Gestão da Clínica

Como precificar tratamentos na clínica odontológica sem dar prejuízo (implante, protocolo, lente)?

Precificar no chute, copiando o concorrente, é o que faz a clínica trabalhar muito e lucrar pouco. Veja como calcular a hora clínica, montar o preço por procedimento (implante, protocolo, lente) com custo, protético, cartão e imposto, e achar o ponto de equilíbrio sem dar prejuízo.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 14 de junho de 2026 · 20 min de leitura
TL;DR

Você precifica sem prejuízo partindo do custo real: calcule a hora clínica, some material, protético, taxa de cartão, imposto e a margem que você quer, e nunca cobre abaixo do que o procedimento consome. Copiar o preço do concorrente é o atalho que esconde o prejuízo.

Pontos-chave
  • O ponto de equilíbrio (faturamento mínimo pra não ter lucro nem prejuízo) é os gastos fixos divididos pela margem de contribuição unitária, segundo o Guia de Precificação do SEBRAE. Abaixo dele, cada mês fecha no vermelho mesmo com a agenda cheia.
  • O método mais confiável não é copiar o concorrente, é o markup: você multiplica o custo do serviço por uma taxa que embute despesas, tributos e a margem desejada, conforme o SEBRAE. Preço de mercado serve de referência, não de base de cálculo.
  • Você tem liberdade legal pra arbitrar seus honorários, mas o Código de Ética Odontológica (CFO, Art. 19 e 21) lista 9 fatores a considerar e veda o aviltamento. Convênio que paga pouco corrói a margem: estudo da revista Arquivos em Odontologia (UFMG) achou pagamento médio de ~45% da tabela de referência.

Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Por que precificar errado dá prejuízo (sem você perceber)
  4. Mapear custos: fixos x variáveis
  5. Cálculo da hora clínica: a base de tudo
  6. Horas produtivas x horas trabalhadas: o erro que afunda o cálculo
  7. Fórmula de preço por procedimento
  8. Margem de lucro x markup: não confunda os dois
  9. Ponto de equilíbrio: o faturamento mínimo pra não ter prejuízo
  10. Margem de contribuição por procedimento
  11. Como precificar implante e protocolo
  12. Como precificar lente de contato dental e facetas
  13. O custo do laboratório como variável crítica
  14. Taxa de cartão e parcelamento corroendo a margem
  15. Inadimplência e tratamentos longos: caixa x competência
  16. Impostos sobre o faturamento
  17. O que o CFO permite cobrar (e o limite do aviltamento)
  18. Convênio paga abaixo da tabela: o impacto na margem
  19. Preço x valor: posicionamento e percepção
  20. Erros comuns de precificação (e como evitar)
  21. Quando e como reajustar preços sem perder paciente
  22. O custo de aquisição do paciente entra antes da margem
  23. Tabela de preços própria por grau de dificuldade
  24. Pacotes e planos de tratamento completos
  25. Seu próximo passo
  26. Perguntas frequentes

"Como precificar tratamentos na minha clínica odontológica sem dar prejuízo, principalmente os caros como implante, protocolo e lente?"

A maioria das clínicas não tem um problema de preço. Tem um problema de conta.

O preço foi definido olhando o concorrente, herdado de quando a clínica abriu, ou chutado "pra ficar competitivo". Ninguém parou pra calcular quanto cada procedimento de fato consome.

O resultado é o pior cenário possível: agenda cheia, dentista exausto e lucro que não aparece. Você trabalha o mês inteiro e o caixa não fecha.

Precificar sem prejuízo não é arte. É conta. Parte do seu custo real, soma o que cada procedimento consome, embute imposto e cartão, e aplica a margem que você quer. Só depois você olha o mercado.

Neste guia você vai ver:

  • Por que precificar no chute esconde o prejuízo até o caixa estourar
  • Como mapear seus custos fixos e variáveis de verdade
  • Como calcular a hora clínica e por que horas produtivas mudam tudo
  • A fórmula de preço por procedimento (implante, protocolo, lente)
  • Margem x markup, ponto de equilíbrio e margem de contribuição
  • Cartão, imposto, convênio e o que o CFO permite cobrar
  • Como reajustar e posicionar preço sem perder o paciente certo

Por que precificar errado dá prejuízo (sem você perceber)

Aqui está a armadilha: o prejuízo de precificação é invisível no dia a dia.

Você fecha um implante, recebe o valor, paga o protético, paga o material. Sobrou dinheiro no bolso. Parece lucro.

Mas não entrou na conta o pedaço do aluguel, do salário da equipe, da energia, do software e da sua própria remuneração que aquela hora de cadeira consumiu. Quando você soma tudo isso, descobre que vários procedimentos saem abaixo do custo real.

Pensa assim: cada procedimento que sai abaixo do custo é um pequeno furo no casco. Um você nem sente. Cinquenta por mês afundam o barco com a agenda lotada.

Por isso clínica cheia pode dar prejuízo. O volume não conserta preço errado, ele multiplica o erro.

Lembre: preço abaixo do custo real não aparece no atendimento, aparece no fim do mês. Quando o caixa não fecha apesar da agenda cheia, o problema quase nunca é volume. É preço.

Mapear custos: fixos x variáveis

Não existe preço certo sem conhecer o custo. E custo tem dois tipos que se comportam de forma diferente.

Custos fixos existem com a clínica aberta, atenda você 10 ou 100 pacientes:

  • Aluguel e condomínio
  • Salários e encargos da equipe (recepção, CRC, auxiliares)
  • Software de gestão e sistemas
  • Energia, água, internet, telefone
  • Pró-labore (sua remuneração como dono)
  • Contador, limpeza, manutenção

Custos variáveis só existem quando você executa o procedimento:

  • Material de consumo e descartáveis
  • Protético e laboratório (peça crítica em alta complexidade)
  • A prótese em si (implante, pino, parafuso, coroa)
  • Taxa de cartão e antecipação
  • Impostos sobre o faturamento

A regra mental é simples: fixo você paga mesmo com a cadeira parada; variável só nasce quando o paciente está na cadeira.

Tipo O que entra Comportamento
Fixo Aluguel, salários, software, energia, pró-labore Existe com a clínica aberta, independente do volume
Variável Material, protético, descartáveis, cartão, imposto Só nasce quando você executa o procedimento

Sem separar os dois, qualquer cálculo de preço vem torto.

Cálculo da hora clínica: a base de tudo

Esse é o número que muda o jogo. A hora clínica é quanto custa manter sua cadeira aberta e produzindo por uma hora.

A lógica é direta. Você soma o que precisa cobrir todo mês e divide pelas horas que de fato faturam:

Hora clínica = (gastos fixos do mês + pró-labore + margem desejada) ÷ horas produtivas no mês

Veja como funciona na prática:

  1. Some os gastos fixos do mês. Aluguel, salários, software, energia, contador, tudo que existe com a clínica aberta.
  2. Some o seu pró-labore. Sua remuneração como dono não é lucro, é custo. Tem que estar na conta.
  3. Some a margem que você quer. O lucro não é o que sobra por acaso. É uma meta que entra no cálculo.
  4. Divida pelas horas produtivas do mês. Não pelas horas trabalhadas. Pelas que faturam.

O resultado é o custo de cada hora de cadeira. A partir dele, todo procedimento ganha um piso.

A maioria das clínicas erra no passo 4, e é nele que está o maior vazamento.

Horas produtivas x horas trabalhadas: o erro que afunda o cálculo

Repare nesta diferença, porque ela sozinha desmonta a precificação de muita clínica.

Hora trabalhada é a hora que a clínica está aberta. Hora produtiva é a hora em que a cadeira está faturando, com paciente em procedimento que gera receita.

A diferença é enorme. Entre faltas, buracos na agenda, retornos sem cobrança, primeira avaliação não convertida e cadeira ociosa, boa parte das horas abertas não produz receita.

E aqui está o ponto: a cadeira parada não fatura, mas continua consumindo custo fixo. O aluguel corre, o salário corre, a energia corre.

Se você calcula a hora clínica dividindo pelas horas trabalhadas (e não pelas produtivas), você subestima o custo de cada hora real de produção. Aí precifica baixo e nem sabe.

Lembre: quanto mais cadeira ociosa, mais cara fica cada hora produtiva, porque menos horas precisam pagar os mesmos custos fixos. Reduzir buraco de agenda e no-show não é só faturar mais. É baratear o seu custo por procedimento.

É por isso que comparecimento entra na conta de preço. Cada paciente que falta encarece, na prática, todos os outros.

Fórmula de preço por procedimento

Com a hora clínica calculada, montar o preço de qualquer procedimento vira soma. A fórmula é a mesma pra limpeza ou pra protocolo:

Preço = (hora clínica × tempo do procedimento) + material + protético + taxa de cartão + impostos + margem

Cada parcela tem um papel:

  • Hora clínica × tempo: quanto da estrutura aquele procedimento consome (um protocolo ocupa muito mais cadeira que uma restauração).
  • Material: insumos específicos daquele caso.
  • Protético / laboratório: o custo da peça (crítico em prótese e lente).
  • Taxa de cartão: o que a maquininha e a antecipação comem.
  • Impostos: o que incide sobre o faturamento.
  • Margem: o lucro que você definiu como meta, não o que sobra por acaso.

Esse é o piso. É quanto você precisa cobrar pra não sair no prejuízo. O preço final pode (e deve) subir sobre esse piso por posicionamento, dificuldade e valor percebido. Mas nunca descer abaixo dele.

A diferença entre uma clínica que lucra e uma que sofre não é o preço de tabela. É saber qual é esse piso e nunca furá-lo.

Margem de lucro x markup: não confunda os dois

Esses dois termos confundem muita gente e o erro custa caro. Eles não são a mesma coisa.

Margem de lucro é o quanto do preço final sobra de lucro. É calculada sobre o preço de venda. Se o procedimento sai por R$ 1.000 e R$ 300 são lucro, a margem é 30%.

Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo pra chegar ao preço. Ele embute, de uma vez, despesas, impostos e a margem desejada.

Segundo o Guia de Precificação do SEBRAE, o markup é o método mais tradicional de precificação: você multiplica o custo do serviço por uma taxa de marcação que cobre despesas, tributos e o lucro almejado, em vez de simplesmente copiar o concorrente. O markup ideal sai da relação entre as despesas mensais sobre o faturamento e a lucratividade que você quer.

A confusão clássica é "quero 30% de margem" e aplicar 30% sobre o custo. Isso não dá 30% de margem, dá menos, porque margem é sobre a venda e markup é sobre o custo. Errar isso achata o lucro sem você notar.

Conceito Calculado sobre Pra que serve
Margem de lucro Preço de venda Saber quanto do preço é lucro
Markup Custo Chegar ao preço embutindo tudo

Ponto de equilíbrio: o faturamento mínimo pra não ter prejuízo

Antes de pensar em lucro, você precisa saber qual é o chão. O ponto de equilíbrio é o faturamento em que a clínica não tem lucro nem prejuízo: cobre todos os custos, e nada mais.

Segundo o SEBRAE, o ponto de equilíbrio é o volume de vendas capaz de cobrir todos os gastos fixos e variáveis, e a fórmula contábil é:

Ponto de equilíbrio = gastos fixos ÷ margem de contribuição unitária

Onde a margem de contribuição unitária é o preço de venda menos os gastos variáveis por unidade.

O que isso significa na prática:

  • Abaixo do ponto de equilíbrio, cada mês fecha no vermelho, mesmo com agenda cheia.
  • No ponto de equilíbrio, você só paga as contas. Não sobra nada.
  • Acima dele, cada real a mais começa a virar lucro de verdade.

Saber o seu ponto de equilíbrio responde a pergunta que toda clínica deveria saber responder: "quanto eu preciso faturar este mês só pra não dar prejuízo?". Sem esse número, você dirige no escuro.

Margem de contribuição por procedimento

A margem de contribuição mostra quanto cada procedimento sobra pra ajudar a pagar os custos fixos, depois de descontar só o que ele mesmo consome de variável.

Margem de contribuição = preço de venda - gastos variáveis do procedimento

Esse número é ouro pra decisão. Ele revela quais procedimentos de fato sustentam a clínica e quais só dão trabalho.

Um exemplo de como pensar: um procedimento de ticket alto pode ter margem de contribuição enorme; outro, de aparência rentável, pode contribuir quase nada depois de descontar protético e cartão. A conta separa o que parece bom do que é bom.

É a margem de contribuição que alimenta o ponto de equilíbrio (ela é o denominador da fórmula do SEBRAE). Por isso os dois andam juntos: você só sabe quanto faturar pra empatar quando sabe quanto cada procedimento contribui.

Como precificar implante e protocolo

Implante e protocolo são os casos onde o erro de preço pesa mais, porque o material e o protético são caros e variam muito.

Os pontos que mais mexem no preço:

  • A prótese e seus componentes: implante, pino, parafuso, coroa. Material de marca premium custa mais que genérico, e isso entra direto no preço.
  • O protético / laboratório: em protocolo de arcada inteira, a peça é cara e o trabalho do laboratório é grande. Esse custo é variável e crítico.
  • O tempo de cadeira: protocolo ocupa muitas horas, em várias sessões. A hora clínica multiplicada por esse tempo pesa.
  • A complexidade do caso: enxerto, carga imediata e casos sem osso consomem mais material, mais tempo e mais expertise.

O risco aqui é cobrar pelo "valor de mercado do protocolo" sem somar o seu protético, o seu tempo real de cadeira e o seu material. Quando o caso é complexo, o custo real pode estourar o preço "padrão" que você viu por aí.

Em alto ticket, a régua não é o preço cheio. É a margem de contribuição depois de descontar o protético e o material. Veja também quanto investir pra captar o paciente de protocolo e o custo por paciente de implante.

Como precificar lente de contato dental e facetas

Lente é estética de alto valor, e o erro de preço costuma estar no que não se vê: o tempo de planejamento.

Diferente de outros procedimentos, a lente carrega trabalho que acontece antes da cadeira:

  • Planejamento e estudo do sorriso: análise, fotos, projeto. Horas que custam.
  • Mock-up / ensaio: a prévia que o paciente aprova antes de executar.
  • Laboratório: a peça em si, peça crítica e cara, que define boa parte do custo variável.
  • A execução em cadeira: preparo, prova, cimentação, ajuste.

Muita clínica precifica lente só pela execução e "esquece" de cobrar o planejamento, o mock-up e o tempo de projeto. Esse tempo é custo, e custo não cobrado é margem que vira prejuízo.

Em lente e facetas, o protético é tão decisivo no custo que ele precisa entrar item a item no cálculo, nunca por estimativa redonda.

O custo do laboratório como variável crítica

Vale uma seção só pra isso, porque em alta complexidade o protético é o que mais distorce o preço.

Quanto mais complexo o caso, maior o peso do laboratório no custo total. Em protocolo, prótese e lente, o protético pode ser a maior parcela variável do procedimento.

Por isso, dois cuidados:

  • Cote o protético por caso, não por média. O custo varia por material, número de elementos e complexidade. Estimativa redonda esconde prejuízo.
  • Repasse aumento de protético no preço. Quando o laboratório reajusta, seu custo subiu. Continuar no preço antigo é absorver o reajuste com a sua margem.

Tratar o protético como detalhe é o atalho mais rápido pra um caso caro virar um caso no prejuízo.

Taxa de cartão e parcelamento corroendo a margem

O paciente parcela e você comemora o fechamento. Mas o parcelamento tem um custo que come a margem por dentro.

Onde a margem vaza:

  • Taxa da maquininha: cada transação tem um percentual que fica com a operadora.
  • Antecipação: receber o parcelado à vista custa um desconto sobre o valor. Quanto mais parcelas, maior o custo de antecipar.
  • Parcelamento longo sem repasse: se você oferece muitas vezes sem juros e antecipa tudo, o custo da antecipação sai do seu bolso.

A taxa de cartão precisa estar dentro da fórmula de preço, não ser uma surpresa no extrato. Em tratamento de alto valor parcelado em muitas vezes, esse custo é relevante e tem que ser precificado.

A regra: se o parcelamento ajuda a fechar (e ajuda muito em alto ticket), ótimo. Mas o custo dele entra na conta antes, não depois.

Inadimplência e tratamentos longos: caixa x competência

Tratamento longo, como protocolo e ortodontia, traz um risco que a precificação precisa enxergar: o descasamento entre o que você fatura e o que você recebe.

Duas armadilhas:

  • Caixa x competência: você executou o trabalho (competência), mas o dinheiro ainda não entrou (caixa). O material e o protético você já pagou. O paciente ainda está pagando.
  • Inadimplência: parcela que atrasa ou não vem é margem que evapora depois do custo já ter saído.

Em tratamento parcelado direto com a clínica, a inadimplência é um custo real que a precificação prudente considera. Política de cobrança, garantia de pagamento e parcelamento via financeira (em vez de no caixa da clínica) protegem a margem. Veja como reduzir a inadimplência sem perder o paciente.

Impostos sobre o faturamento

Imposto não é detalhe contábil, é parcela do preço. E quem esquece dele precifica abaixo do custo.

A maioria das clínicas odontológicas opera no Simples Nacional, e há uma alíquota que incide sobre o faturamento. Esse percentual sai de cada procedimento que você cobra.

O ponto pra precificação:

  • O imposto incide sobre o valor cobrado, então ele tem que estar embutido no preço.
  • Confirme a sua alíquota com o seu contador, porque ela varia por enquadramento e faixa de faturamento.
  • Quem precifica "esquecendo" o imposto descobre o furo no fim do mês, quando o tributo é debitado.

Imposto entra na fórmula como uma parcela fixa do preço, ao lado de cartão e protético. Não é opcional.

O que o CFO permite cobrar (e o limite do aviltamento)

Existe liberdade pra precificar, mas existe também um limite ético e legal. Vale conhecer os dois.

O Código de Ética Odontológica do CFO, no Art. 19, garante ao cirurgião-dentista a liberdade pra arbitrar seus honorários (inciso X). E lista 9 fatores que você deve considerar ao fixar o preço:

  1. A condição socioeconômica do paciente
  2. O conceito do profissional
  3. O costume do lugar
  4. A complexidade do caso
  5. O tempo utilizado no atendimento
  6. O caráter de permanência ou temporariedade do trabalho
  7. A circunstância da prestação
  8. A cooperação do paciente
  9. O custo operacional

Repare que "custo operacional" e "complexidade do caso" estão lá: o próprio código aponta pra precificação baseada em custo, não no chute.

Do outro lado, o Art. 21 do mesmo código veda o aviltamento profissional: o dentista deve evitar valores irrisórios ou inferiores aos referenciais para procedimentos odontológicos, inclusive por parte de convênios e credenciamentos.

Lembre: o CFO te dá liberdade pra precificar, mas trata como antiético cobrar valores aviltados. Preço abaixo do custo não é só prejuízo de gestão. É um problema ético que o código nomeia.

(Aqui vale a ressalva: a leitura do código é orientação de gestão. Para o enquadramento específico do seu caso, confirme com o seu CRO e o seu jurídico.)

Convênio paga abaixo da tabela: o impacto na margem

Convênio enche a agenda, mas pode esvaziar a margem. E a precificação precisa enxergar isso com clareza.

Estudo publicado na revista Arquivos em Odontologia (UFMG) constatou que as operadoras de planos odontológicos pagam aos dentistas, em média, cerca de 45% do valor da tabela de referência do CFO, com um desconto médio de 54,51% sobre os preços sugeridos (o maior desconto, em procedimentos preventivos, chegou a 57,09%).

O que isso quer dizer pra sua conta: se o convênio paga perto de metade da referência, o procedimento de convênio precisa ter custo muito enxuto pra não dar prejuízo. Muitas vezes não tem.

Por isso o paciente particular sustenta a clínica e o convênio, mal dimensionado, drena a margem. A decisão de aceitar (ou não) convênio é, no fundo, uma decisão de precificação. Veja como atrair mais paciente particular e menos de convênio.

Preço x valor: posicionamento e percepção

Custo define o piso. Posicionamento define o teto. São coisas diferentes, e confundir as duas é caro.

O custo te diz o mínimo que você pode cobrar. Mas o quanto acima desse mínimo você cobra depende do valor que o paciente percebe.

Três posicionamentos possíveis:

  • Popular: preço acessível, volume alto, margem por procedimento menor. Exige operação muito enxuta pra não furar o piso.
  • Premium: preço alto, volume menor, margem maior, foco em experiência, autoridade e segurança.
  • Nichado: especialista numa coisa (reabilitação, estética avançada), cobra mais por ser referência naquilo.

Em alto ticket, o paciente não escolhe pelo menor preço. Ele escolhe por confiança e segurança. Quem se posiciona como referência tira o procedimento da comparação por centavos. Veja como definir o posicionamento da clínica.

A clínica que cobra baixo "pra ganhar no volume" muitas vezes só ganha o trabalho, não o lucro. Preço também comunica valor.

Erros comuns de precificação (e como evitar)

Antes de fechar a metodologia, conheça os erros que mais derrubam margem. Provavelmente você já cometeu algum.

Erro Por que dá prejuízo O certo
Copiar o preço do concorrente Você herda a estrutura de custo dele, que não conhece Calcular pelo seu custo + markup (SEBRAE)
Ignorar o custo real (hora clínica) Precifica abaixo do que o procedimento consome Calcular a hora clínica sobre horas produtivas
Esquecer cartão e imposto Some na hora de cobrar, some no fim do mês Embutir cartão e imposto na fórmula
Não cobrar planejamento (lente) Tempo de projeto é custo não faturado Incluir mock-up e planejamento no preço
Competir só por preço Vira commodity, margem some Posicionar por valor e segurança
Não saber o ponto de equilíbrio Não sabe se o mês deu prejuízo Calcular faturamento mínimo (SEBRAE)

O fio condutor de todos eles é o mesmo: precificar sem conhecer o custo. A conta resolve.

Quando e como reajustar preços sem perder paciente

Custo sobe (material, protético, cartão, salário), então preço tem que acompanhar. Mas reajuste assusta. Dá pra fazer sem espantar paciente.

Como reajustar com segurança:

  1. Ancore no custo real. Quando protético e material sobem, seu preço subiu junto. Manter o antigo é absorver o aumento com a sua margem.
  2. Comunique pelo valor, não pelo número. O paciente de alto ticket compara confiança, resultado e segurança, não centavos. Reforce o que ele recebe.
  3. Reajuste os novos casos primeiro. Quem já está em tratamento mantém a condição combinada; o preço novo vale pra quem entra.

O perigo maior não é reajustar. É continuar cobrando um preço que já dá prejuízo por medo de mexer. Preço congelado enquanto o custo sobe é margem morrendo em silêncio.

O custo de aquisição do paciente entra antes da margem

Esse ponto quase ninguém coloca na conta, e ele muda a precificação de quem investe em marketing.

Se você atrai paciente por anúncio (Google, Meta), existe um custo de aquisição: quanto você gastou em mídia e estrutura pra trazer aquele paciente que fechou. Esse custo precisa caber no preço antes da margem.

Pensa assim: o preço do procedimento tem que cobrir o custo de produção (hora clínica, material, protético, cartão, imposto) e o pedaço do marketing que trouxe aquele paciente. Só o que sobra depois disso é lucro.

É por isso que a métrica certa não é "custo por lead", é custo por paciente que compareceu e fechou. Lead barato que não fecha não barateia nada, encarece, porque você paga pra atrair e não converte. Veja o custo e retorno real do marketing pra clínica e como medir se a agência traz paciente ou só lead.

Nos dados internos da Odonto Results, o gargalo raramente é o anúncio: é o atendimento e o comparecimento, que definem se aquele custo de aquisição vira paciente na cadeira ou vira prejuízo. Precificar sem considerar o que custou trazer o paciente é deixar o marketing comer a margem por dentro.

Tabela de preços própria por grau de dificuldade

Junte tudo numa ferramenta de decisão: a sua tabela de preços, organizada por complexidade.

A ideia é simples. Para cada procedimento, defina uma faixa (mínimo e máximo), não um preço único:

  • Mínimo: o piso, calculado pela fórmula. Abaixo dele, prejuízo. Inegociável.
  • Máximo: o teto, definido por posicionamento, complexidade e valor percebido.
  • Por grau de dificuldade: o mesmo procedimento custa diferente conforme o caso (um implante simples não é um implante com enxerto).

Com a faixa na mão, a negociação tem trilho: você pode flexibilizar dentro da faixa, nunca abaixo do mínimo. Some posicionamento e dá pra desenhar pacotes e planos de tratamento completos com preço coerente, sem improviso na hora de fechar.

A tabela tira a precificação da emoção do atendimento e coloca na conta feita com calma.

Pacotes e planos de tratamento completos

O paciente de alto ticket raramente fecha um procedimento isolado. Ele fecha um plano. E plano também se precifica com método.

Como montar sem furar a margem:

  • Some os pisos, depois pense no pacote. Cada procedimento do plano tem seu custo. O pacote parte da soma desses custos, nunca de um desconto chutado.
  • Desconto sai da margem, não do custo. Se você der condição no pacote, o desconto come a sua margem, não o seu custo. Saiba quanto de margem você está cedendo.
  • Use o valor do conjunto, não o desconto. O argumento de um plano completo é resultado e previsibilidade pro paciente, não "ficou mais barato".

Plano de tratamento bem precificado aumenta o ticket sem destruir margem. Plano com desconto no chute aumenta o trabalho e some com o lucro. Veja como criar oferta forte sem dar desconto.

Seu próximo passo

  1. Calcule a sua hora clínica. Some gastos fixos, pró-labore e margem, e divida pelas horas produtivas (não pelas trabalhadas). Esse é o número que falta na maioria das clínicas.
  2. Monte o piso de cada procedimento caro. Para implante, protocolo e lente, aplique a fórmula com material, protético, cartão e imposto. Descubra quais procedimentos hoje saem abaixo do custo.
  3. Feche a conta até o paciente na cadeira. Inclua o custo de aquisição no preço e meça custo por paciente que fechou, não custo por lead. É o que garante que o marketing pague a margem, e não o contrário.

Quer um motor de aquisição que entrega paciente que comparece e fecha, pra a sua margem trabalhar a favor e não contra? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Como calcular o preço de um procedimento odontológico?

Some o custo da hora clínica multiplicado pelo tempo do procedimento, mais o material, o protético, a taxa de cartão e os impostos sobre o faturamento, e por cima aplique a margem de lucro que você quer. Esse é o piso real. Cobrar abaixo disso, mesmo que pareça competitivo, dá prejuízo sem você perceber.

O que é a hora clínica e como calcular?

A hora clínica é quanto custa manter sua cadeira aberta por uma hora produtiva. Some os gastos fixos do mês mais o seu pró-labore e a margem desejada, e divida pelas horas produtivas (as que de fato faturam, não as horas que a cadeira fica parada). Esse valor é a base de todo preço por procedimento.

Qual a diferença entre margem de lucro e markup?

Margem de lucro é o quanto do preço final sobra de lucro (calculada sobre o preço de venda). Markup é o multiplicador que você aplica sobre o custo pra chegar ao preço, embutindo despesas, impostos e a margem. Segundo o SEBRAE, o markup é o método mais tradicional e confiável de precificação.

É melhor copiar o preço do concorrente?

Não. Copiar o preço do concorrente é o erro mais comum e mais perigoso, porque você herda a estrutura de custo dele sem conhecer. O preço de mercado serve de referência pra posicionamento, mas a base de cálculo é sempre o seu custo real mais a margem que você quer, pelo método do markup recomendado pelo SEBRAE.

Posso cobrar abaixo da tabela do CFO em convênio?

O Código de Ética Odontológica (CFO) garante liberdade pra arbitrar honorários, mas o Art. 21 veda o aviltamento, inclusive por parte de convênios, com valores irrisórios ou inferiores aos referenciais. Na prática, estudo da revista Arquivos em Odontologia (UFMG) apontou que planos pagam em média cerca de 45% da tabela de referência, o que torna a gestão da margem indispensável.

Como reajustar preços sem perder paciente?

Reajuste com base no custo real (material, protético, cartão e imposto sobem) e comunique com clareza, ancorando no valor e no resultado, não no preço solto. O paciente de alto ticket compara confiança e segurança, não centavos. Mais perigoso que reajustar é continuar cobrando um preço que já dá prejuízo.