Custos e ROI

Glossário de indicadores financeiros da clínica odontológica: o que medir e como calcular?

Faturamento bruto, margem de lucro, CAC, ticket médio, ponto de equilíbrio, EBITDA, DRE, fluxo de caixa, no-show e mais 15 indicadores financeiros que o dono de clínica odontológica precisa dominar. Cada um com fórmula, faixa de referência com fonte e o que ele revela sobre a saúde do negócio.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 7 de julho de 2026 · 20 min de leitura
TL;DR

Indicadores financeiros são os números que mostram se a clínica realmente lucra ou apenas fatura: dominar faturamento bruto, margem, CAC, ticket médio e ponto de equilíbrio separa o dono que toma decisão pelo dado do que decide pelo instinto.

Pontos-chave
  • Custos variáveis (folha, laboratório, insumos) devem ficar entre 45% e 55% do faturamento da clínica, segundo a American Dental Association. Acima disso, a margem de lucro encolhe mesmo com faturamento alto.
  • A margem de lucro saudável varia por porte: clínica pequena 20% a 30%, média 30% a 40%, grande 40% a 50%, segundo a R2 Saúde Contábil. Abaixo de 20% indica risco sério para a operação.
  • No-show corrói a margem de forma silenciosa. Estudo com 196.018 consultas odontológicas encontrou taxa de falta de 42,68%, segundo publicação do National Library of Medicine (NIH). Cada cadeira vazia é custo fixo que roda sem receita.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Faturamento bruto x lucro líquido (a confusão que mais engana)
  4. Margem de lucro e margem de contribuição (fórmula + faixa saudável por porte)
  5. Ponto de equilíbrio (quanto a clínica precisa faturar antes de lucrar)
  6. Ticket médio (fórmula, e por que ele sozinho não diz se a clínica está saudável)
  7. CAC: Custo de Aquisição de Paciente (fórmula e como cruzar com ticket médio)
  8. LTV: valor vitalício do paciente (e por que ele muda toda a conta)
  9. Taxa de ocupação da cadeira e produtividade da agenda
  10. Índice de inadimplência e taxa de retorno de pacientes
  11. Fluxo de caixa, DRE, balanço patrimonial e EBITDA (visão gerencial x contábil)
  12. ROI de marketing (como calcular sem confundir com CAC)
  13. Custos fixos x custos variáveis (faixa saudável segundo a ADA)
  14. Custo de material e insumo por procedimento (e como embutir na precificação)
  15. No-show como indicador financeiro oculto (o que os estudos mostram)
  16. Taxa de conversão do orçamento em tratamento fechado
  17. Glossário rápido (tabela de consulta)
  18. Seu próximo passo
  19. Perguntas frequentes

"Quais são os indicadores financeiros que eu preciso acompanhar na minha clínica odontológica?"

A maioria dos donos de clínica sabe o faturamento do mês. Poucos sabem a margem real por procedimento, o custo para colocar cada paciente na cadeira ou quanto a agenda vazia custa por hora.

Essa diferença entre faturar e lucrar é o que separa a clínica que cresce da que trabalha cada vez mais para ficar no mesmo lugar.

O problema raramente é falta de paciente. É falta de visibilidade sobre onde o dinheiro entra, onde vaza e qual número precisa melhorar primeiro.

Neste guia você vai ver:

  • Cada indicador financeiro relevante para a clínica, com fórmula e o que ele revela
  • Faixas de referência com fonte (ADA, estudos do NIH, SEBRAE) para você saber onde está
  • A diferença entre indicadores que parecem bons e os que realmente mostram saúde financeira
  • Como o no-show, a inadimplência e a ocupação da cadeira corroem a margem sem aparecer no faturamento
  • Uma tabela-resumo para consulta rápida no dia a dia

Faturamento bruto x lucro líquido (a confusão que mais engana)

Faturamento bruto é a receita total que entrou na clínica antes de qualquer desconto, imposto ou custo. É o número grande que aparece no extrato e que, sozinho, não diz quase nada.

Lucro líquido é o que sobra depois de pagar tudo: impostos, aluguel, folha, materiais, laboratório, marketing, pró-labore, despesas financeiras e administrativas.

A fórmula:

  • Faturamento bruto = soma de todos os recebimentos no período
  • Lucro líquido = faturamento bruto - (custos fixos + custos variáveis + impostos + despesas financeiras)

Muita clínica fatura acima de R$100 mil por mês e descobre, ao fechar o DRE, que a margem efetiva é bem menor do que imaginava. Isso acontece quando os custos crescem junto com o faturamento, sem controle.

O faturamento bruto serve como termômetro de volume. O lucro líquido mostra se o volume está virando resultado. Acompanhar só o primeiro é como olhar o velocímetro sem olhar o nível de combustível.

Lembre: faturamento alto com lucro baixo significa que a clínica está girando dinheiro, não retendo. O indicador que importa para o dono é o lucro líquido.

Margem de lucro e margem de contribuição (fórmula + faixa saudável por porte)

São dois indicadores diferentes que muita gente confunde.

Margem de lucro é o percentual do faturamento que sobra como lucro líquido. Fórmula:

  • Margem de lucro (%) = (lucro líquido / faturamento bruto) x 100

Segundo a R2 Saúde Contábil, a faixa saudável varia por porte:

Porte da clínica Margem de lucro saudável
Pequena 20% a 30%
Média 30% a 40%
Grande 40% a 50%

Abaixo de 20%, independentemente do porte, o sinal é de risco. A operação fica frágil: qualquer imprevisto (equipamento que quebra, inadimplência de convênio, mês fraco) vira crise.

Margem de contribuição é diferente. Ela mostra quanto cada procedimento contribui para cobrir os custos fixos e gerar lucro, depois de descontar os custos variáveis daquele procedimento. Fórmula:

  • Margem de contribuição = receita do procedimento - custos variáveis do procedimento
  • Margem de contribuição (%) = (margem de contribuição / receita do procedimento) x 100

Exemplo: suponha que uma faceta de porcelana gera R$3.000 de receita e tem R$900 de custo variável (laboratório, material, comissão). A margem de contribuição é R$2.100 (70%). Um clareamento que gera R$800 com R$200 de custo variável tem margem de R$600 (75%).

A margem de contribuição por procedimento é o que revela quais serviços realmente sustentam a clínica e quais só giram a agenda sem gerar resultado.

Ponto de equilíbrio (quanto a clínica precisa faturar antes de lucrar)

O ponto de equilíbrio (break-even) é o faturamento mínimo para cobrir todos os custos, sem lucro nem prejuízo. Abaixo dele, a clínica opera no vermelho.

Fórmula:

  • Ponto de equilíbrio (R$) = custos fixos totais / margem de contribuição percentual média

Exemplo: digamos que a clínica tem R$50.000 de custos fixos mensais (aluguel, folha, energia, sistema, contabilidade) e a margem de contribuição média ponderada dos procedimentos é 60%. O ponto de equilíbrio seria R$50.000 / 0,60 = R$83.333.

Isso significa que os primeiros R$83.333 de faturamento no mês servem só para empatar. Lucro começa depois disso.

Você também pode calcular o ponto de equilíbrio em número de procedimentos. Divida o ponto de equilíbrio em reais pelo ticket médio e descubra quantos atendimentos são necessários por mês para cobrir a operação.

Saber o ponto de equilíbrio é o primeiro passo para definir metas de agenda que fazem sentido financeiro, não apenas operacional.

Ticket médio (fórmula, e por que ele sozinho não diz se a clínica está saudável)

Ticket médio é a receita média por paciente ou por atendimento em um período. Fórmula:

  • Ticket médio = faturamento total / número de pacientes (ou atendimentos) no período

Ticket médio alto parece bom, mas esconde armadilhas. Se o custo variável por procedimento também é alto, a margem de contribuição pode ser baixa mesmo com ticket elevado.

Além disso, ticket médio inflado por poucos casos de alto valor (um protocolo de implante, por exemplo) mascara a realidade do dia a dia. Basta um mês sem esses casos e o número despenca.

O ticket médio só faz sentido cruzado com outros indicadores:

  • Ticket médio x margem de contribuição: mostra se o que você cobra retém lucro
  • Ticket médio x CAC: mostra se o custo para atrair o paciente é compatível com o que ele gera
  • Ticket médio x taxa de retorno: mostra se o paciente volta e acumula valor ao longo do tempo

Monitorar o ticket médio isolado pode levar a decisões erradas, como focar só em procedimentos caros e negligenciar a base de recorrência que sustenta o fluxo de caixa.

Leia também: Quanto vale um paciente para a clínica odontológica?

CAC: Custo de Aquisição de Paciente (fórmula e como cruzar com ticket médio)

O CAC mostra quanto a clínica investe para conquistar cada paciente novo. Não é o custo por lead. É o custo por paciente que compareceu e iniciou tratamento.

Fórmula:

  • CAC = (investimento em marketing + custo comercial) / pacientes novos adquiridos no período

Investimento em marketing inclui verba de anúncio, salário/comissão da CRC, ferramentas de CRM/automação, produção de conteúdo. Custo comercial inclui tempo da equipe dedicado a converter leads.

A diferença entre CAC e CPL (custo por lead) é crítica. CPL mede o custo por contato gerado. CAC mede o custo por paciente que realmente compareceu na cadeira. Entre um e outro existe a taxa de conversão, a taxa de comparecimento e a taxa de fechamento.

Uma clínica pode ter CPL baixo e CAC alto quando os leads são frios e não comparecem. Ou CPL alto e CAC baixo quando os leads são qualificados e fecham com frequência.

O CAC precisa ser menor que o valor que o paciente gera ao longo do tempo (LTV). Se o CAC é maior que o ticket do primeiro procedimento, a clínica precisa que o paciente volte para a conta fechar.

Na base interna da Odonto Results (18 clínicas, 4.951 leads, mar-jun/2026), 43,8% dos leads chegam fora do horário comercial e 19,4% no fim de semana. Lead que chega e não recebe resposta rápida é CAC desperdiçado: você pagou para atrair, mas perdeu na recepção.

Leia também: Paguei tráfego e não tive retorno: onde está o vazamento?

LTV: valor vitalício do paciente (e por que ele muda toda a conta)

O LTV (Lifetime Value) estima quanto um paciente gera de receita ao longo de todo o relacionamento com a clínica, não apenas no primeiro procedimento.

Fórmula simplificada:

  • LTV = ticket médio por visita x número médio de visitas por ano x tempo médio de permanência como paciente (em anos)

Exemplo: suponha que o paciente gasta R$600 por visita, comparece 3 vezes por ano e permanece como paciente ativo por 4 anos. O LTV seria R$600 x 3 x 4 = R$7.200.

O LTV é o indicador que justifica (ou não) o CAC. Se o CAC é R$300 e o LTV é R$7.200, a relação é saudável. Se o CAC é R$300 e o paciente faz um clareamento de R$800 e nunca mais volta, a margem é estreita.

Clínicas que investem em retenção (manutenção, recall, profilaxia periódica) aumentam o LTV sem aumentar o CAC. É mais barato fazer o paciente voltar do que atrair um novo.

O LTV também ajuda a definir quanto faz sentido investir em marketing por procedimento. Um paciente de ortodontia que fica 2 anos em tratamento e depois faz manutenção tem LTV muito diferente de um paciente de clareamento pontual.

Taxa de ocupação da cadeira e produtividade da agenda

A taxa de ocupação mostra quanto da capacidade instalada da clínica está sendo efetivamente utilizada. Fórmula:

  • Taxa de ocupação (%) = (horas de cadeira ocupada / horas de cadeira disponível) x 100

Se a clínica tem 3 cadeiras funcionando 8 horas por dia, 5 dias por semana, são 120 horas disponíveis por semana. Se 84 dessas horas estão preenchidas com atendimentos, a taxa de ocupação é 70%.

Ocupação alta parece sinal de saúde, mas precisa de contexto.

Ocupação alta com ticket médio baixo significa que a clínica está lotada de procedimentos simples e baratos. Ocupação moderada com ticket médio alto pode ser mais rentável.

A produtividade da agenda vai além da ocupação. Ela cruza ocupação com receita por hora de cadeira:

  • Receita por hora de cadeira = faturamento total / horas de cadeira ocupada

Esse indicador mostra se a agenda está sendo usada com os procedimentos certos. Duas clínicas com a mesma ocupação podem ter receitas completamente diferentes dependendo do mix de procedimentos.

Cadeira vazia tem custo fixo rodando (aluguel, energia, salário da equipe parada). Por isso a taxa de ocupação impacta diretamente o ponto de equilíbrio.

Índice de inadimplência e taxa de retorno de pacientes

Índice de inadimplência é o percentual do faturamento que não foi efetivamente recebido. Fórmula:

  • Inadimplência (%) = (valores não recebidos / faturamento bruto) x 100

Inadimplência inclui parcelas atrasadas de pacientes particulares, glosas e atrasos de convênios, e cheques devolvidos. Em clínicas que trabalham com financiamento próprio (parcelamento no boleto), o índice tende a ser mais alto.

A inadimplência é um "buraco invisível". Ela não aparece no faturamento bruto, mas aparece no caixa. Muita clínica fatura bem no papel e aperta no banco porque uma fatia significativa do que vendeu não foi recebida.

Taxa de retorno de pacientes mostra a capacidade de retenção da clínica. Fórmula:

  • Taxa de retorno (%) = (pacientes que voltaram no período / total de pacientes ativos) x 100

Uma taxa de retorno alta sinaliza que a experiência é boa, o tratamento gera confiança e a clínica tem capacidade de cross-sell (o paciente veio para limpeza e fechou clareamento, por exemplo).

Taxa de retorno baixa pode indicar falha no pós-atendimento, falta de recall ativo ou simplesmente que a clínica depende exclusivamente de pacientes novos para faturar, o que eleva o CAC continuamente.

Os dois indicadores se relacionam: inadimplência alta de pacientes recorrentes indica problema no processo de cobrança, não no perfil do paciente.

Fluxo de caixa, DRE, balanço patrimonial e EBITDA (visão gerencial x contábil)

Esses quatro indicadores costumam parecer "coisa do contador", mas cada um mostra uma dimensão diferente da saúde financeira.

Fluxo de caixa é o registro das entradas e saídas de dinheiro em um período. Não é o lucro: é o dinheiro que efetivamente entrou e saiu do banco.

  • Fluxo de caixa = entradas de caixa - saídas de caixa

Uma clínica pode ter lucro contábil positivo e fluxo de caixa negativo quando o paciente parcelou em 10 vezes, mas a clínica pagou o laboratório à vista. O contrário também acontece: fluxo positivo com lucro negativo quando há adiantamentos de pacientes sem o serviço executado.

Monitorar o fluxo de caixa semanalmente é o que evita surpresas no fechamento do mês.

DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) é o relatório que organiza receitas e despesas em camadas:

Camada do DRE O que mostra
Receita bruta Tudo que foi faturado
(-) Deduções Impostos, devoluções, descontos
= Receita líquida Faturamento efetivo
(-) Custos variáveis Material, laboratório, comissão
= Margem de contribuição Quanto sobra para cobrir fixos
(-) Custos fixos Aluguel, folha fixa, energia, sistema
= Resultado operacional Lucro (ou prejuízo) da operação
(-) Despesas financeiras Juros, taxas bancárias
= Lucro líquido O que realmente sobrou

O DRE transforma a bagunça de contas em uma leitura de cima para baixo. Se a margem de contribuição é saudável, mas o resultado operacional é ruim, o problema está nos custos fixos. Se a margem de contribuição já é apertada, o problema vem de antes.

Balanço patrimonial é a foto da clínica em um momento específico: o que ela possui (ativos), o que ela deve (passivos) e a diferença (patrimônio líquido).

  • Ativos: dinheiro em caixa, equipamentos, estoque de materiais, contas a receber
  • Passivos: empréstimos, contas a pagar, financiamentos de equipamento
  • Patrimônio líquido = ativos - passivos

O balanço importa especialmente para quem planeja expandir, abrir unidade nova ou buscar crédito. Banco e investidor olham o balanço, não o Instagram da clínica.

EBITDA (Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization) mostra a geração de caixa operacional da clínica, excluindo efeitos financeiros, tributários e contábeis.

  • EBITDA = lucro operacional + depreciação + amortização

O EBITDA é útil para comparar a performance operacional entre períodos ou entre clínicas, porque isola o resultado do dia a dia da operação sem a distorção de decisões de financiamento ou regime tributário.

Para o dono de clínica, o EBITDA responde: "quanto a minha operação gera de caixa antes dos efeitos que eu não controlo no dia a dia?"

ROI de marketing (como calcular sem confundir com CAC)

ROI (Return on Investment) mede o retorno de um investimento específico. No contexto da clínica, geralmente se aplica ao investimento em marketing ou em equipamento.

Fórmula:

  • ROI (%) = ((receita gerada pelo investimento - custo do investimento) / custo do investimento) x 100

Exemplo: suponha que a clínica investiu R$5.000 em anúncios no mês e os pacientes vindos desses anúncios geraram R$25.000 de receita. O ROI seria ((25.000 - 5.000) / 5.000) x 100 = 400%.

O ROI e o CAC medem coisas diferentes. O CAC diz quanto custou cada paciente. O ROI diz quanto cada real investido gerou de retorno. Uma clínica pode ter CAC alto e ROI positivo quando o ticket médio é muito superior ao custo de aquisição.

Três cuidados ao calcular ROI de marketing:

  1. Inclua todos os custos. Verba de anúncio é só uma parte. Salário da CRC, ferramentas, tempo da equipe, comissão do closer: tudo entra no custo
  2. Meça a receita certa. Receita gerada pelo investimento, não o faturamento total. Pacientes de indicação não entram nessa conta
  3. Defina a janela. Um paciente de implante pode levar 3 meses do primeiro contato ao pagamento. ROI de 30 dias pode ser enganoso para procedimentos de ciclo longo

O ROI mais honesto para a clínica é o que mede retorno por paciente que compareceu e pagou, não por lead gerado.

Leia também: Como medir se a agência traz paciente ou só lead?

Custos fixos x custos variáveis (faixa saudável segundo a ADA)

Custos fixos são os que existem independentemente do volume de atendimento: aluguel, salários fixos, energia, internet, sistema de gestão, contabilidade, seguros.

Custos variáveis oscilam com a produção: materiais odontológicos, taxa de laboratório, comissão por procedimento, descartáveis, anestésicos.

A distinção importa porque os custos fixos determinam o ponto de equilíbrio (quanto você precisa faturar para empatar) e os custos variáveis determinam a margem de contribuição de cada procedimento.

Segundo a American Dental Association (ADA News), os custos variáveis de uma clínica (folha, taxas de laboratório, insumos odontológicos e de escritório) devem ficar na faixa de 45% a 55% do faturamento.

Acima de 55%, a margem encolhe perigosamente. Mesmo que o faturamento cresça, se os custos variáveis crescem na mesma proporção ou mais, o lucro líquido pode ficar estagnado ou cair.

Veja como a proporção funciona na prática:

Faixa de custos variáveis O que indica
Abaixo de 45% Eficiência acima da média (verificar se não está subinvestindo em qualidade)
45% a 55% Faixa saudável segundo a ADA
Acima de 55% Margem comprimida, revisar precificação ou custos de laboratório/insumo

A forma mais rápida de diagnosticar é listar tudo que a clínica gasta por mês, separar fixo de variável e calcular o percentual de cada grupo sobre o faturamento. Discrepância grande em relação a essas faixas é sinal claro de que algo precisa de ajuste.

Custo de material e insumo por procedimento (e como embutir na precificação)

Saber o custo de material por procedimento é o que permite precificar com margem, não no chute.

Cada procedimento consome uma lista específica de insumos: anestésico, resina, broca, descartáveis, material de moldagem, peça protética do laboratório. Somar esses custos por procedimento dá o custo direto.

  • Custo de material por procedimento = soma de todos os insumos consumidos naquele procedimento

Esse número entra no cálculo da margem de contribuição (receita do procedimento menos custos variáveis, incluindo material).

O SEBRAE ensina o método do markup para precificação: custo total x índice de markup = preço final. Exemplo: se o custo total de um procedimento (material + mão de obra + rateio de fixos) é R$40 e o índice de markup é 2,5, o preço final seria R$100.

O markup precisa ser definido considerando a margem desejada, os impostos e o posicionamento da clínica. Usar markup uniforme para todos os procedimentos é um erro comum: procedimentos de alto valor e alta complexidade podem sustentar markup maior, enquanto procedimentos simples e competitivos exigem markup mais apertado.

O controle de custo por procedimento também revela desperdício. Se o custo de material de uma restauração varia 40% entre dentistas da mesma clínica, existe diferença de técnica ou de uso de insumo que precisa ser investigada.

No-show como indicador financeiro oculto (o que os estudos mostram)

No-show não é só um problema de agenda. É um indicador financeiro que corrói a margem de forma silenciosa.

Quando o paciente falta, os custos fixos continuam rodando: aluguel do consultório, salário da equipe, energia, sistema. A cadeira fica vazia, mas a conta não para.

Os números da literatura mostram o tamanho do problema:

Um estudo com 10 clínicas de múltiplas especialidades médicas ao longo de 12 anos encontrou taxa média de no-show de 18,8% (com variação de 12,6% a 25,7% dependendo da especialidade).

Em um contexto mais grave, uma pesquisa com 196.018 consultas odontológicas registrou taxa de falta de 42,68% (83.663 faltas). Quase metade da agenda perdida.

O impacto financeiro é direto. Um estudo em clínica médica acadêmica (não-odontológica; 12 meses, 3.583 consultas) mostrou que 21,2% de taxa de falta geraram perda de US$170.100 por ano em faturamento cobrado e US$51.289 por ano em receita efetivamente recebida.

Para calcular o impacto na sua clínica:

  • Custo do no-show por mês = (número de faltas x receita média por atendimento) + (número de faltas x custo fixo por hora de cadeira)

A primeira parte é a receita que deixou de entrar. A segunda é o custo que rodou sem produção.

Reduzir o no-show em poucos pontos percentuais pode ter impacto maior no resultado do que aumentar o volume de leads. É dinheiro que já estava quase no caixa.

Lembre: no-show alto não é problema de marketing. É problema operacional que impacta diretamente o financeiro. Confirmação em mais de um canal, resposta rápida e protocolo de remarcação são os controles básicos.

Leia também: Quanto custa NÃO ter IA de atendimento na clínica?

Taxa de conversão do orçamento em tratamento fechado

Esse indicador mostra a eficiência comercial da clínica depois que o paciente já compareceu na cadeira.

  • Taxa de conversão (%) = (orçamentos fechados / orçamentos apresentados) x 100

Uma clínica pode atrair bem, ter comparecimento razoável e mesmo assim não faturar o esperado porque a conversão do orçamento em tratamento é baixa.

Os fatores que mais afetam essa taxa:

  • Apresentação do orçamento: valor solto vs. plano de tratamento com etapas, benefícios e opção de parcelamento
  • Tempo entre avaliação e follow-up: orçamento que não é retomado em 48 horas esfria
  • Opção de financiamento: procedimentos de alto valor dependem de parcelamento para viabilizar o sim do paciente

Acompanhar a taxa de conversão por procedimento mostra onde a clínica perde mais dinheiro no funil. Se o comparecimento é bom e a conversão é baixa, o problema não está no marketing. Está na cadeira.

Glossário rápido (tabela de consulta)

Indicador Fórmula resumida O que revela
Faturamento bruto Soma de todos os recebimentos Volume de entrada (sem contexto de lucro)
Lucro líquido Faturamento - todos os custos e impostos O que realmente sobra para o dono
Margem de lucro (%) (Lucro líquido / faturamento) x 100 Eficiência em converter receita em lucro
Margem de contribuição Receita do procedimento - custos variáveis Quanto cada serviço contribui para cobrir fixos
Ponto de equilíbrio Custos fixos / margem de contribuição % Faturamento mínimo para empatar
Ticket médio Faturamento / n. de pacientes Receita média por atendimento
CAC (Marketing + vendas) / pacientes adquiridos Custo para colocar um paciente na cadeira
LTV Ticket x visitas/ano x anos de permanência Valor total do paciente ao longo do tempo
Taxa de ocupação (%) Horas ocupadas / horas disponíveis Uso da capacidade instalada
Taxa de retorno (%) Pacientes que voltaram / total ativos Capacidade de retenção
Inadimplência (%) Valores não recebidos / faturamento "Buraco" entre vender e receber
Fluxo de caixa Entradas - saídas efetivas Dinheiro real disponível
DRE Receita em camadas até o lucro líquido Visão estruturada de onde o dinheiro vai
EBITDA Lucro operacional + depreciação + amortização Geração de caixa operacional pura
ROI (%) (Receita gerada - investimento) / investimento Retorno por real investido
No-show (%) Faltas / agendamentos Capacidade perdida (custo fixo sem receita)
Conversão do orçamento (%) Fechados / apresentados Eficiência comercial na cadeira

Seu próximo passo

  1. Monte o DRE simplificado deste mês. Liste receita, custos variáveis, custos fixos e calcule a margem de lucro. Compare com a faixa do seu porte (20-30% pequena, 30-40% média, 40-50% grande, segundo a R2 Saúde Contábil)
  2. Calcule o CAC real. Some todo o investimento em marketing e vendas e divida pelo número de pacientes que compareceram e iniciaram tratamento. Compare com o ticket médio para saber se a conta fecha
  3. Meça o no-show. Conte as faltas do último mês, multiplique pela receita média por atendimento e some o custo fixo por hora de cadeira vazia. Esse número mostra quanto a falta está custando por mês, e agende uma apresentação para ver como a operação pode recuperar essa receita

Perguntas frequentes

Qual a margem de lucro ideal para uma clínica odontológica?

Depende do porte. Segundo a R2 Saúde Contábil, a faixa saudável é de 20% a 30% para clínica pequena, 30% a 40% para média e 40% a 50% para grande. Abaixo de 20% indica risco operacional sério, independentemente do faturamento.

Qual a diferença entre faturamento bruto e lucro líquido?

Faturamento bruto é tudo que entrou no caixa antes de qualquer dedução. Lucro líquido é o que sobra depois de pagar impostos, custos fixos, variáveis, pró-labore e despesas financeiras. Uma clínica pode faturar muito e lucrar pouco se os custos estão descontrolados.

Como calcular o CAC da clínica odontológica?

Some tudo que você investiu em marketing e vendas no período (verba de anúncio, salário da CRC, ferramentas, comissão) e divida pelo número de pacientes novos que compareceram e iniciaram tratamento. O resultado é o custo real para colocar um paciente na cadeira.

O que é ponto de equilíbrio e como calcular?

Ponto de equilíbrio é o faturamento mínimo para cobrir todos os custos fixos e variáveis, sem lucro nem prejuízo. A fórmula é custos fixos divididos pela margem de contribuição percentual. Abaixo desse número, a clínica opera no vermelho.

Por que o ticket médio sozinho não mostra se a clínica é saudável?

Porque ticket médio alto com margem de contribuição baixa por procedimento significa que você fatura muito e retém pouco. Ticket médio precisa ser cruzado com margem e com CAC para mostrar se o paciente atendido realmente dá lucro.

No-show é um indicador financeiro?

Sim. Cada falta mantém os custos fixos rodando (aluguel, equipe, energia) sem gerar receita. Um estudo publicado no NIH encontrou que 21,2% de faltas em uma clínica geraram perda de US$170.100 por ano em faturamento cobrado e US$51.289 em receita efetivamente recebida.