Custos e ROI

Devo pagar a mesma comissão para paciente que veio de anúncio e para paciente que veio de indicação?

Pagar comissão menor pelo paciente indicado parece justo e quase sempre sai caro. Veja o que a comissão de fato remunera, por que o custo de aquisição é conta da clínica e não da CRC, o que os dados de canal mostram sobre o gargalo real, as travas da CLT e do Código de Ética, e três desenhos de plano que resolvem sem diferenciar por origem.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 28 de agosto de 2026 · 20 min de leitura
TL;DR

Pague a mesma taxa pelo mesmo ato de fechar. O que muda entre anúncio e indicação é o custo de aquisição, que é conta da clínica, e a meta de cada canal, nunca a régua de comissão da CRC.

Pontos-chave
  • O gargalo do canal é alcance, não fechamento. Entre os leads que respondem, o agendamento fica em torno de 23% e varia pouco de canal para canal, segundo dados internos da Odonto Results: o que separa uma origem da outra é fazer o lead responder, não o esforço de fechar o caso depois que a conversa existe.
  • O paciente indicado tende a valer mais, não menos. Estudo publicado no Journal of Marketing em 2011 (Schmitt, Skiera e Van den Bulte), que acompanhou cerca de 10.000 clientes de um grande banco alemão por quase três anos, encontrou valor médio pelo menos 16% maior no cliente indicado, com margem de contribuição e retenção também maiores.
  • Comissão não é bônus solto. Pelo art. 457, §1º da CLT, as comissões integram o salário, então cada real puxa repouso semanal e feriado (Súmula 27 do TST), 13º, férias com o terço e FGTS. Só o prêmio do art. 457, §2º e §4º fica fora, e apenas quando remunera desempenho superior ao ordinariamente esperado.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. O que a comissão está de fato remunerando
  4. O lead que não veio de anúncio já vem pronto? O que os dados mostram
  5. Custo de aquisição: a variável que realmente muda de origem para origem
  6. O paciente indicado vale mais ao longo do relacionamento
  7. Os efeitos colaterais previsíveis de comissionar por origem
  8. Você consegue provar de onde veio o paciente?
  9. Trava 1: comissão integra o salário e puxa encargos junto
  10. Trava 2: repouso semanal, feriados e piso do comissionista
  11. Trava 3: mexer no plano vigente é alteração contratual, não ajuste de política
  12. Trava ética: o Código de Ética veda gratificação por encaminhamento
  13. Comissão ou prêmio: a única porta legal para diferenciar sem incorporar ao salário
  14. Três desenhos que resolvem o problema sem diferenciar por origem
  15. Como testar antes de mexer no plano inteiro
  16. Erros comuns quando se compara canais
  17. Seu próximo passo
  18. Perguntas frequentes

"Devo pagar a mesma comissão para paciente que veio de anúncio e para paciente que veio de indicação?"

A pergunta parece de folha de pagamento. Ela é de contabilidade gerencial.

Você olha para o extrato do mês, vê a verba de mídia queimando caixa e a indicação chegando de graça, e conclui que a CRC está recebendo o mesmo por dois trabalhos diferentes. A conclusão é intuitiva. E é onde a maioria dos planos de comissão quebra.

Porque você está comparando duas contas que nem sequer moram na mesma linha do resultado: o que custou trazer o paciente até a porta, e o que vale o trabalho de transformar esse contato em caso fechado.

A resposta curta: pague a mesma taxa pelo mesmo ato de fechar. Diferencie meta, não régua. E quando quiser recompensar quem gera indicação, use prêmio por um ato novo, não desconto no ato antigo.

Neste guia você vai ver:

  • As duas contas que você está misturando quando pensa em comissionar por origem
  • O que os dados de canal mostram sobre o mito do "indicado já vem pronto"
  • Por que o paciente indicado vale mais, e por isso pagar menos por ele é autossabotagem
  • Os efeitos colaterais previsíveis de comissionar por origem (e qual deles é o mais caro)
  • As travas da CLT, da Súmula 27 do TST e do Código de Ética que limitam o desenho
  • Três desenhos alternativos que resolvem o problema real, com tabela comparativa
  • Como testar a mudança antes de mexer no plano inteiro

O que a comissão está de fato remunerando

Antes de decidir a porcentagem, responda uma pergunta simples: você paga comissão por quê?

Se a resposta é "por fechar o caso", então a origem do lead é irrelevante para o cálculo. O ato remunerado é a negociação, o contorno de objeção, a apresentação do plano, o follow-up do orçamento em aberto e a confirmação do comparecimento. Esse ato acontece igual nas duas origens.

Se a resposta é "para dividir o custo do marketing", então você não quer uma comissão. Você quer que a CRC banque parte do custo de aquisição, o que é outra conversa (e uma conversa ruim, porque a CRC não controla o CPL).

Pensa assim: são duas contas distintas.

Conta Pergunta que ela responde Quem controla Quando é paga
Comissão Quanto vale o trabalho de converter este contato em caso fechado A CRC Depois do fechamento
Custo de aquisição Quanto custou trazer este contato até a porta da clínica A clínica e a gestão de mídia Antes de o paciente chegar

Repare: as duas contas têm donos diferentes e prazos diferentes.

O custo de aquisição do lead de anúncio já saiu do seu caixa antes de a conversa começar. Ele é irrecuperável. Descontá-lo da comissão não devolve um centavo da verba gasta, mas cria um incentivo permanente na fila de atendimento. Você troca um custo que já aconteceu por uma distorção que vai acontecer todo mês.

Lembre: comissão é preço de trabalho, não rateio de despesa de mídia. No dia em que a origem do lead entra na fórmula do pagamento, a CRC passa a escolher lead, e não a fechar caso.

Se você ainda está definindo a porcentagem base, comece por quanto pagar de comissão para a CRC sobre o fechamento.

O lead que não veio de anúncio já vem pronto? O que os dados mostram

Esse é o argumento que sustenta a ideia de pagar menos pela indicação: ele chega decidido, então a CRC "só carimba".

Os dados desmentem a parte que importa.

Na base de clínicas atendidas pela Odonto Results, no recorte de conversas de WhatsApp atendidas pela IA de agendamento, o lead que chega por canal não pago responde bem mais que o lead vindo de anúncio. A distância é grande e consistente.

Só que quando você olha o passo seguinte, a diferença some.

Entre os leads que respondem, o agendamento fica em torno de 23%, com pouca variação de canal para canal, segundo dados internos da Odonto Results.

Traduzindo para a sua operação: a vantagem do canal não pago está em fazer o contato acontecer, não em fechar depois que ele aconteceu. Uma vez que a conversa existe, o trabalho da CRC pesa igual.

E o trabalho não é pequeno nem confortável. Ainda nos dados internos da Odonto Results, 43,8% dos leads chegam fora do horário comercial, e a IA responde em mediana 4,4 segundos. Indicação não escolhe horário: ela chega no domingo à noite, com o nome de quem indicou e com a mesma exigência de resposta rápida. Janela: 25 de março a 14 de junho de 2026.

Uma ressalva honesta, porque ela muda a leitura: esse recorte separa canal pago de canal não pago dentro do WhatsApp. Ele não isola "indicação declarada" como carimbo próprio. O canal não pago inclui indicação, mas também inclui quem achou a clínica no Maps, quem já era paciente e quem passou na frente. É a melhor aproximação disponível, não uma medição direta de indicação.

Ainda assim, o sentido do achado é claro. O gargalo de canal é alcance. O fechamento é trabalho, e é o mesmo trabalho.

Custo de aquisição: a variável que realmente muda de origem para origem

Agora vamos para a conta que de fato muda. E ela muda muito.

O lead de anúncio consumiu caixa antes de chegar na cadeira: verba de mídia, criativo, gestão, tecnologia de rastreamento. O lead de indicação chega sem essa fatura específica.

Isso não significa que a indicação seja gratuita. Ela é paga em outra moeda: qualidade clínica, experiência de atendimento, pós-tratamento estruturado, brinde, tempo de equipe pedindo indicação na hora certa. É investimento diluído, não ausência de investimento.

A economia é real e vale muito. Segundo a Harvard Business Review, em artigo de Amy Gallo publicado em 2014, dependendo do estudo e do setor, adquirir um cliente novo custa de 5 a 25 vezes mais do que reter um existente, e aumentar a taxa de retenção em 5% eleva os lucros entre 25% e 95%.

A confiança também joga a favor. No Trust in Advertising Study da Nielsen, no recorte de destaques dos Estados Unidos (adultos 15+, pesquisa online, amostra de 2.000), recomendações de pessoas conhecidas aparecem como o canal mais confiável de publicidade, com 89%.

O peso da indicação na odontologia também aparece na literatura, com escopo estrangeiro. Em levantamento com 520 pacientes de quatro clínicas odontológicas privadas de uma região metropolitana do sudeste da Coreia do Sul (publicado em outubro de 2018 no International Dental Journal, volume 68, e disponível na PMC da National Library of Medicine), 426 pacientes, ou 81,9%, chegaram à clínica por recomendação. O dado é coreano, não brasileiro, e serve para dimensionar a importância do canal, não para prever a sua proporção.

Junte as três coisas e a conclusão fica desconfortável para quem quer pagar menos pelo indicado:

  1. O canal de indicação é o mais barato de operar.
  2. Ele é o mais confiável na percepção de quem recebe a recomendação.
  3. E ele é o que mais depende de a clínica inteira funcionar bem, incluindo o comercial.

Nada disso é trabalho da CRC ter feito. Mas nada disso justifica cortar o pagamento dela.

A conta que precisa existir é a do teto: quanto você pode gastar para adquirir um paciente por canal antes de o caso deixar de valer a pena. Essa é a linha que decide verba. Ela não é a linha que decide comissão.

O paciente indicado vale mais ao longo do relacionamento

Aqui o argumento de pagar menos vira contra quem o defende.

O estudo de Schmitt, Skiera e Van den Bulte publicado no Journal of Marketing em janeiro de 2011 acompanhou cerca de 10.000 clientes de um grande banco alemão por quase três anos. Os autores encontraram que o valor médio de um cliente indicado é pelo menos 16% maior que o de um cliente não indicado com demografia e época de aquisição similares.

Duas nuances do estudo importam para o seu desenho de comissão:

  • Os indicados tiveram margem de contribuição maior, e essa diferença erode com o tempo.
  • Os indicados tiveram taxa de retenção maior, e essa diferença persiste.

O escopo é banco alemão, não clínica odontológica brasileira. Trate como evidência de direção, não como número transportável para o seu DRE.

Mas a direção é justamente a que interessa: o paciente indicado é, em média, o mais rentável e o que fica mais tempo. Comissionar menos por ele significa colocar o menor incentivo em cima do caso de maior valor de relacionamento.

E tem um efeito de segunda ordem: paciente indicado bem atendido indica de volta. Ao reduzir o incentivo de quem atende esse paciente, você aperta a torneira que alimenta o próprio canal barato. Se o objetivo era proteger a margem, o desenho faz o oposto no médio prazo.

Os efeitos colaterais previsíveis de comissionar por origem

Todo plano de comissão é uma máquina de comportamento. Diga qual comportamento você paga e eu digo qual você vai ver na segunda-feira.

Diferenciar a taxa por origem produz seis efeitos bem conhecidos:

  1. Cherry-picking da fila. A CRC atende primeiro o lead que paga mais. Não por má fé, por racionalidade econômica.
  2. Abandono do lead pago. Ironia cara: o lead que consumiu verba fica no fim da fila, e o que já era barato recebe o melhor atendimento. Você paga duas vezes pelo mesmo erro.
  3. Negociação do carimbo de origem. Quando a origem vale dinheiro, a origem passa a ser discutida. "Ele até clicou no anúncio, mas quem falou da clínica foi a cunhada dele."
  4. Briga interna de atribuição. Marketing e comercial passam a disputar de quem é o crédito do paciente, em vez de discutir onde o funil vaza.
  5. Menos indicação gerada. Se o caso indicado paga menos, a equipe para de pedir indicação. O canal barato seca por decisão de plano de cargos.
  6. Contaminação do dado que você usa para decidir verba. A origem vira informação política, e a base que sustenta a sua decisão de investimento perde confiabilidade.

O item 6 é o mais silencioso e o mais caro. Você aceita perder qualidade de dado para economizar alguns pontos de comissão, e depois decide a verba do trimestre seguinte com um carimbo de origem que a própria operação tem incentivo para distorcer.

Se a sua dúvida real é qual canal merece o crédito da conversão, o problema é de modelo de atribuição de mídia, não de plano de comissão. Resolver atribuição com a folha da CRC é usar a ferramenta errada em cima do problema certo.

Você consegue provar de onde veio o paciente?

Antes de transformar origem em base de pagamento, faça o teste da auditoria: se a CRC contestar o carimbo de um caso, o que você mostra?

Nem toda forma de registrar origem aguenta virar dinheiro.

Forma de carimbar a origem Como funciona Quão auditável é Serve como base de pagamento?
Autodeclaração no balcão ("como nos conheceu?") Recepção pergunta e anota Baixa: depende de memória e de humor do paciente Não
Identificador do clique no anúncio de WhatsApp O clique carrega um identificador até a conversa Alta para separar pago de não pago Sim, para o corte pago x não pago
UTM em formulário, site e landing page Parâmetro na URL preenchido na origem Média a alta, exige disciplina de link Sim, com governança
Nome de quem indicou no cadastro do prontuário Campo preenchido no atendimento Média: depende de preenchimento consistente Só com auditoria por amostragem
Conversa reconstruída depois ("acho que foi indicação") Reconstrução manual no fechamento Muito baixa Não

Repare no padrão: o que é rastreável tecnicamente é o clique pago; o que define indicação costuma ser declaração humana. Ou seja, o lado do carimbo que você usaria para pagar menos é justamente o mais frágil.

Isso não impede que você meça indicação. Impede que você pague por ela sem uma trilha auditável. Sem carimbo confiável, diferenciar por origem é convite a atrito mensal com a sua melhor CRC.

Trava 1: comissão integra o salário e puxa encargos junto

Agora a parte que muitos donos descobrem no cálculo da rescisão.

O art. 457, §1º da CLT é direto: integram o salário a importância fixa estipulada, as gratificações legais e as comissões pagas pelo empregador.

Não existe ressalva por canal de origem. Comissão de paciente indicado e comissão de paciente de anúncio têm exatamente a mesma natureza jurídica: salarial.

O que isso significa na prática:

  • Cada real de comissão compõe a base de 13º salário.
  • Compõe férias com o terço constitucional.
  • Compõe o FGTS e, por consequência, a rescisão.
  • Compõe aviso prévio e demais verbas calculadas sobre a remuneração.

Ou seja: o custo real de um ponto percentual de comissão é maior que um ponto percentual. Quem monta a régua olhando só a porcentagem nominal subestima a folha.

Trava 2: repouso semanal, feriados e piso do comissionista

A segunda trava aparece na conta do mês, não na rescisão.

A Súmula 27 do TST é literal: "é devida a remuneração do repouso semanal e dos dias feriados ao empregado comissionista, ainda que pracista". A comissão gera reflexo em DSR e feriado, e esse reflexo não é opcional.

E existe piso. O art. 1º da Lei 8.716/1993, no texto oficial publicado pela Câmara dos Deputados, garante que "aos trabalhadores que perceberem remuneração variável, fixada por comissão, peça, tarefa ou outras modalidades, será garantido um salário mensal nunca inferior ao salário mínimo". O art. 2º estende a garantia ao salário misto, que é o formato mais comum em CRC de clínica.

O efeito prático da combinação é elegante e pouco intuitivo: rebaixar a comissão de um tipo de lead não corta seu custo fixo. Se o mês for fraco, o piso continua devido e a complementação sai do seu bolso. Você reduziu o incentivo sem reduzir a despesa mínima.

Para a discussão completa de fixo e variável, veja salário fixo mais comissão ou 100% comissão para a CRC.

Trava 3: mexer no plano vigente é alteração contratual, não ajuste de política

Aqui mora o erro mais caro dos três.

Você tem um plano rodando há dois anos, com comissão igual para qualquer origem. Decide que, a partir do mês que vem, indicação paga metade. Do ponto de vista da gestão, é uma nova política. Do ponto de vista trabalhista, é redução unilateral de remuneração.

O art. 468 da CLT condiciona a alteração das condições do contrato ao mútuo consentimento e à ausência de prejuízo ao empregado. Faltando qualquer um dos dois, a cláusula alterada é nula.

Como fazer sem criar passivo:

  1. Congele a regra atual para quem já está no plano. Direito adquirido não se renegocia por comunicado interno.
  2. Aplique a régua nova para contratações novas, com contrato claro desde o primeiro dia.
  3. Construa por adição, não por subtração. Camada nova de prêmio em cima do que existe é caminho seguro; corte no que já existe, não.
  4. Formalize com advogado trabalhista antes de comunicar à equipe. Depois do anúncio, recuar custa mais caro que planejar.

Trava ética: o Código de Ética veda gratificação por encaminhamento

Existe ainda uma quarta trava, e ela é específica da odontologia.

O Código de Ética Odontológica do Conselho Federal de Odontologia define, no art. 20, inciso III, que constitui infração ética "receber ou dar gratificação por encaminhamento de paciente".

Isso tensiona diretamente qualquer bônus desenhado como pagamento por paciente trazido. Quanto mais o incentivo se parecer com "ganhe X por paciente que você encaminhar", mais perto ele fica da vedação.

O que costuma reduzir o risco no desenho:

  • Premiar processo executado (o pedido de indicação feito no momento certo, registrado no sistema) em vez de paciente encaminhado.
  • Manter o incentivo dentro da relação de emprego, sem pagamento a terceiros que encaminham.
  • Evitar qualquer estrutura em que o valor pago varie diretamente com o número de pacientes encaminhados por um profissional.
  • Validar o desenho com advogado e, quando houver dúvida, consultar o CRO do seu estado antes de publicar a regra.

Lembre: o teste não é o nome que você dá ao pagamento. É o que ele remunera na prática.

Se você quer mesmo criar uma diferença entre origens, existe um caminho, e ele não passa por mexer na taxa de comissão.

O art. 457, §2º da CLT estabelece que as importâncias pagas a título de prêmios, ainda que habituais, não integram a remuneração do empregado, não se incorporam ao contrato de trabalho e não constituem base de incidência de encargo trabalhista e previdenciário.

E o §4º define o que é prêmio: liberalidades concedidas pelo empregador em forma de bens, serviços ou valor em dinheiro, em razão de desempenho superior ao ordinariamente esperado no exercício das atividades.

A expressão que carrega o desenho inteiro é essa: desempenho superior ao ordinariamente esperado.

O que isso exige de você, na prática:

  • Definir por escrito o que é o desempenho ordinário (a meta base do cargo).
  • Definir o gatilho acima desse ordinário que dispara o prêmio.
  • Manter o prêmio como excedente, não como parte previsível do pagamento mensal.

E a ressalva honesta: a redação tem nuances e a aplicação depende de como o pagamento se comporta na rotina. Prêmio pago todo mês, no mesmo valor, por atingir a meta comum do cargo, tende a ser lido como salário disfarçado. Formalize com advogado e trate o §4º como critério, não como rótulo.

Para montar a estrutura completa (fixo, comissão, prêmio e gatilhos), veja como estruturar o modelo de comissão da CRC.

Três desenhos que resolvem o problema sem diferenciar por origem

Você não precisa aceitar o incômodo original. Precisa resolvê-lo no lugar certo do plano.

Desenho A: mesma taxa por caso fechado, acelerador por margem ou ticket

Mantenha uma única porcentagem por caso fechado, independentemente de origem. Em cima dela, coloque um acelerador ligado ao que a CRC de fato controla: margem do plano vendido, ticket do caso, condição de pagamento, taxa de comparecimento.

Exemplo de estrutura: taxa base igual para todos os casos, mais uma camada adicional quando o caso fechado supera a meta de margem do mês.

Por que funciona: você premia decisão comercial (não dar desconto desnecessário, ancorar no plano completo, proteger a agenda), e não sorte de canal.

Desenho B: mesma taxa, metas diferentes por canal

Aqui você reconhece que os canais são diferentes sem criar dois preços para o mesmo trabalho.

O canal de indicação parte de uma base mais quente, então ele carrega uma meta de conversão mais alta. O canal pago tem alcance maior e temperatura menor, então ele carrega uma meta de volume maior e conversão menor.

A CRC continua recebendo a mesma porcentagem por caso fechado. O que muda é o padrão de desempenho que você cobra em cada fila.

Esse é, na maioria das clínicas, o desenho de menor atrito e maior efeito.

Desenho C: prêmio para quem GERA indicação, não desconto para quem ATENDE indicação

Se o seu objetivo real é ter mais indicação, pague pelo ato novo.

Atender um paciente indicado é o mesmo trabalho de sempre. Fazer o pedido de indicação no momento certo, com registro, é trabalho adicional que hoje ninguém faz.

Desenhe como prêmio por processo executado e mensurável, respeitando a trava ética da seção anterior. E monte o programa de indicação de forma estruturada, não como campanha solta: veja como funciona um programa member get member na clínica.

Comparativo dos três desenhos

Critério A: taxa única + acelerador B: mesma taxa, metas por canal C: prêmio por gerar indicação
O que muda no plano Camada extra por margem ou ticket Só a meta, a taxa fica igual Camada nova, fora da comissão
Resolve o incômodo do custo de mídia? Parcialmente, via margem Sim, via exigência maior no canal quente Não, resolve o volume de indicação
Risco de cherry-picking Baixo Muito baixo Baixo
Natureza jurídica Salarial, integra a remuneração Salarial, integra a remuneração Prêmio, se atender ao §4º
Trava ética a observar Nenhuma específica Nenhuma específica Art. 20, III do Código de Ética
Complexidade de implantação Média Baixa Média a alta

Na prática, a combinação que costuma funcionar melhor é B como base e C como camada opcional. O A entra quando a clínica tem problema real de desconto excessivo no fechamento.

Como testar antes de mexer no plano inteiro

Mudança de remuneração é irreversível na prática: você não recolhe um anúncio de comissão sem custo de confiança. Então teste antes.

  1. Escolha uma hipótese única e falseável. Exemplo: "o caso de indicação exige menos toques da CRC até o fechamento". Se for verdade, aparece no número de interações e no tempo até o fechamento, não na sua impressão.
  2. Fixe a janela antes de olhar o resultado. Exemplo: um trimestre fechado. Janela definida depois do resultado é confirmação de viés, não teste.
  3. Garanta amostra suficiente por canal. Canal com um punhado de casos fechados no mês não distingue efeito de sorte. Se um dos canais não gera casos suficientes na janela, o teste não conclui nada sobre ele.
  4. Meça a métrica certa. Compare respondeu para agendado e agendado para fechado por canal, não lead para fechado. A primeira é esforço da CRC; a segunda mistura esforço com alcance de mídia.
  5. Defina o critério de decisão antes. Escreva a frase: "se a diferença de esforço entre canais for menor que X, mantenho a taxa única". Sem critério prévio, qualquer resultado confirma o que você já queria fazer.
  6. Rode a mudança em camada, não em substituição. Comece pelo prêmio adicional (reversível por natureza) antes de tocar na comissão base (que vira direito adquirido).

Erros comuns quando se compara canais

Estes quatro erros aparecem em quase toda discussão de comissão por origem:

  1. Comparar lead para agendado entre canais. Essa métrica mistura duas coisas: quantos leads respondem e quantos respondentes agendam. O canal pago perde na primeira e empata na segunda. Comparar o número agregado leva à conclusão errada sobre esforço.
  2. Usar taxa de resposta como prova de esforço da CRC. Taxa de resposta mede temperatura do canal e qualidade da segmentação, não empenho de quem atende.
  3. Achar que indicação chega pronta. Indicação chega com confiança emprestada, não com decisão tomada. Ela ainda precisa de resposta rápida, apresentação de plano, condição de pagamento e follow-up.
  4. Tratar custo de aquisição como custo variável do fechamento. O custo de mídia já aconteceu quando a CRC pega a conversa. É custo afundado para a decisão de comissão, ainda que seja central para a decisão de verba.

Corrigidos esses quatro, o debate normalmente muda de lugar: sai de "quanto pago por origem" e vai para "qual canal merece mais verba no mês que vem". Que é a pergunta certa.

Seu próximo passo

  1. Separe as duas contas no seu relatório. Coloque custo de aquisição por canal em uma linha e custo de comissão sobre casos fechados em outra. Enquanto elas estiverem somadas, a origem vai continuar parecendo problema de folha.
  2. Ajuste a meta, não a taxa. Defina metas de conversão diferentes para canal pago e canal de indicação mantendo a mesma porcentagem por caso fechado, e comunique a lógica para a equipe (a percepção de justiça é parte do desenho).
  3. Coloque o incentivo no ato que falta. Se você quer mais indicação, premie o pedido de indicação executado e registrado, com desenho validado juridicamente, em vez de descontar de quem atende o indicado.

Quer parar de decidir comissão por impressão e passar a decidir por dado de canal, do anúncio ao paciente na cadeira? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Posso pagar comissão menor para o paciente que veio por indicação?

Pode, mas quase sempre é o desenho errado. A comissão remunera o ato de fechar o caso, que é o mesmo nas duas origens; o que muda é o custo de aquisição, que a clínica já pagou antes e não se recupera descontando da CRC. Além disso, pagar menos pelo indicado desincentiva justamente o paciente com melhor margem e retenção.

Comissão sobre paciente indicado entra no salário da CRC?

Entra. O art. 457, §1º da CLT diz que as comissões pagas pelo empregador integram o salário, sem distinguir de onde veio o lead. Por isso ela repercute em repouso semanal e feriados (Súmula 27 do TST), 13º, férias com o terço constitucional, FGTS e rescisão.

Já pago comissão cheia por indicação há dois anos: posso cortar agora?

Não de forma unilateral. Reduzir a comissão de um tipo de lead em plano já vigente é alteração contratual prejudicial, vedada pelo art. 468 da CLT, que exige mútuo consentimento e ausência de prejuízo. O caminho seguro é congelar a regra atual para quem já está no plano e desenhar a nova regra para contratações e para camadas novas de prêmio.

Bônus para a CRC que traz indicação fere o Código de Ética Odontológica?

Exige cuidado. O art. 20, III do Código de Ética Odontológica define como infração ética "receber ou dar gratificação por encaminhamento de paciente". Um incentivo desenhado como pagamento por paciente encaminhado tensiona diretamente essa vedação, então prefira premiar o processo executado pela equipe, e valide o desenho com advogado antes de publicar.

Como eu sei se o paciente veio mesmo por indicação?

Só sabe se tiver carimbo técnico, não autodeclaração. Lead que clicou em anúncio no WhatsApp chega com identificador do clique, e formulário e site chegam com UTM; o resto é o que o paciente lembra de dizer no balcão. Se a origem vira base de pagamento sem esse rastro, você está pagando por memória e por conveniência.

Se o indicado dá menos trabalho, o que eu faço com essa diferença?

Coloque a diferença na meta, não na taxa. Mantenha a mesma porcentagem por caso fechado e exija do canal de indicação um volume e uma taxa de conversão maiores, porque ele parte de uma base mais quente. Assim você captura a vantagem do canal sem criar dois preços para o mesmo trabalho.