Como calcular a taxa interna de retorno antes de investir em equipamento, cadeira ou unidade na clínica?
A taxa interna de retorno (TIR) é a taxa que zera o valor presente líquido do projeto. Você monta o fluxo de caixa (investimento negativo mais entradas líquidas por período), calcula a TIR no Excel ou na HP 12c e compara com a sua taxa mínima de atratividade. Veja o passo a passo com exemplos de cadeira, scanner e nova unidade.
A TIR é a taxa de desconto que faz o valor presente líquido do fluxo de caixa ser zero. Monte o fluxo (investimento negativo mais entradas líquidas mensais), rode =TIR no Excel, e aprove o investimento só se a TIR ficar acima da sua taxa mínima de atratividade.
- A regra de decisão é simples. A TIR é a taxa de desconto que faz o valor presente líquido (VPL) do fluxo de caixa ser igual a zero, e o projeto é atrativo quando a TIR for maior que o seu custo de capital (taxa mínima de atratividade), segundo a [Wikipédia](https://pt.wikipedia.org/wiki/Taxa_interna_de_retorno).
- Exemplo mínimo que esclarece tudo. Investir R$100 hoje para receber R$110 em um ano dá VPL = 0 = -100 + 110/(1+TIR), o que resulta em TIR de 10%, mas a TIR não mede o risco e é uma taxa teórica baseada em estimativas de fluxo de caixa, segundo a [Nomad Global](https://www.nomadglobal.com/portal/artigos/tir).
- A projeção só vale se a cadeira encher. Na régua interna da Odonto Results, a meta de funil é converter cerca de 1/3 dos leads em agendamento e cerca de 1/3 dos agendamentos em comparecimento, e é esse fluxo de pacientes pagos que sustenta a receita projetada da nova cadeira (dados internos da Odonto Results).
Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que é a TIR e por que ela importa na decisão de investir
- TIR, VPL, ROI e payback: cada um responde uma pergunta diferente
- A fórmula da TIR (sem complicar)
- Como montar o fluxo de caixa do projeto (a parte que decide tudo)
- Passo a passo: calcular a TIR no Excel e na HP 12c
- A régua de decisão: TIR contra a sua taxa mínima de atratividade (TMA)
- Exemplo 1: investir em uma cadeira odontológica nova
- Exemplo 2: investir em um equipamento (scanner intraoral)
- Exemplo 3: abrir uma nova unidade
- Payback simples vs payback descontado: por que o prazo isolado engana
- As limitações da TIR (que ninguém te conta na hora da venda)
- Quando usar VPL em vez de TIR
- Os erros comuns do dentista ao projetar a receita
- Como a previsibilidade de agendamento muda a TIR
- Checklist: o que ter na mão antes de assinar
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Como calcular a taxa interna de retorno antes de investir em equipamento, cadeira ou unidade na clínica?"
O vendedor te mostra uma planilha com retorno de dois dígitos e payback curto. Parece ótimo.
Mas a conta dele assume a cadeira sempre cheia, sem custo de aquisição de paciente e sem mês fraco. A sua realidade é outra.
A taxa interna de retorno (TIR) existe justamente para tirar a decisão do "parece bom" e colocar em um número que você controla. Ela responde uma pergunta direta: este projeto rende mais que o dinheiro parado ou aplicado em outro lugar?
Segundo a Wikipédia, a TIR é a taxa de desconto que faz o valor presente líquido do fluxo de caixa ser igual a zero, e o projeto é atrativo quando essa taxa supera o seu custo de capital.
A boa notícia: você não precisa ser contador. Precisa de um fluxo de caixa honesto e duas funções de planilha.
Neste guia você vai ver:
- O que é TIR e por que ela decide compra de equipamento, cadeira e unidade
- A diferença entre TIR, VPL, ROI e payback (cada um responde uma coisa)
- Como montar o fluxo de caixa do projeto, passo a passo
- Como calcular a TIR no Excel e na HP 12c
- A régua de decisão: TIR contra a sua taxa mínima de atratividade
- Exemplos aplicados a cadeira, scanner e nova unidade
- Os erros de projeção que estouram a conta e o checklist antes de assinar
O que é a TIR e por que ela importa na decisão de investir
Antes de calcular, alinhe o conceito. A TIR é a rentabilidade anual implícita de um projeto, expressa em percentual.
Pensa assim: se você aplica R$100 e recebe R$110 um ano depois, ganhou 10%. A TIR generaliza essa ideia para qualquer fluxo, mesmo com entradas espalhadas por vários meses ou anos.
Formalmente, a TIR é a taxa que zera o valor presente líquido. Segundo a Wikipédia, o projeto é atrativo quando a TIR for maior que o custo de capital, indiferente quando forem iguais e inviável quando a TIR for menor.
Por que isso importa para o dono de clínica? Porque toda compra grande compete com alternativas:
- Comprar uma cadeira nova ou deixar o capital rendendo na aplicação.
- Investir em um scanner intraoral ou reforçar a verba de captação.
- Abrir uma segunda unidade ou ampliar a unidade atual.
A TIR coloca todas essas opções na mesma régua percentual. Em vez de decidir pelo entusiasmo do vendedor, você decide pelo número.
Lembre: a TIR não é a promessa do fabricante. É o retorno que sai do SEU fluxo de caixa, com a SUA ocupação real e o SEU custo de paciente. Lixo na entrada, lixo na saída.
TIR, VPL, ROI e payback: cada um responde uma pergunta diferente
Aqui mora a confusão que faz dentista decidir errado. Esses quatro indicadores não são sinônimos. Cada um responde uma pergunta.
| Indicador | A pergunta que responde | Unidade | Limite |
|---|---|---|---|
| TIR | Qual a rentabilidade percentual do projeto? | % ao período | Não mede risco nem escala |
| VPL | Quanto de valor (em reais) o projeto cria? | R$ | Depende da taxa de desconto escolhida |
| ROI | Quanto retornou sobre o que investi, no total? | % acumulado | Ignora o tempo (quando o dinheiro volta) |
| Payback | Em quanto tempo recupero o investimento? | meses ou anos | Ignora o que vem depois de se pagar |
Repare na diferença prática:
- O ROI diz que você dobrou o dinheiro, mas não diz se foi em 1 ano ou em 5. Tempo muda tudo.
- O payback diz que se paga em 18 meses, mas não diz se o projeto rende muito ou pouco depois disso.
- O VPL diz quanto valor o projeto cria em reais, mas você precisa escolher uma taxa de desconto antes.
- A TIR resolve esse último ponto: ela é a taxa que faz o VPL ser zero, então sai naturalmente do fluxo.
A leitura combinada é o que decide bem. TIR para enxergar a rentabilidade, VPL para enxergar o valor criado, payback para checar o fôlego de caixa. Os três juntos, nunca um sozinho.
A fórmula da TIR (sem complicar)
Você não vai calcular a TIR na mão, mas entender a fórmula evita cair em armadilha de planilha.
A definição é esta: a TIR é a taxa que faz o VPL ser igual a zero.
VPL = 0 = -investimento + soma dos fluxos de caixa descontados por essa taxa
Em outras palavras, você desconta cada entrada futura por uma taxa, soma tudo, subtrai o investimento inicial e procura a taxa que faz esse resultado dar exatamente zero. Essa taxa é a TIR.
O exemplo mínimo deixa cristalino. Segundo a Nomad Global, investir R$100 hoje para receber R$110 em um ano dá:
VPL = 0 = -100 + 110/(1+TIR), o que resulta em TIR = 10%.
A mesma fonte reforça o que mais gente esquece: a TIR avalia o retorno, mas não mede o risco, e é uma taxa teórica baseada em estimativas de fluxo de caixa. Ou seja, ela é tão confiável quanto a sua projeção de receita.
Guarde isso: a matemática é exata, a projeção que alimenta ela não é. O trabalho de verdade está em montar o fluxo de caixa honesto.
Como montar o fluxo de caixa do projeto (a parte que decide tudo)
Esta é a etapa que separa a decisão boa da furada. O cálculo é fácil; o fluxo é o que dá trabalho.
Monte uma linha do tempo por período (mensal é o ideal para clínica) com dois tipos de número:
1. Investimento inicial (período zero, valor negativo). Tudo que sai do caixa para o projeto começar:
- Preço do equipamento, cadeira ou obra da unidade.
- Instalação, adaptação da sala, mobiliário.
- Treinamento da equipe e software, se for o caso.
- Capital de giro para os primeiros meses de operação no vermelho.
2. Entradas líquidas por período (receita menos custo). Atenção: é o líquido, não a receita bruta. Para cada mês:
- Receita adicional que o projeto gera (produção da nova cadeira, procedimentos novos do scanner, faturamento da unidade).
- Menos os custos variáveis daquela produção (material, laboratório, comissão, taxa de cartão).
- Menos os custos fixos novos (mais um dentista, mais uma auxiliar, aluguel da unidade, energia).
- Menos o custo de captar os pacientes que vão ocupar a capacidade nova.
A entrada líquida de cada mês é o que de fato sobra no caixa. É esse número que entra na TIR.
Lembre: o erro número um do dentista é colocar a receita bruta no fluxo. A cadeira não gera caixa, ela gera produção menos custo. Use sempre a margem, nunca o faturamento cheio.
Para chegar no custo real por hora de produção da nova cadeira, vale ler como calcular o custo da hora de cadeira antes de projetar a margem.
Passo a passo: calcular a TIR no Excel e na HP 12c
Com o fluxo pronto, o cálculo leva segundos. Veja os dois caminhos.
No Excel ou Google Planilhas
- Monte o fluxo em uma coluna. Na primeira célula, o investimento inicial como número negativo. Nas células seguintes, as entradas líquidas de cada período.
- Em uma célula livre, digite
=TIR(e selecione o intervalo inteiro (do investimento negativo até a última entrada). - Feche o parêntese e aperte enter. O resultado é a TIR daquele período (se o fluxo é mensal, a TIR é mensal).
Segundo o Dicionário Financeiro, a TIR no Excel é obtida com a função =TIR selecionando o intervalo de entradas e saídas de caixa, com o investimento inicial como valor negativo.
Dica: se o seu fluxo é mensal e você quer a TIR anual, eleve à 12ª potência: TIR anual = (1 + TIR mensal)^12 - 1. Nunca multiplique a mensal por 12 (isso ignora os juros compostos).
Na HP 12c
A calculadora financeira faz o mesmo. Segundo o Dicionário Financeiro, a sequência é:
- Digite o investimento inicial e use CHS para deixá-lo negativo, depois g e CFo (fluxo do período zero).
- Digite cada entrada líquida seguida de g e CFj.
- Se um valor se repete por vários períodos, digite o número de repetições e use g e Nj.
- Aperte f e IRR para obter a TIR.
O resultado das duas ferramentas é idêntico. Use a que você tiver na mão.
A régua de decisão: TIR contra a sua taxa mínima de atratividade (TMA)
Calcular a TIR é metade do trabalho. A outra metade é ter contra o que comparar.
A TIR sozinha não diz se o projeto é bom. Ela precisa bater contra a sua taxa mínima de atratividade (TMA), que é o retorno mínimo que você aceita para topar o risco.
A regra, segundo a Wikipédia, é direta:
- TIR maior que a TMA: projeto viável. Rende mais que a sua alternativa.
- TIR igual à TMA: indiferente. Empata com a alternativa.
- TIR menor que a TMA: inviável. Você ganharia mais deixando o dinheiro onde está.
É a mesma lógica de uma corrida: a TIR é a velocidade do projeto, a TMA é a velocidade que você precisa bater para valer a pena largar.
Como o dono de clínica define a própria TMA
A TMA é o seu custo de oportunidade. Para definir a sua, pergunte: onde mais esse dinheiro renderia?
- Piso de segurança: o retorno de uma aplicação de baixo risco (renda fixa). Se o projeto não bate nem isso, não faz sentido correr risco operacional.
- Custo do dinheiro: se você vai financiar o equipamento, a TMA tem que cobrir os juros do financiamento. Antes de decidir como pagar, vale ver financiar à vista, leasing ou CDC.
- Retorno da própria operação: se a sua clínica já transforma capital em lucro a uma taxa alta, essa vira a régua. Investimento novo precisa render pelo menos o que a operação atual rende.
Quanto mais a sua clínica já rende, mais alta fica a régua. Por isso o mesmo equipamento pode ser ótimo para uma clínica e medíocre para outra.
Lembre: sem TMA definida, a TIR é só um número solto. A decisão não é "a TIR é alta?", é "a TIR é maior que o que eu faria com esse dinheiro em outro lugar?".
Exemplo 1: investir em uma cadeira odontológica nova
Vamos aterrissar a teoria. Os números abaixo são ilustrativos, só para mostrar a mecânica. Use os seus.
Imagine uma cadeira completa que custa, instalada, R$30 mil. Você projeta que ela vai gerar produção adicional e, depois de descontar material, comissão e o custo de captar os pacientes, sobra uma entrada líquida mensal.
| Item | Valor (ilustrativo) |
|---|---|
| Investimento inicial (mês 0) | -R$30.000 |
| Entrada líquida mensal (margem da produção nova) | +R$2.000 |
| Horizonte projetado | 24 meses |
Você monta no Excel: -30.000 no mês 0, depois +2.000 repetido por 24 meses. Roda =TIR e encontra a rentabilidade mensal do projeto. Eleva à 12ª potência e tem a TIR anual.
O ponto que importa não é o número exato (que depende da sua margem real). É a leitura:
- Se a TIR anual ficar bem acima da sua TMA, a cadeira é um bom uso de capital.
- Se a margem mensal cair pela metade porque a cadeira fica meio vazia, a TIR despenca e o projeto vira marginal.
Repare onde a conta vive ou morre: na entrada líquida mensal, que depende inteiramente da ocupação da cadeira. Cadeira parada não tem TIR, tem prejuízo. Por isso a parte de captação não é detalhe, é variável central.
Exemplo 2: investir em um equipamento (scanner intraoral)
Equipamento muda um pouco a lógica. O scanner raramente gera uma fila de pacientes novos sozinho. Ele gera receita incremental por procedimento e ganho de eficiência.
Pense no scanner como uma alavanca de margem, não de volume:
- Receita incremental: moldagens digitais, planejamentos, casos que antes você terceirizava ou não fechava por falta de tecnologia.
- Economia de custo: menos moldagem física refeita, menos material, menos retrabalho de laboratório.
- Ticket e conversão: o paciente que vê o scan na tela tende a entender melhor o caso, o que pode ajudar o fechamento na cadeira.
No fluxo de caixa, isso entra como entrada líquida mensal: a soma da receita nova com a economia gerada, menos qualquer custo de software ou manutenção. O investimento inicial é o preço do aparelho.
A pergunta de payback aqui é honesta: quantos procedimentos por mês o scanner precisa puxar para se pagar? Se você precisa de um volume que a sua agenda não tem, a TIR fica baixa e o aparelho vira vaidade cara.
Para o raciocínio completo de quando uma tecnologia se justifica, veja como saber se o scanner ou software realmente se paga.
Exemplo 3: abrir uma nova unidade
Aqui a TIR fica mais poderosa e mais perigosa. Mais poderosa porque o projeto é grande e plurianual. Mais perigosa porque tem muito mais variável para errar.
Uma nova unidade tem um fluxo de caixa típico em formato de vale:
- Investimento alto e concentrado: obra, equipamentos, mobiliário, ponto, capital de giro. Tudo no início, valor negativo grande.
- Meses iniciais no vermelho: a unidade já tem aluguel, equipe e energia, mas ainda não tem agenda cheia. As primeiras entradas líquidas podem ser negativas.
- Ponto de equilíbrio: o mês em que a receita cobre os custos. Daí em diante, as entradas líquidas viram positivas.
- Maturação: a unidade enche, e o fluxo positivo carrega a TIR.
Você projeta receita, custos operacionais e o ponto de equilíbrio mês a mês, monta o fluxo plurianual e roda a TIR. O VPL anda junto, porque em um projeto desse tamanho importa não só a taxa, mas quanto valor em reais ele cria.
Estudos de viabilidade do setor confirmam que abrir estrutura própria pode ser viável. Um estudo acadêmico de viabilidade econômico-financeira da UNISC estimou o investimento inicial em R$61.329,51 no formato de consultório autônomo e R$115.493,49 no formato de clínica em sociedade, e concluiu que o projeto era viável nos dois cenários.
Mas atenção a duas armadilhas da unidade nova:
- O fluxo em vale (negativo no início, positivo depois) pode gerar mais de uma TIR, como você vai ver na seção de limitações. Confie no VPL quando isso acontecer.
- A decisão "nova unidade" compete com "mais marketing na unidade atual". A análise lado a lado está em investir em marketing ou abrir nova unidade.
Payback simples vs payback descontado: por que o prazo isolado engana
Quase todo vendedor fala em payback, porque é o número mais fácil de vender. E é o mais traiçoeiro.
O payback simples soma as entradas até zerar o investimento. Se a cadeira de R$30 mil devolve R$2 mil por mês, o payback simples é 15 meses. Limpo, mas incompleto.
Ele tem dois furos:
- Ignora o valor do dinheiro no tempo. R$2 mil daqui a 15 meses valem menos que R$2 mil hoje. O payback simples trata todos iguais.
- Ignora o que vem depois. Dois projetos com o mesmo payback de 15 meses podem ter destinos opostos: um para de render no mês 16, o outro rende por anos. O payback não vê isso.
O payback descontado corrige o primeiro furo: ele desconta cada entrada por uma taxa antes de somar, então o prazo real fica sempre maior (e mais honesto) que o simples.
Mesmo assim, payback não substitui TIR e VPL. Use o payback como filtro de caixa ("aguento ficar sem esse dinheiro por quanto tempo?"), não como decisão de investimento. Para aplicar o conceito a cadeira e dentista novo, veja como calcular o payback de uma cadeira ou dentista novo.
As limitações da TIR (que ninguém te conta na hora da venda)
A TIR é ótima, mas não é mágica. Conhecer os limites evita decisão errada com cara de rigor.
São quatro pontos críticos, e os dois primeiros vêm direto da Wikipédia:
1. Múltiplas TIRs. Quando o fluxo de caixa muda de sinal mais de uma vez (negativo, positivo, negativo de novo, como uma unidade que precisa de reinvestimento no meio), o cálculo pode gerar mais de uma TIR. Várias respostas, nenhuma confiável. Nesses casos, decida pelo VPL.
2. Pressuposto de reinvestimento. O método assume que você reinveste os retornos à própria taxa de atratividade. Nem sempre é realista, o que pode inflar a percepção de retorno em projetos com TIR muito alta.
3. A TIR não mede risco. Como lembra a Nomad Global, a TIR é uma taxa teórica baseada em estimativas de fluxo de caixa e não captura o risco. Um projeto de TIR 40% e fluxo incerto pode ser pior que um de TIR 20% e fluxo seguro.
4. A TIR ignora a escala. Uma cadeira de R$30 mil pode ter TIR maior que uma unidade de R$300 mil, mas a unidade cria muito mais valor em reais. Por isso a Wikipédia recomenda o VPL para comparar projetos de tamanhos diferentes.
Lembre: TIR alta em projeto pequeno não ganha de TIR menor em projeto grande quando o que você quer é crescer. Olhe a TIR para rentabilidade e o VPL para tamanho do prêmio.
Quando usar VPL em vez de TIR
A pergunta certa não é "TIR ou VPL", e sim "qual deles pesa mais nesta decisão". A resposta depende do que você está comparando.
| Situação | Indicador que decide | Por quê |
|---|---|---|
| Projetos de escalas muito diferentes (cadeira vs unidade) | VPL | A TIR ignora o tamanho; o VPL mostra o valor criado em reais |
| Fluxo que muda de sinal mais de uma vez | VPL | A TIR pode dar múltiplas respostas |
| Comparar a rentabilidade percentual de opções parecidas | TIR | Mais intuitiva e fácil de comparar com a TMA |
| Comunicar para sócio o prêmio total do projeto | VPL | "Cria R$X de valor" é mais concreto que "rende Y%" |
Na prática, calcule os dois. A TIR te dá a leitura rápida e o VPL te protege das armadilhas. Quando os dois discordam (comum em projetos de tamanhos diferentes), siga o VPL.
Os erros comuns do dentista ao projetar a receita
A matemática quase nunca é o problema. A projeção de receita é. Estes são os erros que mais estouram a conta.
Superestimar a ocupação da cadeira. O vendedor projeta a cadeira cheia desde o mês 1. A realidade é rampa: ela enche aos poucos, conforme o fluxo de pacientes cresce. Comece o fluxo com ocupação parcial e suba gradual.
Ignorar o custo de aquisição de paciente. A cadeira nova não vem com pacientes embutidos. Cada paciente que a ocupa custou marketing, atendimento e tempo para chegar. Esse custo entra no fluxo, ou a TIR fica fantasiada.
Usar receita bruta em vez de margem. Já dito, mas é o erro mais caro. O que entra no fluxo é receita menos custo, nunca o faturamento cheio.
Esquecer o capital de giro. A unidade nova fica meses no vermelho operacional antes de virar. Se você não provisiona o caixa para esse período, quebra antes da TIR aparecer.
Não rodar cenário pessimista. A planilha bonita assume tudo dando certo. Rode também com receita 30% menor e ocupação mais lenta. Se a TIR continua acima da TMA no cenário ruim, o projeto é robusto.
Como a previsibilidade de agendamento muda a TIR
Aqui está o elo que conecta a planilha à operação real. A entrada líquida mensal de qualquer cadeira ou unidade depende de uma coisa: fluxo previsível de pacientes que comparecem e pagam.
E é justamente aí que a maioria das projeções fura. A receita projetada assume uma ocupação que só acontece se a clínica tiver um motor de aquisição que entrega paciente na cadeira de forma constante.
Os números da operação mostram o tamanho do impacto. Na régua interna da Odonto Results, a meta de funil é converter cerca de 1/3 dos leads em agendamento e cerca de 1/3 dos agendamentos em comparecimento (dados internos da Odonto Results). É esse fluxo de pacientes pagos que sustenta a receita que você jogou na planilha.
Pensa no efeito sobre a TIR:
- Com previsibilidade: a cadeira nova enche no ritmo projetado, a entrada líquida bate a meta, a TIR se confirma.
- Sem previsibilidade: a cadeira fica meio vazia, a margem mensal cai, a TIR despenca e o equipamento que "se pagava em 15 meses" vira custo fixo parado.
A taxa de ocupação não é dado fixo de planilha. É consequência direta de quantos pacientes a sua clínica consegue atrair, agendar e fazer comparecer todo mês. Antes de comprar capacidade, garanta a demanda que vai ocupá-la. Veja quanto investir em marketing para sustentar o crescimento.
Lembre: comprar cadeira sem motor de captação é construir um restaurante maior sem garantir mais clientes. A capacidade extra só vira retorno se houver fluxo previsível para preenchê-la.
Checklist: o que ter na mão antes de assinar
Não calcule a TIR no escuro. Antes de rodar a planilha, junte estes dados. Quanto mais honesto cada um, mais confiável a decisão.
- Investimento inicial total. Equipamento ou obra, instalação, treinamento, software E capital de giro para os meses no vermelho.
- Receita adicional realista por mês. Com rampa de ocupação (parcial no início, cheia depois), não a projeção otimista do vendedor.
- Custos variáveis da produção nova. Material, laboratório, comissão, taxa de cartão e pix.
- Custos fixos novos. Mais um dentista, auxiliar, aluguel, energia, manutenção.
- Custo de aquisição dos pacientes que vão ocupar a capacidade nova.
- Sua taxa mínima de atratividade (TMA). O retorno da sua melhor alternativa para esse dinheiro.
- Horizonte do projeto e valor residual do equipamento ao fim.
- Cenário pessimista com receita e ocupação menores, para testar se o projeto aguenta.
Com esses oito itens, você monta um fluxo de caixa honesto, roda a TIR e o VPL, compara com a TMA e decide com número, não com torcida.
Seu próximo passo
- Monte o fluxo de caixa do projeto que está na mesa. Investimento inicial negativo no mês zero, entradas líquidas mensais (receita menos custo, com rampa de ocupação) pelos próximos 24 a 36 meses. Sem receita bruta, sem cadeira cheia desde o dia 1.
- Calcule TIR e VPL e compare com a sua TMA. Rode
=TIRno Excel, eleve à 12ª potência para anualizar, e só aprove se a TIR ficar acima do retorno da sua melhor alternativa, inclusive no cenário pessimista. - Garanta a demanda antes de comprar a capacidade. A TIR só se confirma se a cadeira encher. Estruture o motor de aquisição que entrega paciente previsível na cadeira antes de assinar o boleto do equipamento.
Quer que a ocupação da sua cadeira nova seja previsível, e não um chute na planilha? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
O que é taxa interna de retorno (TIR) em uma frase?
É a taxa de desconto que faz o valor presente líquido (VPL) de um fluxo de caixa ser igual a zero. Na prática, é a rentabilidade anual implícita do projeto. Segundo a Wikipédia, o investimento é atrativo quando a TIR for maior que o custo de capital (taxa mínima de atratividade).
TIR ou VPL: qual usar para decidir uma compra?
Use a TIR para enxergar a rentabilidade percentual e o VPL para enxergar quanto de valor o projeto cria em reais. Para comparar projetos de tamanhos diferentes, como uma cadeira contra uma unidade inteira, a Wikipédia aponta que o VPL é preferível à TIR, porque a TIR ignora a escala.
Qual taxa mínima de atratividade um dono de clínica deve usar?
Use o seu custo de oportunidade: o retorno que você teria deixando o dinheiro em uma aplicação segura ou aplicando na própria operação. Quanto mais a sua clínica rende hoje, mais alta fica a régua. A TIR do projeto novo precisa superar essa régua para o investimento valer a pena.
Como calcular a TIR no Excel?
Monte o fluxo de caixa em uma coluna, com o investimento inicial como valor negativo e as entradas líquidas de cada período em seguida, e aplique a função =TIR selecionando esse intervalo. Segundo o Dicionário Financeiro, o investimento inicial entra como valor negativo e a função retorna a taxa que zera o VPL.
Por que o payback isolado engana?
Porque o payback simples só conta quanto tempo leva para recuperar o dinheiro, sem considerar o valor do dinheiro no tempo nem o que o projeto rende depois de se pagar. Dois projetos com o mesmo payback podem ter TIRs muito diferentes. Use o payback como filtro rápido, não como decisão final.
A TIR sozinha basta para aprovar o investimento?
Não. A TIR não mede risco nem escala, e fluxos que mudam de sinal mais de uma vez podem gerar mais de uma TIR. Use a TIR junto com o VPL, com a projeção realista de ocupação da cadeira e com um cenário pessimista antes de assinar.