Custos e ROI

Quanto cobrar por bichectomia combinada com harmonização facial na clínica odontológica?

O preço do combo bichectomia mais harmonização facial não sai de tabela de mercado. Ele sai do escopo que a resolução do CFO permite, do custo real de cadeira, sala e insumo, da provisão de retoque e revisão, e da regra que proíbe anunciar preço. Veja como montar o número, com fonte oficial.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 10 de julho de 2026 · 20 min de leitura
TL;DR

Você não cobra o combo por tabela copiada: cobra pelo custo-hora de cadeira somado a insumo, sala, esterilização e provisão de retoque, com margem definida por nível de entrega, e apresenta esse preço só na consulta, porque a Lei 5.081/1966 veda anunciar preço de serviço odontológico.

Pontos-chave
  • O escopo do combo é definido por resolução, não por gosto. Em material oficial sobre a especialidade de Harmonização Orofacial, o Conselho Federal de Odontologia lista nominalmente a técnica cirúrgica de remoção do corpo adiposo de Bichat (bichectomia) e as técnicas cirúrgicas para correção dos lábios entre os procedimentos abrangidos pela especialidade, e registra que essa resolução não se aplica ao que é competência do especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial.
  • Preço de combo não vive em anúncio. A Lei 5.081/1966, que regula o exercício da Odontologia, veda ao cirurgião-dentista, no art. 7º, alínea g, anunciar preços de serviços, modalidades de pagamento e outras formas de comercialização da clínica que signifiquem competição desleal. O número é construído na consulta, não na vitrine.
  • O preço só existe se o orçamento chegar a ser apresentado. Nas clínicas atendidas pela Odonto Results, 43,8% dos leads chegam fora do horário comercial, a primeira resposta da IA sai em mediana 4,4 segundos, a mediana entre a primeira mensagem e o agendamento é de 2h57 e 23% dos leads que respondem viram agendamento na conversa (mediana entre clínicas), dados internos da Odonto Results.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. O que o CFO permite: bichectomia e correção de lábios dentro da Harmonização Orofacial
  4. Onde o escopo para: o que é competência do buco-maxilo-facial
  5. O que não pode entrar no pacote de jeito nenhum
  6. Quem executa e a trava das duas especialidades
  7. Por que o preço do combo vive na consulta e não no anúncio
  8. O custo real do combo: monte a planilha antes do preço
  9. O custo de risco que quase nenhuma tabela provisiona
  10. Tributação: o Fator R decide o anexo, e segregar receita estética tem risco
  11. Pacote ou avulso: como não canibalizar o próprio ticket
  12. Modelo de níveis em vez de desconto plano
  13. Política de desconto: escreva antes de precisar
  14. O que o preço precisa cobrir no contrato e no consentimento
  15. Prova visual: antes e depois dentro da regra
  16. Demanda, comoditização e por que o preço cai sozinho
  17. Sazonalidade e ciclo de decisão do paciente estético
  18. O preço só existe se o orçamento chegar a ser apresentado
  19. Ancoragem e sequência de apresentação na consulta
  20. As métricas que dizem se o combo paga a cadeira
  21. Seu próximo passo
  22. Perguntas frequentes

"Quanto cobrar por bichectomia combinada com harmonização facial na clínica odontológica?"

Você já percebeu que esse combo virou o procedimento mais pedido e o mais mal precificado da clínica.

O paciente chega pedindo "bichectomia com preenchimento e toxina" como quem pede um combo de lanchonete. E a clínica responde com um número redondo, copiado de outra clínica, sem nenhuma relação com o custo real da cadeira.

O resultado é previsível: procedimento cheio de agenda e vazio de margem.

A resposta curta é esta: o preço do combo não sai de tabela de mercado. Ele sai de três camadas empilhadas, o escopo que a resolução permite, o custo real de executar, e a margem que o seu nível de entrega justifica. E ele só é apresentado na consulta, porque a Lei 5.081/1966, que regula o exercício da Odontologia, veda ao cirurgião-dentista anunciar preços de serviços no art. 7º, alínea g.

Neste guia você vai ver:

  • O que o CFO permite dentro do combo e onde exatamente o escopo para.
  • O que nunca pode entrar no pacote nem na comunicação da clínica.
  • Como montar o custo real: cadeira, sala, insumo, esterilização, anestesia e provisão de retoque.
  • Por que o preço vive na consulta e não no anúncio, e como isso muda a operação comercial.
  • O modelo de níveis que substitui o desconto plano sem queimar margem.
  • As métricas que dizem se o combo está pagando a cadeira que ele ocupa.

O que o CFO permite: bichectomia e correção de lábios dentro da Harmonização Orofacial

Antes de falar de preço, defina o produto. Você não pode precificar o que não pode executar.

A Harmonização Orofacial foi reconhecida como especialidade odontológica pela Resolução CFO 198/2019. E o escopo dela não é uma zona cinzenta: está escrito.

Em material oficial sobre a especialidade, o Conselho Federal de Odontologia descreve entre os procedimentos abrangidos "realizar tratamento de lipoplastia facial, através de técnicas químicas, físicas ou mecânicas na região orofacial, técnica cirúrgica de remoção do corpo adiposo de Bichat (técnica de Bichectomia) e técnicas cirúrgicas para a correção dos lábios".

Traduzindo para o balcão da sua clínica: bichectomia e as técnicas cirúrgicas de correção labial aparecem nominalmente dentro da especialidade. Não é interpretação de curso, é texto do Conselho.

Isso importa para o preço por um motivo direto. Procedimento com escopo claro pode ser vendido como pacote, com contrato, termo e garantia definida. Procedimento em zona cinzenta vira risco jurídico que nenhuma margem paga.

Lembre: o primeiro item da sua planilha de custo não é insumo, é escopo. Um combo montado fora do que a resolução permite tem custo potencial infinito, porque você está precificando um passivo, não um serviço.

Onde o escopo para: o que é competência do buco-maxilo-facial

Aqui mora o erro que mais aparece em tabela de clínica: assumir que "está dentro da harmonização" resolve tudo.

Não resolve. O mesmo material do Conselho Federal de Odontologia destaca que "essa Resolução não se aplica aos procedimentos cirúrgicos de competência do especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial (Resolução 220/2019)".

O que isso significa na prática do orçamento:

  • Cada item do combo precisa ser conferido isoladamente, não em bloco. "Pacote de harmonização" não é uma autorização coletiva.
  • Um item fora do escopo contamina o pacote inteiro. Se o paciente contesta um procedimento, ele contesta o contrato todo, incluindo os itens corretos.
  • O encaminhamento também é produto. Reconhecer que um caso é de competência de outro especialista e encaminhar preserva a reputação que sustenta o seu preço.

Você não perde dinheiro ao recusar um item. Você perde dinheiro ao executar um item que não deveria e depois pagar a conta disso em revisão, desgaste e exposição.

O que não pode entrar no pacote de jeito nenhum

Existe uma categoria que não é discussão de escopo, é fora da Odontologia.

O Conselho Federal de Odontologia registra que "é vedado também aos Cirurgiões-Dentistas a realização de publicidade e propaganda de procedimentos não odontológicos, que não correspondem à formação profissional em Odontologia, como: micro pigmentação de sobrancelhas e lábios, maquiagem definitiva".

Repare no ponto: a vedação citada alcança a publicidade e a propaganda desses procedimentos, e o critério é não corresponderem à formação profissional em Odontologia. Micropigmentação de sobrancelhas e lábios e maquiagem definitiva aparecem expressamente no texto do Conselho.

Para a montagem do combo, a leitura operacional é simples. Qualquer item que esteja fora da formação odontológica não entra no pacote, não entra na tabela e não entra na comunicação da clínica, ainda que alguém dentro da estrutura saiba executar.

Uma regra de bolso para a sua recepção: se o item não pode ser divulgado como serviço da clínica odontológica, ele não pode ser somado no orçamento da clínica odontológica. Combo é contrato, e contrato expõe tudo que está dentro dele.

Quem executa e a trava das duas especialidades

O preço do combo depende de quem está na cadeira executando. E isso tem duas travas.

A primeira é de habilitação. O reconhecimento em Harmonização Orofacial depende de formação específica em cursos de HOF, com carga horária mínima definida pelo Conselho e conteúdos obrigatórios que envolvem fisiologia, anatomia e farmacologia, além de procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos. Quem já tem especialidade registrada e quem vem da cirurgia buco-maxilo-facial segue critérios próprios de comprovação de atuação. Confirme o seu enquadramento no CRO antes de imprimir tabela.

A segunda trava quase ninguém coloca na conta. A Lei 5.081/1966 veda ao cirurgião-dentista, no art. 7º, alínea c, o "exercício de mais de duas especialidades".

O que isso faz com o seu modelo de negócio:

  1. Um profissional não cobre a clínica inteira. Combo amplo exige time, não um herói com muitos certificados.
  2. O custo de mão de obra do combo é maior do que parece. Se o caso exige dois profissionais, o custo-hora do procedimento soma duas agendas, não uma.
  3. A capacidade instalada limita o volume. Não adianta o marketing gerar demanda para um combo que só uma pessoa pode executar em dois turnos por semana.

Esse é o tipo de restrição que precisa entrar no preço antes de entrar na campanha.

Por que o preço do combo vive na consulta e não no anúncio

Agora o ponto que reorganiza toda a operação comercial da clínica de estética facial.

A Lei 5.081/1966 estabelece no art. 7º que é vedado ao cirurgião-dentista, na alínea g, "anunciar preços de serviços, modalidades de pagamento e outras formas de comercialização da clínica que signifiquem competição desleal".

Muita clínica lê isso como uma limitação. É o contrário: é a melhor notícia da sua precificação.

Quando ninguém pode anunciar preço, o paciente não consegue montar uma comparação de vitrine. Ele precisa entrar em contato, conversar, ser avaliado. E aí o jogo deixa de ser "quem cobra menos" e passa a ser "quem explica melhor o caso dele".

Isso muda três coisas na prática:

  • O anúncio vende a avaliação, não o combo. A promessa é o diagnóstico do caso, não o número.
  • O CRC não pode fechar preço por mensagem. O papel do atendimento é qualificar e agendar, com script pronto para a pergunta "quanto custa" sem parecer fuga.
  • A consulta vira o ponto de conversão real. Todo o investimento de mídia existe para colocar o paciente certo na cadeira e permitir que o plano seja apresentado por inteiro.

O combo estético segue exatamente a mesma lógica de apresentação de qualquer orçamento de alto ticket: o número aparece depois do diagnóstico e dentro do plano, nunca antes.

O custo real do combo: monte a planilha antes do preço

Chega da parte legal. Vamos ao número.

O erro clássico é precificar bichectomia como "uma cirurgia rápida" e a harmonização como "uma aplicação". Nenhum dos dois é verdade quando você abre o custo.

Componente de custo Como medir Armadilha comum
Tempo de cadeira Tempo total ocupado: preparo, procedimento, limpeza e troca Contar só o tempo de procedimento e ignorar o setup
Sala cirúrgica Custo-hora da sala, separado do custo-hora do consultório clínico Usar o mesmo custo-hora de uma consulta de rotina
Insumo do combo Toxina, preenchedor, bioestimulador, fios, descartáveis, medicação Precificar por frasco e não por unidade efetivamente usada
Esterilização Ciclo completo do instrumental cirúrgico, com rastreabilidade Tratar como custo fixo diluído e nunca alocar ao procedimento
Anestesia e apoio Anestésico, auxiliar, tempo de equipe de apoio Esquecer o custo da segunda pessoa na sala
Provisão de retoque Percentual do preço reservado para retoques e revisões contratados Prometer retoque incluso sem provisionar nada
Custo do profissional Repasse ou hora do executor, incluindo o segundo profissional quando houver Considerar só o repasse do cirurgião principal

A conta base é esta, sem mistério:

Preço mínimo do combo = (custo-hora de cadeira e sala × horas realmente ocupadas) + insumos consumidos + esterilização + anestesia e apoio + repasse do executor + provisão de retoque e revisão.

Esse é o piso, não o preço. O preço é o piso mais a margem que o seu nível de entrega sustenta.

Se você ainda não tem o custo-hora fechado, esse é o primeiro trabalho, não o segundo. Comece por como calcular o custo-hora de cadeira da clínica e só depois volte para a tabela do combo.

O custo de risco que quase nenhuma tabela provisiona

Existe uma linha invisível na planilha do combo: o pós-operatório.

A remoção do corpo adiposo de Bichat é procedimento cirúrgico, e procedimento cirúrgico tem intercorrência possível, edema, assimetria temporária, desconforto e consulta de revisão. Isso não é defeito de execução, é natureza do procedimento.

O problema é que essas consultas de revisão quase nunca aparecem na tabela. Elas aparecem na agenda.

Cada revisão consome três recursos que você já pagou:

  • Cadeira, que poderia estar produzindo outro caso.
  • Tempo do profissional, o recurso mais caro da clínica.
  • Energia do CRC, que remarca, confirma e acalma.

O jeito correto de tratar isso é como uma seguradora trata sinistro: você não sabe qual caso vai precisar, mas sabe que uma fração vai. Por isso a provisão de retoque e revisão entra em todo combo, não só nos casos que deram trabalho.

Sem essa linha, o combo parece rentável no fechamento e some na margem do trimestre. Para enxergar isso caso a caso, use margem de contribuição por procedimento.

Tributação: o Fator R decide o anexo, e segregar receita estética tem risco

Aqui entra um detalhe que costuma aparecer em conversa de corredor e nunca em planilha.

A prestação de serviços odontológicos por clínica optante pelo Simples Nacional não cai automaticamente no Anexo III: ela vai pro Anexo III ou pro Anexo V dependendo do Fator R, a razão entre a folha de salários dos últimos 12 meses e a receita bruta do mesmo período. Chegando a 28%, é Anexo III (a partir de 6%); abaixo disso, Anexo V, que começa bem mais caro (orientação da Receita Federal). Quem monta um combo de alto ticket com folha enxuta pode empurrar a própria clínica pro anexo pior sem perceber, e isso está detalhado em como funciona o Fator R na clínica odontológica. E é aí que aparece a tentação: separar a receita "estética" do combo em outro CNAE ou outro enquadramento, na esperança de pagar menos ou de organizar melhor.

Trate isso como decisão fiscal, não como estratégia de precificação. Alguns pontos para levar ao seu contador antes de qualquer mudança:

  • O procedimento é odontológico ou não é. Se a bichectomia e a correção labial são executadas dentro da especialidade odontológica, a receita é de serviço odontológico. Reclassificar o mesmo ato para reduzir carga é risco, não planejamento.
  • Combo com preço único dificulta a segregação. Se o contrato vende um pacote, dividir a receita depois em naturezas diferentes fica difícil de sustentar.
  • A carga tributária entra no piso do preço, não na sobra. Precificar pelo custo operacional e descobrir o imposto no dia 20 é como descobrir que a margem era de outra pessoa.

O ponto de gestão é este: decida o enquadramento com o contador antes de publicar a tabela, e trave o número já com o tributo dentro.

Pacote ou avulso: como não canibalizar o próprio ticket

Esta é a decisão que separa clínica que cresce em faturamento de clínica que cresce em volume.

Quando você monta um pacote com desconto embutido, você não está só facilitando a venda. Você está criando uma alternativa mais barata ao que já vendia separado.

Modelo Vantagem Risco de canibalização
Só avulso Preço cheio por item, margem clara e fácil de medir Ticket menor por paciente e mais consultas para vender o mesmo
Pacote com preço fechado Ticket maior, agenda mais previsível, menos negociação item a item O paciente que compraria dois itens no preço cheio passa a comprar o pacote descontado
Pacote por níveis de entrega Ticket maior sem cortar preço, o paciente escolhe escopo Exige disciplina para não entregar o nível superior no preço do inferior
Pacote com odontologia dentro Traz o paciente estético para o tratamento odontológico O procedimento odontológico vira brinde e perde valor percebido

O teste que resolve a dúvida é direto: o pacote está trazendo um paciente que não compraria os itens separados, ou está dando desconto para quem já compraria?

Se a resposta for a segunda, você não criou receita. Você comprou o seu próprio paciente mais caro.

Cuidado especial com misturar o combo estético e o tratamento odontológico no mesmo preço. O paciente que ganha "clareamento incluso" aprende que clareamento vale zero, e o próximo orçamento de odontologia começa dessa âncora.

Modelo de níveis em vez de desconto plano

Desconto plano corta o preço sem tirar nada da entrega. É a pior troca possível, porque ensina o paciente que o valor cheio era inflado.

Níveis fazem o oposto: cada preço tem um escopo. O paciente escolhe quanto quer, não quanto você cede.

Nível O que muda no escopo Para quem serve
Essencial O procedimento com o protocolo padrão, revisões previstas em contrato, sem itens complementares Paciente com um objetivo único e definido
Completo O procedimento mais os itens complementares de harmonização planejados no diagnóstico, acompanhamento estendido Paciente que quer o resultado do conjunto, não de um item
Premium Escopo completo, planejamento ampliado, acompanhamento prolongado e prioridade de agenda Paciente que compra tranquilidade e tempo do profissional

Repare no que não muda entre os níveis: qualidade técnica, esterilização, segurança e responsabilidade. Isso nunca é variável de preço em saúde.

O que muda é escopo, acompanhamento e conveniência. Para o desenho completo desse modelo, veja como apresentar opções de plano bom, melhor e excelente.

Política de desconto: escreva antes de precisar

Toda clínica tem política de desconto. A diferença é que na maioria delas a política é "depende do dia e de quem está atendendo".

O ambiente regulatório também mudou nos últimos anos. A Resolução CFO 271/2025 reorganizou pontos da conduta comercial do cirurgião-dentista, e decisões do CADE já trataram de condutas de conselhos profissionais que restringiam concorrência de preço. O ponto de gestão para você não é jurídico, é operacional: quem decide desconto na sua clínica, com que limite e mediante o quê?

Uma política mínima que funciona tem quatro linhas:

  1. Quem pode conceder. Uma pessoa, não "quem estiver na recepção".
  2. Qual o limite absoluto, definido antes da negociação e travado no sistema.
  3. O que o paciente entrega em troca, como pagamento à vista, fechamento no dia ou escopo reduzido. Desconto sem contrapartida é redução de preço, não negociação.
  4. Como o desconto é registrado, para você medir depois quanto de margem saiu pela porta.

Sem essa política escrita, o desconto vira cultura e o preço de tabela vira ficção. Para calibrar o limite, veja qual é o desconto máximo sem destruir a margem.

O que o preço precisa cobrir no contrato e no consentimento

Preço de combo não é só um número, é um compromisso escrito. E o que está escrito define quanto custa entregar.

Documente item a item, antes de fechar:

  • Escopo exato, com cada procedimento nomeado, quantidade e região tratada.
  • O que está incluso em revisão e retoque, com prazo e limite. "Retoque incluso" sem prazo é retoque vitalício.
  • O que é intercorrência esperada e como ela será conduzida, com consulta de acompanhamento prevista.
  • O que não está incluso, incluindo procedimentos complementares que o paciente possa querer depois.
  • Condições de pagamento e o que acontece se o tratamento for interrompido no meio do plano.
  • Termo de consentimento com riscos, alternativas e expectativas de resultado alinhadas.

A regra é simples: cada promessa a mais no contrato é uma linha a mais na sua planilha de custo. Você pode prometer o que quiser, desde que tenha provisionado.

Prova visual: antes e depois dentro da regra

Estética facial vende por prova visual. E prova visual em odontologia tem regra própria.

A Resolução CFO 196/2019 regulamenta a divulgação de imagens pelo cirurgião-dentista. Os pontos que mais afetam a operação de marketing do combo:

  • Autoria própria. As imagens precisam ser de casos executados pelo próprio profissional que divulga.
  • Consentimento documentado do paciente para uso das imagens.
  • Identificação do responsável, com nome e número de inscrição no CRO.
  • Nada de promessa de resultado garantido ou comparação que induza o paciente a erro.

Isso tem impacto direto no preço, e o caminho é indireto. Prova visual própria e bem produzida é o que sustenta preço acima da média, porque tira o paciente da comparação por número e coloca na comparação por resultado. Clínica sem acervo de caso próprio negocia preço; clínica com acervo negocia agenda.

Demanda, comoditização e por que o preço cai sozinho

Vamos ao incômodo que ninguém coloca na reunião: a oferta de procedimentos estéticos faciais dentro da odontologia cresceu rápido.

Quando muitos profissionais oferecem o mesmo item com a mesma descrição, o paciente perde critério para diferenciar. E quando ele não tem critério, ele usa o único que sobra: preço.

Isso não é um problema de tabela. É um problema de posicionamento, e ele se resolve em três frentes:

  1. Venda plano, não item. "Bichectomia" é commodity. "Planejamento do terço inferior da face com diagnóstico e acompanhamento" é projeto.
  2. Nomeie o seu protocolo. Um processo com nome, etapas e entregas sai da comparação direta com o item avulso.
  3. Mostre o que poucos mostram. Diagnóstico, planejamento, acompanhamento e critérios de indicação. Quem explica melhor cobra melhor.

O combo bem posicionado não compete com o combo barato. Ele compete com a insegurança do paciente, e é aí que você ganha.

Sazonalidade e ciclo de decisão do paciente estético

O paciente de estética facial tem um comportamento que a clínica precisa colocar no orçamento e no calendário.

Ele decide por evento, não por dor. Casamento, formatura, viagem, virada de ano, período de férias que permite ficar em casa durante o edema. Isso concentra procura em janelas específicas.

Duas consequências práticas para o seu preço:

  • A capacidade fica escassa em janela de pico. Escassez real é argumento legítimo de preço e de prioridade de agenda, e não exige desconto nenhum.
  • A janela vazia não deve ser resolvida com corte de preço. Baixar valor em período fraco treina o mercado a esperar o período fraco. Prefira ativar a base, o retorno de paciente e o encaixe de casos menores.

Planeje a capacidade da agenda por janela, e trate período fraco como problema de ativação de base, não de tabela.

O preço só existe se o orçamento chegar a ser apresentado

Aqui está a parte que quase toda clínica trata como assunto de outra reunião, e que decide se a sua tabela vale alguma coisa.

Como a lei impede anunciar preço, todo o valor do combo é apresentado na consulta. E a consulta só acontece se o atendimento capturar o paciente antes de ele desistir.

Os dados internos da Odonto Results, na base de clínicas atendidas, mostram o tamanho desse gargalo:

  • 43,8% dos leads chegam fora do horário comercial. Quase metade da demanda bate na porta quando não tem ninguém para responder.
  • A primeira resposta da IA sai em mediana 4,4 segundos. É o que segura o paciente na conversa enquanto o interesse está quente.
  • A mediana entre a primeira mensagem e o agendamento é de 2h57. O paciente decide rápido, dentro da mesma janela em que procurou.
  • 23% dos leads que respondem viram agendamento dentro da conversa (mediana entre clínicas, faixa típica de 20% a 33%). Fazer o lead responder é metade do trabalho.

O que isso significa para a sua precificação: não adianta refinar a terceira casa decimal da margem se o orçamento nunca é apresentado. Um combo bem precificado e nunca orçado vale zero.

Lembre: em procedimento cujo preço não pode ser anunciado, a velocidade de resposta não é detalhe de atendimento. É a condição para o preço existir na cabeça do paciente.

Ancoragem e sequência de apresentação na consulta

Preço apresentado fora de ordem vira objeção. Preço apresentado na ordem certa vira decisão.

A sequência que funciona no combo estético tem cinco movimentos:

  1. Diagnóstico primeiro. O paciente precisa ouvir o que você viu antes de ouvir quanto custa.
  2. Plano completo antes do preço. Apresente o resultado pretendido e as etapas, não a lista de itens com valores ao lado.
  3. Ancore no plano completo, não no procedimento isolado. O número maior apresentado primeiro reposiciona todos os outros.
  4. Ofereça níveis, não descontos. O paciente escolhe escopo dentro do que você desenhou.
  5. Feche o próximo passo na mesma conversa. Data, condição e assinatura. Orçamento que sai da clínica sem data marcada esfria.

O erro mais caro é apresentar item a item com preço unitário. Isso transforma o plano numa lista de compras, e lista de compras convida o paciente a cortar itens.

As métricas que dizem se o combo paga a cadeira

Precificou. Agora meça, porque preço sem acompanhamento é palpite com aparência de gestão.

Métrica O que ela responde Sinal de alerta
Ticket médio do combo Quanto entra por caso fechado Cai mês a mês enquanto o volume sobe: você está descontando sem perceber
Margem de contribuição por hora de cadeira Se o combo é melhor que o procedimento que ocuparia a mesma hora Fica abaixo de outros procedimentos da clínica
Taxa de aceitação do orçamento Se o preço e a apresentação estão calibrados Muito baixa indica preço ou argumento fora do lugar, muito alta indica preço abaixo do que o mercado aceitaria
Percentual de desconto concedido Quanto de margem sai na negociação Cresce sem que a taxa de aceitação suba junto
Taxa de retoque e revisão Se a provisão está no tamanho certo Consome mais cadeira do que o previsto no preço
Custo por orçamento apresentado Quanto custa colocar o paciente na consulta Sobe enquanto a taxa de aceitação fica parada

Duas dessas métricas conversam entre si e ninguém olha junto: taxa de aceitação e percentual de desconto. Se o desconto sobe e a aceitação não, o problema não é preço. É argumento.

Seu próximo passo

  1. Feche o escopo e o custo antes de tocar no preço. Confira item a item do combo contra o que a resolução permite, e monte a planilha com cadeira, sala, insumo, esterilização, anestesia, equipe e provisão de retoque. O piso sai daí, não da tabela do vizinho.
  2. Troque desconto por níveis e escreva a política. Três níveis com escopos diferentes, limite de desconto definido antes da negociação, contrapartida obrigatória e registro de cada concessão para medir a margem que saiu.
  3. Garanta que o orçamento chegue a ser apresentado. Como o preço não pode ser anunciado, o funil inteiro existe para colocar o paciente na consulta: resposta imediata, cobertura fora do horário comercial e agendamento no mesmo dia da procura.

Quer transformar o combo de estética facial da sua clínica em um produto com margem medida e agenda previsível? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Posso cobrar bichectomia e harmonização facial como pacote único?

Pode, desde que todos os itens do pacote estejam dentro do escopo odontológico e sejam executados por profissional habilitado. O material oficial do Conselho Federal de Odontologia sobre a especialidade de Harmonização Orofacial cita nominalmente a técnica cirúrgica de remoção do corpo adiposo de Bichat e as técnicas cirúrgicas para correção dos lábios entre os procedimentos abrangidos. O que não é odontológico não entra no pacote nem na comunicação.

Posso divulgar o preço do combo no Instagram ou no site da clínica?

Não. A Lei 5.081/1966, no art. 7º, alínea g, veda ao cirurgião-dentista anunciar preços de serviços, modalidades de pagamento e outras formas de comercialização da clínica que signifiquem competição desleal. O anúncio gera a conversa, o preço é apresentado na consulta com o plano de tratamento.

Qual é a base de cálculo do preço do combo?

A base é o seu custo, não a tabela do vizinho. Some o custo-hora de cadeira e de sala cirúrgica pelo tempo real do procedimento, os insumos usados em cada item do combo, a esterilização, a anestesia, o custo da equipe de apoio e a provisão de retoques e revisões previstas em contrato. Só depois aplique a margem que o nível de entrega justifica.

Bichectomia é procedimento de cirurgião buco-maxilo-facial ou de harmonização orofacial?

O Conselho Federal de Odontologia registra que a resolução da Harmonização Orofacial não se aplica aos procedimentos cirúrgicos de competência do especialista em cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial, regidos pela Resolução CFO 220/2019. Na prática, o escopo de cada especialidade precisa ser conferido caso a caso antes de o procedimento entrar na sua tabela.

Posso registrar quantas especialidades quiser para ampliar o combo?

Não. A Lei 5.081/1966, no art. 7º, alínea c, veda ao cirurgião-dentista o exercício de mais de duas especialidades. Isso limita quantas frentes um mesmo profissional cobre e empurra a clínica a montar time, não a acumular títulos numa pessoa só.

Dar desconto no combo é a forma mais rápida de fechar?

É a forma mais rápida de destruir margem. Desconto plano corta o preço sem tirar nada da entrega, e o paciente aprende que o valor cheio era inflado. Prefira níveis de entrega, em que cada faixa de preço tem escopo, acompanhamento e garantia diferentes.