgado, a régua fica em aberto.

O que isso significa para você: não é sinal verde para relaxar. É sinal de que a interpretação está sendo redefinida, e o passivo de um contrato malfeito não prescreve no dia seguinte. Contrato bem feito e autonomia real seguem sendo a única proteção.

Como reduzir o risco: o checklist de PJ seguro

Decidiu manter dentistas como PJ? Então contrate de um jeito que não fabrique prova de vínculo contra você. O risco não está no modelo, está na execução dele.

Siga este checklist, espelhado no que a Justiça valorizou para afastar o vínculo no caso do TRT-3:

  1. Sem cartão de ponto. Controle de jornada é a prova mais forte de subordinação. PJ não bate ponto.
  2. Sem exclusividade imposta. Proibir o dentista de atender em outro lugar o trata como empregado.
  3. Sem ordens diretas nem fiscalização contínua. Combine entregas e resultados, não microgerencie o "como".
  4. Autonomia real de agenda. O dentista organiza a própria agenda e a forma de trabalhar, não a recepção por ele.
  5. Pagamento por entrega, com nota fiscal. Pague contra nota emitida pelo CNPJ, ligado ao serviço prestado, não um valor redondo mensal com cara de salário.
  6. Contrato claro e coerente com a rotina. Escopo, valores, responsabilidades e autonomia explícitos, e a prática batendo com o texto.
  7. Auditoria periódica. Revise os contratos de PJ de tempos em tempos, principalmente enquanto o Tema 1389 não é julgado.

O fio condutor é único: o contrato de PJ só protege quem vive uma relação de PJ de verdade. Se na prática é empregado, nenhum contrato salva, por causa da primazia da realidade.

Seu próximo passo

  1. Audite cada dentista PJ contra o checklist. Cartão de ponto, exclusividade imposta, ordens diretas e pagamento mensal sem nota são os quatro sinais que mais reconhecem vínculo. Onde eles aparecem, você tem risco em formação.
  2. Provisione por dentista em risco. Estime o custo CLT do período (encargos de cerca de 67% pelo Guia Trabalhista), some a multa de 40% do FGTS e os encargos processuais, e reserve com base em até 5 anos. Feche o número com contador e advogado.
  3. Corrija a rotina, não só o papel. Ajuste a operação para dar autonomia real onde faz sentido, ou migre para CLT a função que exige controle. É a rotina que blinda, não a cláusula.

Quer estruturar a clínica com o time certo no modelo certo e transformar a operação num motor de agendamento e comparecimento previsível? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Contratar dentista como PJ é ilegal?

Não. É lícito, e a Reforma Trabalhista e o STF liberaram até a terceirização da atividade-fim. O que é ilegal é usar o contrato de PJ para mascarar uma relação de emprego. Se houver pessoalidade, habitualidade, onerosidade e subordinação ao mesmo tempo, a Justiça do Trabalho pode reconhecer o vínculo, independente do CNPJ.

Quanto devo provisionar por dentista PJ?

Estime o que a relação teria custado em regime CLT sobre o período em risco (encargos de cerca de 67% sobre o salário, segundo o Guia Trabalhista), some a multa de 40% do FGTS e depois acrescente correção monetária, juros e honorários. Como a prescrição alcança 5 anos, use esse horizonte na provisão e valide o número com seu contador e advogado.

O contrato de PJ bem feito me protege sozinho?

Só se a realidade combinar com o papel. Pela primazia da realidade, os fatos do dia a dia valem mais que o contrato assinado. Um contrato claro ajuda, mas não segura nada se na prática o dentista cumpre horário, recebe ordens e não tem autonomia. O CRO-PR aponta agenda controlada, frequência imposta, pagamento por período e supervisão como indícios de vínculo.

Até quando o ex-dentista pode me processar?

Até 2 anos depois de encerrada a relação (prazo bienal), e nessa ação ele cobra os 5 anos anteriores (prazo quinquenal), segundo o Guia Trabalhista. Por isso o passivo não some quando o profissional sai: ele fica vivo por 2 anos, e é nesse período que você deve manter a provisão.

O que é o Tema 1389 do STF sobre pejotização?

É o tema de repercussão geral em que o STF, em abril de 2025, suspendeu nacionalmente os processos que discutem a licitude da contratação de PJ e autônomo, segundo a ConJur. A Corte vai definir a legalidade do modelo e quem precisa provar a fraude, o que evidencia a divergência entre o STF e a Justiça do Trabalho sobre o tema.

Como reduzir o risco sem voltar tudo para CLT?

Garanta autonomia real: sem cartão de ponto, sem exclusividade imposta, sem ordens diretas, com nota fiscal a cada pagamento e contrato claro. Foi isso que fez o TRT-3 afastar o vínculo de um dentista. E audite os contratos de PJ periodicamente, porque a régua do STF ainda está em aberto no Tema 1389.