Como calcular quanto custa cada hora de cadeira na sua clínica odontológica?
O custo da hora-cadeira é a base de toda precificação odontológica. Veja a fórmula canônica, como mapear custos fixos e variáveis, por que pro-labore e ociosidade entram na conta, e como agenda cheia derruba o custo da sua hora.
Você calcula o custo da hora-cadeira somando custos fixos, custos variáveis, pro-labore e o lucro desejado, e dividindo pelas horas produtivas reais (não pela jornada cheia). Cadeira ociosa dobra esse custo, então ocupação é parte da conta, não consequência dela.
- A base de horas vem da jornada legal. A Constituição Federal (Art. 7, XIII) fixa a jornada normal em até 8 horas diárias e 44 semanais, o teto que define quantas horas produtivas a sua cadeira pode entregar por mês (cerca de 160 a 220h conforme dias trabalhados).
- A tabela do convênio não serve de base de preço. Estudo da revista Arquivos em Odontologia (UFMG, 2011) constatou que operadoras aplicam desconto médio de 54,51% sobre os valores sugeridos pelo CFO, chegando a 57,09% nos preventivos, prova de que precificar pela tabela do plano corrói a margem.
- Cadeira ociosa é o multiplicador silencioso do custo. Nas clínicas atendidas pela Odonto Results, o comparecimento dos agendamentos fica entre 20% e 50%, o que mostra que toda hora reservada e não ocupada por paciente que comparece é custo de hora-cadeira jogado fora, dados internos da Odonto Results.
Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que é hora-cadeira (e por que ela é a base de toda precificação)
- Hora-cadeira x hora-clínica: a diferença que confunde
- A fórmula canônica do custo da hora-cadeira
- Mapeando os custos FIXOS reais da clínica
- Custos VARIÁVEIS: o que muda a cada procedimento
- Depreciação de equipamentos: diluir o que se desgasta
- Pro-labore do dentista como CUSTO (não como lucro)
- Capacidade instalada x horas PRODUTIVAS: o denominador que muda tudo
- Ociosidade: por que cadeira vazia DOBRA o custo da hora
- O impacto do comparecimento (no-show) no custo real da hora
- Margem de lucro: por que é markup, não desconto
- Do custo da hora ao PREÇO do procedimento
- Por que a tabela do convênio não serve de base de preço
- Erros comuns que fazem o dentista trabalhar no prejuízo
- Quando e com que frequência recalcular a hora-cadeira
- Como uma cadeira mais OCUPADA derruba o custo da hora
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Como calcular quanto custa cada hora de cadeira na minha clínica odontológica?"
Quase todo dentista que fatura bem precifica no escuro. Olha o concorrente, olha a tabela do convênio, arredonda pra cima e reza.
O problema é que sem saber quanto custa a sua hora de cadeira, você não tem como saber se está ganhando ou perdendo dinheiro em cada procedimento.
A hora-cadeira é a unidade base de toda a sua precificação. É o número que diz o piso real de cada serviço, o que separa o procedimento que paga a conta do que dá prejuízo disfarçado de movimento.
E tem um detalhe que quase ninguém coloca na fórmula: a cadeira vazia não custa zero. Ela custa caro.
Neste guia você vai ver:
- O que é hora-cadeira e por que ela é a base de tudo
- A fórmula canônica, parte por parte (com tabela pra preencher)
- Como mapear os custos fixos e variáveis reais da sua clínica
- Por que pro-labore, depreciação e ociosidade entram na conta
- Como ir do custo da hora ao preço do procedimento
- Por que agenda cheia é o jeito mais rápido de baratear a sua hora
O que é hora-cadeira (e por que ela é a base de toda precificação)
Antes da fórmula, alinhe o conceito. Hora-cadeira é quanto custa manter uma cadeira da sua clínica em operação por uma hora.
Não é um número abstrato de contabilidade. É a régua com que você precifica tudo.
Pensa assim: cada procedimento ocupa a cadeira por um tempo (uma restauração leva X minutos, um protocolo leva horas, distribuídas em sessões). Se você sabe quanto custa cada hora dessa cadeira, sabe o piso de cada procedimento antes mesmo de somar o material específico.
Por isso a hora-cadeira é a unidade base de precificação odontológica. Erra esse número e todo preço derivado dele sai torto.
A maioria das clínicas que precifica por instinto ou por cópia do concorrente trabalha com margens que não conhece. Algumas lucram sem saber por quê. Outras perdem dinheiro em procedimentos que parecem rentáveis.
Lembre: preço não se define olhando o vizinho. Se define a partir do seu custo de hora-cadeira, somado ao valor que o paciente percebe. O concorrente não conhece a estrutura de custo da sua clínica, então copiar o preço dele é copiar o prejuízo dele.
Hora-cadeira x hora-clínica: a diferença que confunde
Antes de calcular, separe dois conceitos que muita gente trata como um só.
Hora-cadeira (hora-clínica) é o custo da estrutura física: a cadeira, a sala, o equipamento, o rateio de aluguel e energia daquele box, a esterilização que serve aquela cadeira. É o custo de existir uma posição de atendimento.
Hora do dentista que opera a cadeira é o custo do profissional que produz ali: o pro-labore do dono ou o repasse/comissão de um associado.
Na prática você precisa dos dois somados pra precificar. Uma cadeira sem dentista não fatura, e um dentista sem cadeira não atende.
Por que separar então? Porque você pode ter mais cadeiras que dentistas (uma cadeira ociosa ainda gera custo de estrutura) ou mais de um dentista revezando na mesma cadeira (a estrutura é a mesma, o custo do profissional muda). Separar deixa o cálculo limpo quando a clínica cresce.
Repare nestes pontos:
- A hora-cadeira pura dilui custos de estrutura nas horas que aquela cadeira produz.
- A hora do dentista carrega a remuneração de quem opera (pro-labore ou repasse).
- O custo total da hora produtiva é a soma dos dois, e é com ele que você precifica.
A fórmula canônica do custo da hora-cadeira
Aqui está o coração do cálculo. A fórmula é simples de escrever e exige honestidade pra preencher:
Custo da hora-cadeira = (Custos fixos + Custos variáveis + Pro-labore + Lucro desejado) / Horas produtivas
Cada termo do numerador é um bloco que a maioria preenche pela metade. E o denominador, as horas produtivas, é onde mora o erro mais caro de todos.
Veja o que entra em cada parte:
| Componente | O que é | Erro comum |
|---|---|---|
| Custos fixos | Saem todo mês, com cadeira cheia ou vazia | Esquecer contador, software, alvarás |
| Custos variáveis | Variam por procedimento realizado | Ignorar taxa de cartão e protético |
| Pro-labore | A remuneração do trabalho clínico do dono | Tratar como lucro, não como custo |
| Lucro desejado | O retorno do negócio, separado do salário | Confundir com o pro-labore |
| Horas produtivas | As horas que a cadeira de fato produz | Usar a jornada cheia, não as horas reais |
Vamos por partes. Cada componente abaixo tem uma seção, porque é exatamente onde as clínicas deixam dinheiro na mesa.
Mapeando os custos FIXOS reais da clínica
Custo fixo é o que sai todo mês independente de quantos pacientes você atende. A cadeira parada não desliga o relógio do aluguel.
A armadilha aqui é a lista incompleta. Quase todo dentista lembra do aluguel e dos salários, e esquece metade do resto.
A lista honesta de custos fixos inclui:
- Aluguel (ou parcela do imóvel) e condomínio.
- Energia, água e internet.
- Salários e encargos da equipe fixa (recepção, auxiliares, CRC, limpeza).
- Software de gestão e prontuário digital.
- Contador e serviços administrativos.
- Alvarás, licença de funcionamento e vigilância sanitária.
- Marketing fixo (a verba recorrente, não a campanha avulsa).
- Seguros, manutenção predial e limpeza.
Some tudo isso num número mensal. Esse é o piso que a clínica precisa cobrir antes de qualquer lucro.
Dica: puxe os últimos 12 meses do extrato e classifique linha por linha. Custo que você não vê é custo que você não cobra. Custo fixo não mapeado é um dos pontos mais negligenciados na gestão de clínica, e cada linha esquecida vira margem fantasma.
Quando a clínica tem mais de uma cadeira, você rateia o fixo total pelo número de cadeiras (ou pondera por uso, se uma cadeira produz muito mais que outra). O objetivo é saber quanto de estrutura cada cadeira carrega.
Custos VARIÁVEIS: o que muda a cada procedimento
Custo variável é o que só existe quando o procedimento acontece. Sem atendimento, ele é zero.
É a parte que parece pequena e some na conta de cabeça, mas que pesa muito no procedimento certo.
Os variáveis típicos da odontologia:
- Materiais e descartáveis (resina, broca, sugador, luva, máscara).
- Esterilização (insumos, embalagem, indicadores).
- Anestésico e medicação.
- Laboratório / protético (em prótese, o protético pode ser a maior linha do procedimento).
- Taxa de cartão / antecipação de recebíveis.
- Comissão ou repasse do dentista que executou (quando há associado).
Repare numa coisa importante: o protético e a comissão variam brutalmente entre procedimentos. Uma profilaxia tem variável baixíssimo. Um protocolo tem variável alto (laboratório, componentes, mais sessões).
Por isso o custo da hora-cadeira é o piso, e o custo do procedimento é a hora-cadeira mais os variáveis específicos daquele caso. Voltamos a isso na seção de preço.
Depreciação de equipamentos: diluir o que se desgasta
Aqui vai um custo que quase ninguém lança, e é justamente o que torna a cadeira sustentável no longo prazo: a depreciação.
A cadeira, o raio-x, a autoclave, o fotopolimerizador, o scanner, tudo isso se desgasta e um dia precisa ser trocado. Se você não reserva essa parte no custo, a troca vira um susto no caixa.
Depreciar é diluir o custo do equipamento ao longo da vida útil dele. A lógica:
- Pegue o valor do equipamento. Exemplo ilustrativo: uma cadeira de R$ 24.000.
- Estime a vida útil em meses. Digamos 10 anos, 120 meses.
- Divida. R$ 24.000 / 120 = R$ 200/mês reservados só por aquela cadeira.
Faça isso pra cada equipamento relevante e some. Esse valor mensal entra junto com os custos fixos no numerador da fórmula.
Nota: depreciação não é só uma conta contábil. É uma reserva de troca. Quem a ignora não vê o custo até a autoclave quebrar e travar a esterilização da clínica inteira. Os números acima são ilustrativos; use o valor e a vida útil reais dos seus equipamentos.
Pro-labore do dentista como CUSTO (não como lucro)
Este é o erro que faz dono de clínica trabalhar de graça sem perceber.
O pro-labore, a remuneração pelo seu trabalho clínico, é custo, não lucro. Ele entra no numerador da fórmula, antes de calcular qualquer margem.
A lógica é direta: se você não estivesse atendendo aquela cadeira, precisaria contratar um dentista pra fazer. Esse dentista cobraria. Logo, o seu trabalho tem um preço de mercado que precisa ser pago.
Quando você não separa pro-labore de lucro, acontece o seguinte:
- A margem aparece inflada (parece que sobra muito).
- Você decide preço e investimento com base num número falso.
- No fim do mês, o "lucro" some porque, na verdade, era o seu salário disfarçado.
Pensa assim: o dono que tira R$ 0 de pro-labore e comemora "lucro" alto está se pagando com o que deveria ser o retorno do negócio. É um financiamento involuntário da própria clínica.
Separar os dois é o que dá clareza: pro-labore é o quanto o seu trabalho vale; lucro é o quanto o negócio rende além de pagar todo mundo, inclusive você.
Capacidade instalada x horas PRODUTIVAS: o denominador que muda tudo
Agora o ponto mais sensível da fórmula inteira. O denominador.
Muito dentista divide o custo total pela jornada cheia da clínica. Erro caro.
A jornada legal dá a base do teto. A Constituição Federal, no Art. 7, inciso XIII, fixa a duração normal do trabalho em até 8 horas diárias e 44 semanais. Numa conta de cerca de 20 a 22 dias úteis no mês, isso dá uma capacidade instalada de mais ou menos 160 a 220 horas mensais por cadeira.
Mas capacidade instalada não é hora produtiva.
A capacidade é o máximo teórico. A hora produtiva é o que a cadeira de fato produz, depois de descontar:
- Buracos de agenda (horários sem paciente marcado).
- Faltas e cancelamentos (paciente marcado que não comparece).
- Tempo morto entre pacientes (limpeza da sala, troca de instrumental).
- Tarefas administrativas e reuniões que ocupam a cadeira sem faturar.
Se você divide o custo total pela capacidade cheia (220h), o custo da hora parece baixo. Se divide pelas horas que realmente produzem (digamos 130h), o custo verdadeiro aparece, mais alto e mais honesto.
Lembre: dividir pela jornada cheia é mentir pra si mesmo. Você precifica como se a cadeira nunca tivesse buraco. Aí o mês fecha apertado e você não entende por quê. Use as horas produtivas reais. Elas doem, mas são a verdade.
Ociosidade: por que cadeira vazia DOBRA o custo da hora
Esta é a consequência direta do denominador, e merece seção própria porque é o que mais distorce o custo da sua hora.
Os custos fixos correm igual, com a cadeira cheia ou vazia. O aluguel não cai porque você teve um furo na agenda. O salário da recepção não muda porque o paciente faltou.
Então o que acontece com a ociosidade? O mesmo bolo de custo fixo se espalha em menos horas produtivas. E cada hora produzida fica mais cara.
A matemática é implacável. Veja o efeito num exemplo ilustrativo de uma clínica com R$ 200/hora de custo fixo a diluir:
| Taxa de ocupação | Horas produtivas (de 200h) | Custo fixo por hora produzida |
|---|---|---|
| 100% | 200h | 1x (o custo base) |
| 75% | 150h | 1,33x |
| 50% | 100h | 2x (o dobro) |
| 33% | 66h | 3x (o triplo) |
A leitura é direta: 50% de ociosidade faz a sua hora custar o dobro. A cadeira que produz metade do que poderia tem cada hora produzida pesando duas vezes mais.
É por isso que ocupação não é "consequência" do negócio bem tocado. É parte da conta de custo. A clínica com agenda cheia tem o custo de hora estruturalmente mais baixo que a do concorrente com agenda furada, mesmo cobrando o mesmo preço.
Guarde esse fio. Ele reaparece no fim do guia, quando a gente fecha a ponte entre custo e agenda.
O impacto do comparecimento (no-show) no custo real da hora
A ociosidade tem um irmão silencioso: o no-show. O paciente que marca e não comparece é uma forma de ociosidade pior que o buraco de agenda, porque você reservou a hora e ainda assim não faturou.
Quando o paciente falta, a hora já estava "vendida" na sua cabeça. Você não ofereceu o horário pra mais ninguém. Aí o paciente some e aquela hora vira custo puro, sem nenhuma receita do outro lado.
E no funil de quem capta paciente por anúncio, o comparecimento é mais frágil do que a maioria imagina. Nas clínicas atendidas pela Odonto Results, o comparecimento dos agendamentos fica entre 20% e 50%, dados internos da Odonto Results. Ou seja, boa parte do que é marcado não chega na cadeira.
Cada agendamento que não comparece é uma hora de cadeira que você pagou e não produziu.
Por isso o no-show é o multiplicador silencioso do custo da hora. Ele não aparece numa linha de despesa, ele aparece esvaziando o seu denominador de horas produtivas. Reduzir falta é, na prática, reduzir o custo da sua hora-cadeira.
Vale o aprofundamento: veja quanto a clínica perde por mês com cadeira vazia e faltas e como reduzir o no-show.
Margem de lucro: por que é markup, não desconto
Com custo, pro-labore e horas resolvidos, falta o lucro. E aqui mora outra confusão comum.
O lucro desejado entra no numerador da fórmula como uma decisão, não como sobra. Você define quanto o negócio precisa render além de pagar todos os custos (inclusive o seu pro-labore).
O ponto técnico que muda o número: margem é markup, não desconto.
Pensa assim. Se o seu custo de uma hora é R$ 300 e você quer 30% de margem, você não soma 30% sobre o custo de qualquer jeito. Você precifica de modo que, depois de pagar o custo, sobrem 30% sobre o preço de venda. A conta correta é dividir o custo por (1 menos a margem):
- Errado (markup de 30% sobre custo): R$ 300 x 1,30 = R$ 390. A margem real fica em ~23%, não 30%.
- Certo (margem de 30% sobre o preço): R$ 300 / (1 - 0,30) = R$ 428. Aí sim sobram 30% sobre o preço de venda.
A diferença parece sutil e custa caro repetida em milhares de procedimentos por ano.
Sobre a faixa de margem, ela varia com o perfil da clínica e não tem um número único de mercado verificável pra cravar aqui. Em vez de copiar um percentual de internet, defina a sua margem em função de:
- Perfil da clínica: popular de alto volume, especializada de alto ticket, ou multi-especialidade.
- Posicionamento: quem se posiciona como referência sustenta margem maior; quem compete por preço comprime a margem.
- Estrutura de custo: clínica com custo fixo alto precisa de margem maior pra mesma segurança.
Para aprofundar a decisão de margem, veja qual a margem de lucro saudável para a clínica.
Lembre: margem não é o que sobra no fim do mês. É uma escolha que entra na fórmula no começo. Quem deixa a margem como "sobra" descobre tarde que ela é zero.
Do custo da hora ao PREÇO do procedimento
Agora você junta tudo. O custo da hora-cadeira é o piso. O preço do procedimento é uma camada acima.
A receita do preço de um procedimento tem três ingredientes:
- Tempo de cadeira x custo da hora-cadeira. Quanto tempo o procedimento ocupa a cadeira, multiplicado pelo custo da hora que você acabou de calcular.
- Materiais e custos específicos daquele caso. O variável que não está no custo médio da hora (protético, componentes, materiais especiais).
- Valor percebido. O quanto o paciente reconhece de valor naquele resultado, que pode (e deve) sustentar um preço acima do puro custo.
Veja como fica na prática (números ilustrativos):
| Ingrediente | Exemplo |
|---|---|
| Tempo de cadeira | 1,5 hora |
| Custo da hora-cadeira | R$ 350/h |
| Subtotal de cadeira | R$ 525 |
| Materiais específicos | R$ 120 |
| Piso de custo do procedimento | R$ 645 |
| Margem + valor percebido | a sua decisão de preço |
O piso de custo te protege do prejuízo. O valor percebido é o que separa a clínica que vira commodity da que cobra como referência.
Para entender o tempo de cadeira de cada serviço, veja tempo de cadeira por procedimento. Para a lógica completa de precificação, veja como precificar tratamentos na clínica.
Por que a tabela do convênio não serve de base de preço
Muita clínica usa a tabela do plano como referência de preço. É um atalho que custa caro.
O Conselho Federal de Odontologia mantém a CBHPO (Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Odontológicos). Mas atenção ao que ela é: a CBHPO indica a valoração relativa dos procedimentos (o peso de um em relação a outro, considerando honorários e custo operacional), não um preço absoluto fechado. É referência de valoração, não tabela de preço de venda.
E o que o convênio paga é outra história. Estudo da revista Arquivos em Odontologia, da UFMG (2011), constatou que operadoras de planos odontológicos aplicam desconto médio de 54,51% sobre os valores sugeridos pelo CFO, chegando a 57,09% nos procedimentos preventivos.
Leia esse número de novo. O convênio paga, em média, menos da metade do valor de referência.
Se você precifica o particular ancorado na tabela do plano, está calibrando o seu preço por um valor já espremido. O resultado é margem corroída na operação inteira.
A base de preço é o seu custo de hora-cadeira somado ao valor percebido. A tabela do convênio é, no máximo, um piso de decisão sobre aceitar ou não aquele plano, nunca a régua do seu particular. Para essa decisão, veja se vale a pena aceitar convênio na clínica.
Erros comuns que fazem o dentista trabalhar no prejuízo
Reúna os erros que aparecem nas seções acima e você tem o mapa do prejuízo silencioso. Os cinco mais caros:
- Esquecer o pro-labore. Trabalha de graça achando que tem lucro.
- Ignorar a ociosidade. Precifica pela cadeira cheia e fecha o mês no aperto.
- Copiar o preço do concorrente. Importa a estrutura de custo (e o prejuízo) de quem você nem conhece.
- Usar a tabela do convênio como base. Calibra o particular por um valor com mais de 50% de desconto embutido.
- Não reajustar. Calcula uma vez e congela, enquanto aluguel, salário e material sobem todo ano.
Cada um desses, sozinho, já come a margem. Combinados, transformam uma clínica movimentada numa clínica que trabalha muito e sobra pouco.
Lembre: clínica cheia não é clínica lucrativa. Agenda lotada com preço calculado errado é só prejuízo em volume maior. Volume sem margem correta não salva ninguém.
Quando e com que frequência recalcular a hora-cadeira
Hora-cadeira não é cálculo de uma vez só. É um número vivo que precisa acompanhar a operação.
Recalcule sempre que um destes gatilhos disparar:
- Mudou um custo relevante. Reajuste de aluguel, aumento de salário, novo fornecedor, conta de energia que disparou.
- Contratou ou expandiu. Nova auxiliar, novo dentista, nova cadeira, nova sala. A estrutura mudou, o custo da hora mudou.
- Reajuste anual de preço. Toda virada de ano, antes de ajustar a tabela, recalcule o custo. O reajuste sai do custo real, não do "achismo de inflação".
- Comprou equipamento novo. Entra depreciação nova no numerador.
- A ocupação caiu de forma consistente. Se a agenda esvaziou por meses, o seu denominador encolheu e o custo real da hora subiu. Precisa saber pra reagir.
O mínimo saudável é uma revisão completa por ano, atrelada ao reajuste de preço. Mas qualquer mudança estrutural pede um recálculo imediato.
Como uma cadeira mais OCUPADA derruba o custo da hora
Aqui a gente fecha o fio que ficou aberto lá na ociosidade. E é o insight que muda a forma de pensar custo.
Você passou o guia inteiro vendo que o custo da hora-cadeira depende de dois lados: o numerador (quanto a clínica custa) e o denominador (quantas horas produzem).
Cortar custo mexe no numerador, e tem limite. Você não baixa aluguel infinitamente, não demite a equipe que sustenta a operação.
Mas o denominador é elástico. Encher a cadeira aumenta as horas produtivas sem aumentar quase nada o custo fixo. A mesma estrutura, produzindo mais, dilui o custo em mais horas.
É a alavanca mais poderosa do cálculo: agenda cheia = hora-cadeira mais barata.
Pensa no contraste. Duas clínicas idênticas, mesmo custo fixo, mesma cadeira:
- A clínica A roda a 50% de ocupação. O custo da hora dela é o dobro do mínimo.
- A clínica B roda a 90% de ocupação. O custo da hora dela é quase o piso.
A clínica B pode cobrar o mesmo preço da A e ainda ter muito mais margem. Ou cobrar menos e continuar mais lucrativa. A diferença não está no preço. Está na ocupação.
E é exatamente por isso que encher a agenda com paciente que comparece é uma decisão de custo, não só de marketing. Não basta gerar lead. Precisa qualificar quem é particular, responder rápido enquanto o paciente decide, e garantir que o agendamento vire comparecimento. Cada cadeira ocupada por paciente que de fato comparece é o seu custo de hora caindo.
É o ponto onde captação e gestão de custo se encontram: a clínica que enche a cadeira de forma previsível tem, por construção, a hora mais barata da cidade.
Seu próximo passo
- Levante o número real, não o estimado. Puxe 12 meses de extrato, classifique todo custo fixo e variável, lance a depreciação dos equipamentos e some o seu pro-labore. Esse é o seu numerador honesto.
- Calcule pelas horas produtivas, não pela jornada cheia. Meça quantas horas a cadeira de fato produz (descontando buracos, faltas e tempo morto) e aplique a fórmula. O número que sair é o seu piso real de preço.
- Ataque o denominador. Antes de cortar custo, encha a cadeira com paciente que comparece. Ocupação é a alavanca que mais barateia a sua hora, e ela depende de captação qualificada e de comparecimento, não só de volume de lead.
Quer transformar a ocupação da sua cadeira em algo previsível, com paciente certo que comparece e dilui o seu custo de hora? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
O que é hora-cadeira na clínica odontológica?
Hora-cadeira é quanto custa manter uma cadeira odontológica em operação por uma hora, considerando custos fixos, variáveis, pro-labore e a margem que você quer. É a unidade base de toda precificação: você define o preço de um procedimento a partir do tempo de cadeira que ele consome.
Qual é a fórmula para calcular o custo da hora-cadeira?
A fórmula canônica é (custos fixos + custos variáveis + pro-labore + lucro desejado) dividido pelas horas produtivas do período. O detalhe que muda tudo é o denominador: use as horas que a cadeira de fato produz, não a jornada cheia da clínica.
Por que o pro-labore entra como custo e não como lucro?
Porque o trabalho clínico do dono tem um preço de mercado que precisa ser pago antes de existir lucro. Se você não tira o seu salário da conta, o número de margem fica inflado e você descobre tarde que estava trabalhando de graça. Pro-labore é remuneração do trabalho; lucro é o retorno do negócio.
Por que dividir pelas horas produtivas e não pela jornada cheia?
Porque cadeira aberta não é cadeira produzindo. Se você divide o custo total pela jornada cheia (que inclui buracos de agenda, faltas e tempo morto), subestima o custo real da hora. Dividir pelas horas que de fato geram receita revela o número verdadeiro, e expõe quanto a ociosidade está custando.
A ociosidade aumenta o custo da hora-cadeira?
Aumenta, e muito. Os custos fixos correm com a cadeira ocupada ou vazia. Quando metade das horas fica ociosa, os mesmos custos se diluem na metade das horas produtivas, então cada hora produzida custa o dobro. Por isso encher a agenda é a forma mais rápida de baixar o custo da sua hora.
Com que frequência devo recalcular a hora-cadeira?
Recalcule sempre que um custo relevante mudar (aluguel, salário, novo equipamento, contratação), no reajuste anual de preço, e quando a ocupação da agenda cair de forma consistente. Hora-cadeira não é cálculo de uma vez só: é um número vivo que acompanha a operação.