Como precificar tratamentos na clínica odontológica sem dar prejuízo (implante, protocolo, lente)?
Precificar no chute, copiando o concorrente, é o que faz a clínica trabalhar muito e lucrar pouco. Veja como calcular a hora clínica, montar o preço por procedimento (implante, protocolo, lente) com custo, protético, cartão e imposto, e achar o ponto de equilíbrio sem dar prejuízo.
Você precifica sem prejuízo partindo do custo real: calcule a hora clínica, some material, protético, taxa de cartão, imposto e a margem que você quer, e nunca cobre abaixo do que o procedimento consome. Copiar o preço do concorrente é o atalho que esconde o prejuízo.
- O ponto de equilíbrio (faturamento mínimo pra não ter lucro nem prejuízo) é os gastos fixos divididos pela margem de contribuição unitária, segundo o Guia de Precificação do SEBRAE. Abaixo dele, cada mês fecha no vermelho mesmo com a agenda cheia.
- O método mais confiável não é copiar o concorrente, é o markup: você multiplica o custo do serviço por uma taxa que embute despesas, tributos e a margem desejada, conforme o SEBRAE. Preço de mercado serve de referência, não de base de cálculo.
- Você tem liberdade legal pra arbitrar seus honorários, mas o Código de Ética Odontológica (CFO, Art. 19 e 21) lista 9 fatores a considerar e veda o aviltamento. Convênio que paga pouco corrói a margem: estudo da revista Arquivos em Odontologia (UFMG) achou pagamento médio de ~45% da tabela de referência.
Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- Por que precificar errado dá prejuízo (sem você perceber)
- Mapear custos: fixos x variáveis
- Cálculo da hora clínica: a base de tudo
- Horas produtivas x horas trabalhadas: o erro que afunda o cálculo
- Fórmula de preço por procedimento
- Margem de lucro x markup: não confunda os dois
- Ponto de equilíbrio: o faturamento mínimo pra não ter prejuízo
- Margem de contribuição por procedimento
- Como precificar implante e protocolo
- Como precificar lente de contato dental e facetas
- O custo do laboratório como variável crítica
- Taxa de cartão e parcelamento corroendo a margem
- Inadimplência e tratamentos longos: caixa x competência
- Impostos sobre o faturamento
- O que o CFO permite cobrar (e o limite do aviltamento)
- Convênio paga abaixo da tabela: o impacto na margem
- Preço x valor: posicionamento e percepção
- Erros comuns de precificação (e como evitar)
- Quando e como reajustar preços sem perder paciente
- O custo de aquisição do paciente entra antes da margem
- Tabela de preços própria por grau de dificuldade
- Pacotes e planos de tratamento completos
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Como precificar tratamentos na minha clínica odontológica sem dar prejuízo, principalmente os caros como implante, protocolo e lente?"
A maioria das clínicas não tem um problema de preço. Tem um problema de conta.
O preço foi definido olhando o concorrente, herdado de quando a clínica abriu, ou chutado "pra ficar competitivo". Ninguém parou pra calcular quanto cada procedimento de fato consome.
O resultado é o pior cenário possível: agenda cheia, dentista exausto e lucro que não aparece. Você trabalha o mês inteiro e o caixa não fecha.
Precificar sem prejuízo não é arte. É conta. Parte do seu custo real, soma o que cada procedimento consome, embute imposto e cartão, e aplica a margem que você quer. Só depois você olha o mercado.
Neste guia você vai ver:
- Por que precificar no chute esconde o prejuízo até o caixa estourar
- Como mapear seus custos fixos e variáveis de verdade
- Como calcular a hora clínica e por que horas produtivas mudam tudo
- A fórmula de preço por procedimento (implante, protocolo, lente)
- Margem x markup, ponto de equilíbrio e margem de contribuição
- Cartão, imposto, convênio e o que o CFO permite cobrar
- Como reajustar e posicionar preço sem perder o paciente certo
Por que precificar errado dá prejuízo (sem você perceber)
Aqui está a armadilha: o prejuízo de precificação é invisível no dia a dia.
Você fecha um implante, recebe o valor, paga o protético, paga o material. Sobrou dinheiro no bolso. Parece lucro.
Mas não entrou na conta o pedaço do aluguel, do salário da equipe, da energia, do software e da sua própria remuneração que aquela hora de cadeira consumiu. Quando você soma tudo isso, descobre que vários procedimentos saem abaixo do custo real.
Pensa assim: cada procedimento que sai abaixo do custo é um pequeno furo no casco. Um você nem sente. Cinquenta por mês afundam o barco com a agenda lotada.
Por isso clínica cheia pode dar prejuízo. O volume não conserta preço errado, ele multiplica o erro.
Lembre: preço abaixo do custo real não aparece no atendimento, aparece no fim do mês. Quando o caixa não fecha apesar da agenda cheia, o problema quase nunca é volume. É preço.
Mapear custos: fixos x variáveis
Não existe preço certo sem conhecer o custo. E custo tem dois tipos que se comportam de forma diferente.
Custos fixos existem com a clínica aberta, atenda você 10 ou 100 pacientes:
- Aluguel e condomínio
- Salários e encargos da equipe (recepção, CRC, auxiliares)
- Software de gestão e sistemas
- Energia, água, internet, telefone
- Pró-labore (sua remuneração como dono)
- Contador, limpeza, manutenção
Custos variáveis só existem quando você executa o procedimento:
- Material de consumo e descartáveis
- Protético e laboratório (peça crítica em alta complexidade)
- A prótese em si (implante, pino, parafuso, coroa)
- Taxa de cartão e antecipação
- Impostos sobre o faturamento
A regra mental é simples: fixo você paga mesmo com a cadeira parada; variável só nasce quando o paciente está na cadeira.
| Tipo | O que entra | Comportamento |
|---|---|---|
| Fixo | Aluguel, salários, software, energia, pró-labore | Existe com a clínica aberta, independente do volume |
| Variável | Material, protético, descartáveis, cartão, imposto | Só nasce quando você executa o procedimento |
Sem separar os dois, qualquer cálculo de preço vem torto.
Cálculo da hora clínica: a base de tudo
Esse é o número que muda o jogo. A hora clínica é quanto custa manter sua cadeira aberta e produzindo por uma hora.
A lógica é direta. Você soma o que precisa cobrir todo mês e divide pelas horas que de fato faturam:
Hora clínica = (gastos fixos do mês + pró-labore + margem desejada) ÷ horas produtivas no mês
Veja como funciona na prática:
- Some os gastos fixos do mês. Aluguel, salários, software, energia, contador, tudo que existe com a clínica aberta.
- Some o seu pró-labore. Sua remuneração como dono não é lucro, é custo. Tem que estar na conta.
- Some a margem que você quer. O lucro não é o que sobra por acaso. É uma meta que entra no cálculo.
- Divida pelas horas produtivas do mês. Não pelas horas trabalhadas. Pelas que faturam.
O resultado é o custo de cada hora de cadeira. A partir dele, todo procedimento ganha um piso.
A maioria das clínicas erra no passo 4, e é nele que está o maior vazamento.
Horas produtivas x horas trabalhadas: o erro que afunda o cálculo
Repare nesta diferença, porque ela sozinha desmonta a precificação de muita clínica.
Hora trabalhada é a hora que a clínica está aberta. Hora produtiva é a hora em que a cadeira está faturando, com paciente em procedimento que gera receita.
A diferença é enorme. Entre faltas, buracos na agenda, retornos sem cobrança, primeira avaliação não convertida e cadeira ociosa, boa parte das horas abertas não produz receita.
E aqui está o ponto: a cadeira parada não fatura, mas continua consumindo custo fixo. O aluguel corre, o salário corre, a energia corre.
Se você calcula a hora clínica dividindo pelas horas trabalhadas (e não pelas produtivas), você subestima o custo de cada hora real de produção. Aí precifica baixo e nem sabe.
Lembre: quanto mais cadeira ociosa, mais cara fica cada hora produtiva, porque menos horas precisam pagar os mesmos custos fixos. Reduzir buraco de agenda e no-show não é só faturar mais. É baratear o seu custo por procedimento.
É por isso que comparecimento entra na conta de preço. Cada paciente que falta encarece, na prática, todos os outros.
Fórmula de preço por procedimento
Com a hora clínica calculada, montar o preço de qualquer procedimento vira soma. A fórmula é a mesma pra limpeza ou pra protocolo:
Preço = (hora clínica × tempo do procedimento) + material + protético + taxa de cartão + impostos + margem
Cada parcela tem um papel:
- Hora clínica × tempo: quanto da estrutura aquele procedimento consome (um protocolo ocupa muito mais cadeira que uma restauração).
- Material: insumos específicos daquele caso.
- Protético / laboratório: o custo da peça (crítico em prótese e lente).
- Taxa de cartão: o que a maquininha e a antecipação comem.
- Impostos: o que incide sobre o faturamento.
- Margem: o lucro que você definiu como meta, não o que sobra por acaso.
Esse é o piso. É quanto você precisa cobrar pra não sair no prejuízo. O preço final pode (e deve) subir sobre esse piso por posicionamento, dificuldade e valor percebido. Mas nunca descer abaixo dele.
A diferença entre uma clínica que lucra e uma que sofre não é o preço de tabela. É saber qual é esse piso e nunca furá-lo.
Margem de lucro x markup: não confunda os dois
Esses dois termos confundem muita gente e o erro custa caro. Eles não são a mesma coisa.
Margem de lucro é o quanto do preço final sobra de lucro. É calculada sobre o preço de venda. Se o procedimento sai por R$ 1.000 e R$ 300 são lucro, a margem é 30%.
Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo pra chegar ao preço. Ele embute, de uma vez, despesas, impostos e a margem desejada.
Segundo o Guia de Precificação do SEBRAE, o markup é o método mais tradicional de precificação: você multiplica o custo do serviço por uma taxa de marcação que cobre despesas, tributos e o lucro almejado, em vez de simplesmente copiar o concorrente. O markup ideal sai da relação entre as despesas mensais sobre o faturamento e a lucratividade que você quer.
A confusão clássica é "quero 30% de margem" e aplicar 30% sobre o custo. Isso não dá 30% de margem, dá menos, porque margem é sobre a venda e markup é sobre o custo. Errar isso achata o lucro sem você notar.
| Conceito | Calculado sobre | Pra que serve |
|---|---|---|
| Margem de lucro | Preço de venda | Saber quanto do preço é lucro |
| Markup | Custo | Chegar ao preço embutindo tudo |
Ponto de equilíbrio: o faturamento mínimo pra não ter prejuízo
Antes de pensar em lucro, você precisa saber qual é o chão. O ponto de equilíbrio é o faturamento em que a clínica não tem lucro nem prejuízo: cobre todos os custos, e nada mais.
Segundo o SEBRAE, o ponto de equilíbrio é o volume de vendas capaz de cobrir todos os gastos fixos e variáveis, e a fórmula contábil é:
Ponto de equilíbrio = gastos fixos ÷ margem de contribuição unitária
Onde a margem de contribuição unitária é o preço de venda menos os gastos variáveis por unidade.
O que isso significa na prática:
- Abaixo do ponto de equilíbrio, cada mês fecha no vermelho, mesmo com agenda cheia.
- No ponto de equilíbrio, você só paga as contas. Não sobra nada.
- Acima dele, cada real a mais começa a virar lucro de verdade.
Saber o seu ponto de equilíbrio responde a pergunta que toda clínica deveria saber responder: "quanto eu preciso faturar este mês só pra não dar prejuízo?". Sem esse número, você dirige no escuro.
Margem de contribuição por procedimento
A margem de contribuição mostra quanto cada procedimento sobra pra ajudar a pagar os custos fixos, depois de descontar só o que ele mesmo consome de variável.
Margem de contribuição = preço de venda - gastos variáveis do procedimento
Esse número é ouro pra decisão. Ele revela quais procedimentos de fato sustentam a clínica e quais só dão trabalho.
Um exemplo de como pensar: um procedimento de ticket alto pode ter margem de contribuição enorme; outro, de aparência rentável, pode contribuir quase nada depois de descontar protético e cartão. A conta separa o que parece bom do que é bom.
É a margem de contribuição que alimenta o ponto de equilíbrio (ela é o denominador da fórmula do SEBRAE). Por isso os dois andam juntos: você só sabe quanto faturar pra empatar quando sabe quanto cada procedimento contribui.
Como precificar implante e protocolo
Implante e protocolo são os casos onde o erro de preço pesa mais, porque o material e o protético são caros e variam muito.
Os pontos que mais mexem no preço:
- A prótese e seus componentes: implante, pino, parafuso, coroa. Material de marca premium custa mais que genérico, e isso entra direto no preço.
- O protético / laboratório: em protocolo de arcada inteira, a peça é cara e o trabalho do laboratório é grande. Esse custo é variável e crítico.
- O tempo de cadeira: protocolo ocupa muitas horas, em várias sessões. A hora clínica multiplicada por esse tempo pesa.
- A complexidade do caso: enxerto, carga imediata e casos sem osso consomem mais material, mais tempo e mais expertise.
O risco aqui é cobrar pelo "valor de mercado do protocolo" sem somar o seu protético, o seu tempo real de cadeira e o seu material. Quando o caso é complexo, o custo real pode estourar o preço "padrão" que você viu por aí.
Em alto ticket, a régua não é o preço cheio. É a margem de contribuição depois de descontar o protético e o material. Veja também quanto investir pra captar o paciente de protocolo e o custo por paciente de implante.
Como precificar lente de contato dental e facetas
Lente é estética de alto valor, e o erro de preço costuma estar no que não se vê: o tempo de planejamento.
Diferente de outros procedimentos, a lente carrega trabalho que acontece antes da cadeira:
- Planejamento e estudo do sorriso: análise, fotos, projeto. Horas que custam.
- Mock-up / ensaio: a prévia que o paciente aprova antes de executar.
- Laboratório: a peça em si, peça crítica e cara, que define boa parte do custo variável.
- A execução em cadeira: preparo, prova, cimentação, ajuste.
Muita clínica precifica lente só pela execução e "esquece" de cobrar o planejamento, o mock-up e o tempo de projeto. Esse tempo é custo, e custo não cobrado é margem que vira prejuízo.
Em lente e facetas, o protético é tão decisivo no custo que ele precisa entrar item a item no cálculo, nunca por estimativa redonda.
O custo do laboratório como variável crítica
Vale uma seção só pra isso, porque em alta complexidade o protético é o que mais distorce o preço.
Quanto mais complexo o caso, maior o peso do laboratório no custo total. Em protocolo, prótese e lente, o protético pode ser a maior parcela variável do procedimento.
Por isso, dois cuidados:
- Cote o protético por caso, não por média. O custo varia por material, número de elementos e complexidade. Estimativa redonda esconde prejuízo.
- Repasse aumento de protético no preço. Quando o laboratório reajusta, seu custo subiu. Continuar no preço antigo é absorver o reajuste com a sua margem.
Tratar o protético como detalhe é o atalho mais rápido pra um caso caro virar um caso no prejuízo.
Taxa de cartão e parcelamento corroendo a margem
O paciente parcela e você comemora o fechamento. Mas o parcelamento tem um custo que come a margem por dentro.
Onde a margem vaza:
- Taxa da maquininha: cada transação tem um percentual que fica com a operadora.
- Antecipação: receber o parcelado à vista custa um desconto sobre o valor. Quanto mais parcelas, maior o custo de antecipar.
- Parcelamento longo sem repasse: se você oferece muitas vezes sem juros e antecipa tudo, o custo da antecipação sai do seu bolso.
A taxa de cartão precisa estar dentro da fórmula de preço, não ser uma surpresa no extrato. Em tratamento de alto valor parcelado em muitas vezes, esse custo é relevante e tem que ser precificado.
A regra: se o parcelamento ajuda a fechar (e ajuda muito em alto ticket), ótimo. Mas o custo dele entra na conta antes, não depois.
Inadimplência e tratamentos longos: caixa x competência
Tratamento longo, como protocolo e ortodontia, traz um risco que a precificação precisa enxergar: o descasamento entre o que você fatura e o que você recebe.
Duas armadilhas:
- Caixa x competência: você executou o trabalho (competência), mas o dinheiro ainda não entrou (caixa). O material e o protético você já pagou. O paciente ainda está pagando.
- Inadimplência: parcela que atrasa ou não vem é margem que evapora depois do custo já ter saído.
Em tratamento parcelado direto com a clínica, a inadimplência é um custo real que a precificação prudente considera. Política de cobrança, garantia de pagamento e parcelamento via financeira (em vez de no caixa da clínica) protegem a margem. Veja como reduzir a inadimplência sem perder o paciente.
Impostos sobre o faturamento
Imposto não é detalhe contábil, é parcela do preço. E quem esquece dele precifica abaixo do custo.
A maioria das clínicas odontológicas opera no Simples Nacional, e há uma alíquota que incide sobre o faturamento. Esse percentual sai de cada procedimento que você cobra.
O ponto pra precificação:
- O imposto incide sobre o valor cobrado, então ele tem que estar embutido no preço.
- Confirme a sua alíquota com o seu contador, porque ela varia por enquadramento e faixa de faturamento.
- Quem precifica "esquecendo" o imposto descobre o furo no fim do mês, quando o tributo é debitado.
Imposto entra na fórmula como uma parcela fixa do preço, ao lado de cartão e protético. Não é opcional.
O que o CFO permite cobrar (e o limite do aviltamento)
Existe liberdade pra precificar, mas existe também um limite ético e legal. Vale conhecer os dois.
O Código de Ética Odontológica do CFO, no Art. 19, garante ao cirurgião-dentista a liberdade pra arbitrar seus honorários (inciso X). E lista 9 fatores que você deve considerar ao fixar o preço:
- A condição socioeconômica do paciente
- O conceito do profissional
- O costume do lugar
- A complexidade do caso
- O tempo utilizado no atendimento
- O caráter de permanência ou temporariedade do trabalho
- A circunstância da prestação
- A cooperação do paciente
- O custo operacional
Repare que "custo operacional" e "complexidade do caso" estão lá: o próprio código aponta pra precificação baseada em custo, não no chute.
Do outro lado, o Art. 21 do mesmo código veda o aviltamento profissional: o dentista deve evitar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais para procedimentos odontológicos, inclusive por parte de convênios e credenciamentos.
Lembre: o CFO te dá liberdade pra precificar, mas trata como antiético cobrar valores aviltados. Preço abaixo do custo não é só prejuízo de gestão. É um problema ético que o código nomeia.
(Aqui vale a ressalva: a leitura do código é orientação de gestão. Para o enquadramento específico do seu caso, confirme com o seu CRO e o seu jurídico.)
Convênio paga abaixo da tabela: o impacto na margem
Convênio enche a agenda, mas pode esvaziar a margem. E a precificação precisa enxergar isso com clareza.
Estudo publicado na revista Arquivos em Odontologia (UFMG) constatou que as operadoras de planos odontológicos pagam aos dentistas, em média, cerca de 45% do valor da tabela de referência do CFO, com um desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos (o maior desconto, em procedimentos preventivos, chegou a 57,09%).
O que isso quer dizer pra sua conta: se o convênio paga perto de metade da referência, o procedimento de convênio precisa ter custo muito enxuto pra não dar prejuízo. Muitas vezes não tem.
Por isso o paciente particular sustenta a clínica e o convênio, mal dimensionado, drena a margem. A decisão de aceitar (ou não) convênio é, no fundo, uma decisão de precificação. Veja como atrair mais paciente particular e menos de convênio.
Preço x valor: posicionamento e percepção
Custo define o piso. Posicionamento define o teto. São coisas diferentes, e confundir as duas é caro.
O custo te diz o mínimo que você pode cobrar. Mas o quanto acima desse mínimo você cobra depende do valor que o paciente percebe.
Três posicionamentos possíveis:
- Popular: preço acessível, volume alto, margem por procedimento menor. Exige operação muito enxuta pra não furar o piso.
- Premium: preço alto, volume menor, margem maior, foco em experiência, autoridade e segurança.
- Nichado: especialista numa coisa (reabilitação, estética avançada), cobra mais por ser referência naquilo.
Em alto ticket, o paciente não escolhe pelo menor preço. Ele escolhe por confiança e segurança. Quem se posiciona como referência tira o procedimento da comparação por centavos. Veja como definir o posicionamento da clínica.
A clínica que cobra baixo "pra ganhar no volume" muitas vezes só ganha o trabalho, não o lucro. Preço também comunica valor.
Erros comuns de precificação (e como evitar)
Antes de fechar a metodologia, conheça os erros que mais derrubam margem. Provavelmente você já cometeu algum.
| Erro | Por que dá prejuízo | O certo |
|---|---|---|
| Copiar o preço do concorrente | Você herda a estrutura de custo dele, que não conhece | Calcular pelo seu custo + markup (SEBRAE) |
| Ignorar o custo real (hora clínica) | Precifica abaixo do que o procedimento consome | Calcular a hora clínica sobre horas produtivas |
| Esquecer cartão e imposto | Some na hora de cobrar, some no fim do mês | Embutir cartão e imposto na fórmula |
| Não cobrar planejamento (lente) | Tempo de projeto é custo não faturado | Incluir mock-up e planejamento no preço |
| Competir só por preço | Vira commodity, margem some | Posicionar por valor e segurança |
| Não saber o ponto de equilíbrio | Não sabe se o mês deu prejuízo | Calcular faturamento mínimo (SEBRAE) |
O fio condutor de todos eles é o mesmo: precificar sem conhecer o custo. A conta resolve.
Quando e como reajustar preços sem perder paciente
Custo sobe (material, protético, cartão, salário), então preço tem que acompanhar. Mas reajuste assusta. Dá pra fazer sem espantar paciente.
Como reajustar com segurança:
- Ancore no custo real. Quando protético e material sobem, seu preço subiu junto. Manter o antigo é absorver o aumento com a sua margem.
- Comunique pelo valor, não pelo número. O paciente de alto ticket compara confiança, resultado e segurança, não centavos. Reforce o que ele recebe.
- Reajuste os novos casos primeiro. Quem já está em tratamento mantém a condição combinada; o preço novo vale pra quem entra.
O perigo maior não é reajustar. É continuar cobrando um preço que já dá prejuízo por medo de mexer. Preço congelado enquanto o custo sobe é margem morrendo em silêncio.
O custo de aquisição do paciente entra antes da margem
Esse ponto quase ninguém coloca na conta, e ele muda a precificação de quem investe em marketing.
Se você atrai paciente por anúncio (Google, Meta), existe um custo de aquisição: quanto você gastou em mídia e estrutura pra trazer aquele paciente que fechou. Esse custo precisa caber no preço antes da margem.
Pensa assim: o preço do procedimento tem que cobrir o custo de produção (hora clínica, material, protético, cartão, imposto) e o pedaço do marketing que trouxe aquele paciente. Só o que sobra depois disso é lucro.
É por isso que a métrica certa não é "custo por lead", é custo por paciente que compareceu e fechou. Lead barato que não fecha não barateia nada, encarece, porque você paga pra atrair e não converte. Veja o custo e retorno real do marketing pra clínica e como medir se a agência traz paciente ou só lead.
Nos dados internos da Odonto Results, o gargalo raramente é o anúncio: é o atendimento e o comparecimento, que definem se aquele custo de aquisição vira paciente na cadeira ou vira prejuízo. Precificar sem considerar o que custou trazer o paciente é deixar o marketing comer a margem por dentro.
Tabela de preços própria por grau de dificuldade
Junte tudo numa ferramenta de decisão: a sua tabela de preços, organizada por complexidade.
A ideia é simples. Para cada procedimento, defina uma faixa (mínimo e máximo), não um preço único:
- Mínimo: o piso, calculado pela fórmula. Abaixo dele, prejuízo. Inegociável.
- Máximo: o teto, definido por posicionamento, complexidade e valor percebido.
- Por grau de dificuldade: o mesmo procedimento custa diferente conforme o caso (um implante simples não é um implante com enxerto).
Com a faixa na mão, a negociação tem trilho: você pode flexibilizar dentro da faixa, nunca abaixo do mínimo. Some posicionamento e dá pra desenhar pacotes e planos de tratamento completos com preço coerente, sem improviso na hora de fechar.
A tabela tira a precificação da emoção do atendimento e coloca na conta feita com calma.
Pacotes e planos de tratamento completos
O paciente de alto ticket raramente fecha um procedimento isolado. Ele fecha um plano. E plano também se precifica com método.
Como montar sem furar a margem:
- Some os pisos, depois pense no pacote. Cada procedimento do plano tem seu custo. O pacote parte da soma desses custos, nunca de um desconto chutado.
- Desconto sai da margem, não do custo. Se você der condição no pacote, o desconto come a sua margem, não o seu custo. Saiba quanto de margem você está cedendo.
- Use o valor do conjunto, não o desconto. O argumento de um plano completo é resultado e previsibilidade pro paciente, não "ficou mais barato".
Plano de tratamento bem precificado aumenta o ticket sem destruir margem. Plano com desconto no chute aumenta o trabalho e some com o lucro. Veja como criar oferta forte sem dar desconto.
Seu próximo passo
- Calcule a sua hora clínica. Some gastos fixos, pró-labore e margem, e divida pelas horas produtivas (não pelas trabalhadas). Esse é o número que falta na maioria das clínicas.
- Monte o piso de cada procedimento caro. Para implante, protocolo e lente, aplique a fórmula com material, protético, cartão e imposto. Descubra quais procedimentos hoje saem abaixo do custo.
- Feche a conta até o paciente na cadeira. Inclua o custo de aquisição no preço e meça custo por paciente que fechou, não custo por lead. É o que garante que o marketing pague a margem, e não o contrário.
Quer um motor de aquisição que entrega paciente que comparece e fecha, pra a sua margem trabalhar a favor e não contra? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
Como calcular o preço de um procedimento odontológico?
Some o custo da hora clínica multiplicado pelo tempo do procedimento, mais o material, o protético, a taxa de cartão e os impostos sobre o faturamento, e por cima aplique a margem de lucro que você quer. Esse é o piso real. Cobrar abaixo disso, mesmo que pareça competitivo, dá prejuízo sem você perceber.
O que é a hora clínica e como calcular?
A hora clínica é quanto custa manter sua cadeira aberta por uma hora produtiva. Some os gastos fixos do mês mais o seu pró-labore e a margem desejada, e divida pelas horas produtivas (as que de fato faturam, não as horas que a cadeira fica parada). Esse valor é a base de todo preço por procedimento.
Qual a diferença entre margem de lucro e markup?
Margem de lucro é o quanto do preço final sobra de lucro (calculada sobre o preço de venda). Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo pra chegar ao preço, embutindo despesas, impostos e a margem. Segundo o SEBRAE, o markup é o método mais tradicional e confiável de precificação.
É melhor copiar o preço do concorrente?
Não. Copiar o preço do concorrente é o erro mais comum e mais perigoso, porque você herda a estrutura de custo dele sem conhecer. O preço de mercado serve de referência pra posicionamento, mas a base de cálculo é sempre o seu custo real mais a margem que você quer, pelo método do markup recomendado pelo SEBRAE.
Posso cobrar abaixo da tabela do CFO em convênio?
O Código de Ética Odontológica (CFO) garante liberdade pra arbitrar honorários, mas o Art. 21 veda o aviltamento, inclusive por parte de convênios, com valores irrisórios ou inferiores aos referenciais. Na prática, estudo da revista Arquivos em Odontologia (UFMG) apontou que planos pagam em média cerca de 45% da tabela de referência, o que torna a gestão da margem indispensável.
Como reajustar preços sem perder paciente?
Reajuste com base no custo real (material, protético, cartão e imposto sobem) e comunique com clareza, ancorando no valor e no resultado, não no preço solto. O paciente de alto ticket compara confiança e segurança, não centavos. Mais perigoso que reajustar é continuar cobrando um preço que já dá prejuízo.