Custos e ROI

Valuation de clínica odontológica: múltiplo de EBITDA ou de faturamento na hora de vender ou captar sócio?

Comprador sério não paga múltiplo de faturamento: paga múltiplo de EBITDA ajustado, a geração de caixa real depois de tirar o pró-labore de mercado do dono. Veja quando cada método entra, o que faz o múltiplo subir ou despencar e como preparar a clínica antes de negociar.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 25 de junho de 2026 · 19 min de leitura
TL;DR

Na hora de vender ou captar sócio, a regra é múltiplo de EBITDA ajustado, não de faturamento: faturamento só vira referência em clínica nova ou sem lucro estruturado. O múltiplo sobe quando a clínica roda sem o dono e tem receita previsível, e despenca quando tudo depende das suas mãos na cadeira.

Pontos-chave
  • O múltiplo de EBITDA (EV/EBITDA) é a razão que compara o valor da empresa (Enterprise Value) ao seu EBITDA anual e serve para precificar um negócio e compará-lo com semelhantes, segundo o [Corporate Finance Institute](https://corporatefinanceinstitute.com/resources/capital_markets/ebitda-multiple/). É o método-padrão para vender clínica com lucro estruturado.
  • Tem comprador no mercado: o Brasil tem 441 mil cirurgiões-dentistas inscritos e 149.346 especializações concluídas, segundo o [Conselho Federal de Odontologia](https://website.cfo.org.br/estatisticas-da-odontologia-brasil-tem-1493-mil-cirurgioes-dentistas-especialistas/) (dado de 30/06/2025), um setor grande o bastante para atrair rede e investidor.
  • O número que mais mexe no múltiplo não está na planilha: é a dependência do dono. Clínica que para quando você para vale como autoemprego e negocia múltiplo baixo, enquanto operação previsível e auditável vende por múltiplo bem maior, conforme dados internos da Odonto Results sobre o que compradores e sócios olham primeiro.

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Antes de tudo: o que é valuation e por que saber o número antes importa
  4. Faturamento, lucro e EBITDA: os três números não são a mesma coisa
  5. Por que valuation sério usa EBITDA, não faturamento bruto
  6. EBITDA ajustado: o número que de fato vale (e por que o bruto não serve)
  7. Múltiplo de EBITDA: o que o número significa e por que varia
  8. Múltiplo de faturamento: quando ele de fato é usado
  9. Fluxo de caixa descontado (FCD/DCF): o método que projeta o futuro
  10. Avaliação patrimonial: o piso, não o teto
  11. Goodwill: a marca, a carteira e a reputação que valem acima dos equipamentos
  12. Os fatores que SOBEM o múltiplo da sua clínica
  13. Os fatores que DERRUBAM o múltiplo (e como evitar)
  14. Due diligence: o que o comprador (ou sócio) olha primeiro
  15. Vender 100% ou captar sócio: a lógica muda?
  16. Os erros fatais ao calcular o valor da própria clínica
  17. Percepção do dono versus valor de mercado real
  18. Previsibilidade de pacientes: o ativo de valuation que o dono não vê
  19. Como preparar a clínica para elevar o valuation
  20. Seu próximo passo
  21. Perguntas frequentes

"Minha clínica vale múltiplo de faturamento ou de EBITDA na hora de vender ou captar sócio?"

Resposta curta: de EBITDA. E quase sempre do EBITDA ajustado, não do número que sai direto do seu sistema.

Faturamento é o que você movimenta. Não é o que sobra, nem o que o comprador leva.

O erro que custa caro começa aqui: o dono multiplica o faturamento anual por um número que ouviu em algum lugar, chega num valor bonito e acha que descobriu quanto a clínica vale.

Não descobriu. Descobriu quanto ele gostaria que valesse.

Quem entra na mesa sabendo a diferença entre os dois métodos negocia de igual para igual. Quem confunde os dois negocia no escuro.

Neste guia você vai ver:

  • Por que comprador sério paga múltiplo de EBITDA, não de faturamento
  • O que é EBITDA, e por que o EBITDA ajustado vale mais que o bruto
  • Quando faturamento entra de fato na conta (e quando engana)
  • Os outros métodos (fluxo de caixa descontado e patrimonial) e quando cada um vale
  • O que faz o múltiplo dobrar ou despencar na sua clínica
  • Como preparar a clínica para vender ou captar sócio por mais

Antes de tudo: o que é valuation e por que saber o número antes importa

Valuation é estimar quanto vale o seu negócio. Parece óbvio, mas tem um detalhe que muda tudo.

O valor não é um fato fixo. É uma faixa que depende do método, do comprador e do risco que ele enxerga na operação.

Por isso você precisa saber o número antes de alguém perguntar.

Pensa assim: quando chega uma proposta de compra, um sócio querendo entrar ou uma rede batendo na porta, quem não sabe o valuation aceita a âncora do outro lado. Quem sabe, define a régua da conversa.

Lembre: descobrir o valor da clínica na hora da proposta é negociar com a faca apontada para você. Saber antes é a única forma de não deixar dinheiro na mesa.

E tem mercado para essa conversa. Segundo o Conselho Federal de Odontologia, o Brasil tem 441 mil cirurgiões-dentistas inscritos e 149.346 especializações concluídas (dado de 30/06/2025). Um setor grande o suficiente para ter comprador, sócio e investidor procurando boas operações.

Faturamento, lucro e EBITDA: os três números não são a mesma coisa

Antes de escolher o método, você precisa parar de confundir três coisas que parecem iguais e não são.

  • Faturamento (receita bruta): tudo que entra. É o tamanho do movimento, não o resultado.
  • Lucro líquido: o que sobra no fim, depois de tudo, inclusive impostos e financiamentos.
  • EBITDA: quanto a operação gera de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização.

A sigla é em inglês, mas a ideia é simples. EBITDA é o lucro antes de quatro coisas:

  1. Juros (Interest): o custo do dinheiro que você tomou emprestado.
  2. Impostos (Taxes): a carga tributária da clínica.
  3. Depreciação: o desgaste contábil dos equipamentos ao longo do tempo.
  4. Amortização: o mesmo desgaste, aplicado a ativos intangíveis.

Por que tirar tudo isso? Porque essas quatro variáveis mudam de dono para dono.

Um comprador pode ter outra estrutura tributária, outra dívida e outro plano de equipamentos. O EBITDA isola o que de fato interessa: quanto a sua operação gera de caixa rodando.

Lembre: faturamento mede o tamanho. Lucro líquido mede o que sobra com a sua estrutura específica. EBITDA mede a geração de caixa da operação, e é por isso que ele é a base do valuation.

Por que valuation sério usa EBITDA, não faturamento bruto

Aqui está o ponto que separa quem entende de quem chuta.

Duas clínicas podem faturar exatamente o mesmo e valer valores completamente diferentes.

Imagine duas clínicas de R$ 200 mil/mês de faturamento. A primeira gasta quase tudo e sobra pouco caixa. A segunda tem custo controlado e gera caixa robusto. O comprador paga pela segunda, não pela primeira, mesmo elas tendo o mesmo faturamento.

Faturamento não diz nada sobre eficiência. Diz só sobre volume.

E volume sem margem é armadilha. Tem clínica de faturamento alto que dá menos caixa que clínica de faturamento menor e bem gerida.

O comprador não está comprando o seu movimento. Está comprando o caixa que a clínica vai gerar para ele depois que você sair. Por isso ele ancora no EBITDA.

Veja a diferença na prática:

Item Clínica A Clínica B
Faturamento anual R$ 2,4 mi R$ 1,8 mi
Margem de caixa Baixa Alta
EBITDA Menor Maior
Valor pago pelo comprador Menor Maior

A clínica B fatura menos e vale mais. Esse é o resumo de por que faturamento engana.

EBITDA ajustado: o número que de fato vale (e por que o bruto não serve)

Existe um detalhe que o dono quase sempre ignora e que muda o valuation por inteiro.

O comprador não aplica o múltiplo sobre o EBITDA que sai do seu relatório. Ele aplica sobre o EBITDA ajustado (também chamado de normalizado).

Ajustar significa limpar o número de tudo que distorce a geração de caixa real da operação. Três ajustes pesam mais:

1. Pró-labore de mercado do dono. Se você atende na cadeira e tira pouco (ou nada) de pró-labore, seu lucro parece maior do que é. O comprador desconta o salário de mercado de quem faria o seu trabalho. Se você trabalha "de graça", o ajuste come o EBITDA.

2. Despesas pessoais misturadas na clínica. Carro, viagem, plano de saúde da família, almoço, cartão pessoal passando pela PJ. Tudo isso ou volta como despesa real (se for da clínica) ou é tirado do cálculo (se for seu). Comprador experiente acha esses gastos em minutos.

3. Gastos não recorrentes. A reforma única, o processo trabalhista de um ano, a compra pontual de equipamento. Eventos que não se repetem saem do EBITDA porque não representam a operação normal.

O efeito é direto. Na prática de avaliação, o múltiplo é aplicado sobre o EBITDA ajustado, que corrige a remuneração do dono e itens não recorrentes, não sobre o EBITDA bruto reportado.

Lembre: se você tira pró-labore baixo e mistura conta pessoal na clínica, o seu EBITDA parece alto e mente. O ajuste é onde o valuation real aparece, e onde o dono mais se decepciona.

Múltiplo de EBITDA: o que o número significa e por que varia

Agora junte as peças. O cálculo central de valuation por múltiplo é assim:

Valor da operação (Enterprise Value) = EBITDA ajustado × múltiplo.

O múltiplo é o EV/EBITDA: a razão que compara o valor da empresa ao seu EBITDA anual. Segundo o Corporate Finance Institute, essa razão serve para determinar o valor de uma empresa e compará-la com outras semelhantes.

Em outras palavras, o múltiplo é quantos anos de geração de caixa o comprador aceita pagar adiantado.

Múltiplo 3 significa "pago três anos de EBITDA". Múltiplo 6 significa "pago seis". Quanto mais o comprador confia na previsibilidade futura, mais anos ele paga adiantado.

E é por isso que ele varia tanto. O múltiplo não é tabela fixa: é o preço do risco que o comprador enxerga.

Sobre faixas de múltiplo: desconfie de quem crava um número único para "clínica odontológica". A faixa depende de porte, risco, crescimento e, principalmente, da dependência do dono. Consultório solo fica na base; operação com gestão e escala alcança múltiplos maiores. Quem te oferece um múltiplo redondo sem olhar a sua operação está vendendo conforto, não valuation.

Múltiplo de faturamento: quando ele de fato é usado

Existe sim hora de usar múltiplo de receita. Só não é a regra, é a exceção.

O múltiplo de faturamento entra quando o EBITDA não é confiável ou não existe de forma estruturada. Três cenários típicos:

  • Clínica nova: ainda não tem histórico de lucro suficiente para o EBITDA significar algo.
  • Clínica sem lucro estruturado: reinveste tudo, ou tem contabilidade tão bagunçada que o EBITDA não é auditável.
  • Alto crescimento: cresce tão rápido que o lucro de hoje subestima o potencial; aí o comprador olha receita e trajetória.

Repare no fio comum: nos três casos, o faturamento é uma referência de tamanho na falta de algo melhor, não a régua ideal.

E o risco do método é exatamente esse. Múltiplo de receita ignora a margem. Você pode estar precificando uma operação que fatura muito e gera pouco caixa, e o comprador vai descontar isso na mesa de qualquer jeito.

Lembre: se a única forma de a sua clínica "valer mais" é olhar faturamento em vez de EBITDA, isso é um sinal, não uma vantagem. Significa que falta lucro estruturado, e é nisso que você deveria trabalhar antes de vender.

Fluxo de caixa descontado (FCD/DCF): o método que projeta o futuro

O múltiplo de EBITDA é prático, mas tem um irmão mais técnico: o Fluxo de Caixa Descontado.

A lógica do FCD é projetar quanto caixa a clínica vai gerar nos próximos anos e trazer esse dinheiro futuro a valor presente, descontando uma taxa que representa o risco.

Por que descontar? Porque R$ 100 mil daqui a cinco anos valem menos que R$ 100 mil hoje. A taxa de desconto (o WACC, custo médio de capital) embute o risco de a projeção não se confirmar.

Quanto mais arriscada e imprevisível a clínica, maior a taxa de desconto, e menor o valor presente.

Aqui mora uma conexão que poucos donos enxergam. O múltiplo de EBITDA é, no fundo, um atalho do FCD.

Na teoria de finanças, o múltiplo EV/EBITDA funciona como uma simplificação do Fluxo de Caixa Descontado: ele implicitamente assume uma estrutura de investimento em equipamento, depreciação, crescimento e taxa de desconto.

Traduzindo: quando alguém te oferece "6x EBITDA", está embutindo nesse 6 uma hipótese de crescimento e de risco. Múltiplo alto = aposta em crescimento previsível. Múltiplo baixo = desconfiança no futuro.

Avaliação patrimonial: o piso, não o teto

Tem um terceiro método, e ele costuma marcar o chão do valor.

A avaliação patrimonial soma os ativos da clínica (equipamentos, mobiliário, estrutura) e subtrai as dívidas. É quanto a clínica vale "desmontada".

Esse método entra em dois casos:

  • Liquidação: a clínica vai fechar e os ativos serão vendidos separados.
  • Clínica sem rentabilidade: se não gera caixa, não há EBITDA para multiplicar, e o que sobra é o valor dos bens.

Na prática, o patrimonial é quase sempre o piso do valuation. Uma clínica que gera caixa vale mais que a soma dos seus equipamentos, justamente porque vale o lucro futuro, não só o ferro.

Se a sua clínica vale só o patrimônio, a mensagem é dura mas útil: ela está sendo avaliada como um monte de cadeiras e aparelhos, não como um negócio. O valor de negócio mora no caixa que ela gera, e é isso que você precisa construir.

Goodwill: a marca, a carteira e a reputação que valem acima dos equipamentos

Se o patrimônio é o piso, o goodwill é o que sobe a partir dele.

Goodwill (ou fundo de comércio) é tudo que vale e não está no inventário de equipamentos: a marca, a carteira de pacientes, a reputação, a posição na cidade, a recorrência de retorno.

É a diferença entre o valor que o comprador paga e o valor contábil dos ativos. E ele pode ser a maior parte do preço numa clínica madura.

Pensa assim: dois consultórios com os mesmos equipamentos podem valer valores muito diferentes. O que tem nome forte na cidade, agenda cheia e pacientes que voltam vale mais. Esse "a mais" é o goodwill.

Mas tem uma armadilha aqui, e é a mais comum de todas.

O dono superestima o próprio goodwill. Acha que "minha reputação vale uma fortuna" e ancora o preço nisso. O comprador, por outro lado, pergunta: essa reputação é da clínica ou é sua? Se a marca é o seu nome e os pacientes vêm por você, o goodwill vai embora junto com você na venda. E aí ele vale muito menos.

Os fatores que SOBEM o múltiplo da sua clínica

Agora a parte que você controla. O múltiplo não é destino, é resultado de como a clínica está estruturada.

Cinco fatores empurram o múltiplo para cima:

  • Baixa dependência do dono. A clínica produz e fecha caso sem as suas mãos em tudo. Isso é o fator número um.
  • Receita recorrente e previsível. Pacientes que voltam, manutenções, planos de tratamento longos. Receita que se repete vale mais que receita que recomeça do zero todo mês.
  • Processos documentados. Protocolos de atendimento, comercial e gestão escritos. O comprador sabe que a operação não vive na cabeça de uma pessoa.
  • Indicadores acompanhados. Você sabe o custo por paciente, a conversão de avaliação, o comparecimento, o ticket médio. Operação medida é operação que dá para confiar.
  • Previsibilidade de demanda. Um motor de aquisição de pacientes documentado, com custo conhecido e fluxo recorrente de novos casos. Isso transforma receita imprevisível em previsível, e previsibilidade é o que mais sobe o múltiplo.

Repare que todos têm a mesma natureza: cada um reduz o risco percebido pelo comprador. Múltiplo é o preço do risco. Menos risco, múltiplo maior.

Os fatores que DERRUBAM o múltiplo (e como evitar)

O outro lado é mais comum do que o dono gostaria de admitir.

Esses fatores derrubam o múltiplo, às vezes pela metade:

  • O dono faz a maior parte dos tratamentos. Se o seu nome e as suas mãos geram a maior parte da receita, o negócio é autoemprego, não empresa. Você não está vendendo uma clínica, está vendendo o seu emprego, e ninguém paga múltiplo alto por um emprego.
  • Conta pessoal misturada com a da clínica. O comprador não consegue confiar no número e desconta o risco. Bagunça contábil é a forma mais rápida de derrubar (ou matar) uma negociação.
  • Sem registro financeiro organizado. Sem histórico auditável de 12 a 24 meses, não há valuation confiável, há chute.
  • Equipamento velho ou defasado. O comprador embute o custo de renovação no preço, descontando do que te paga.
  • Dependência de convênio de baixa margem. Receita concentrada em convênio de baixo ticket é receita frágil e pouco lucrativa. Margem fina assusta comprador.

O mais perigoso da lista é o primeiro. Vale uma frase própria.

Se 80% do faturamento depende das suas mãos na cadeira, você não tem uma empresa para vender, tem um trabalho para transferir. E trabalho não vale múltiplo de EBITDA.

Due diligence: o que o comprador (ou sócio) olha primeiro

Antes de fechar, o comprador audita. Esse processo se chama due diligence, e é onde valuation otimista vira realidade.

A ordem de análise costuma ser esta:

  1. Financeiro auditável. Balanço organizado, separação entre conta pessoal e da clínica, fluxo de caixa real. Primeiro filtro, e o mais eliminatório.
  2. Conformidade fiscal. Impostos em dia, sem passivo escondido. Dívida tributária surpresa derruba negociação.
  3. Contratos. Aluguel, fornecedores, equipe, sociedade. O comprador quer saber o que herda.
  4. Carteira de pacientes. Quantos, quão recorrentes, quão concentrados. Carteira pulverizada vale mais que carteira dependente de poucos.

Repare no que está no topo: financeiro e fiscal. Não é a tecnologia da clínica, não é a decoração. É a casa em ordem.

Lembre: a due diligence não cria valor, ela revela. Se a clínica está bagunçada por dentro, o múltiplo cai na auditoria por mais bonita que seja a vitrine. Arrumar a casa antes é o que protege o seu preço.

Vender 100% ou captar sócio: a lógica muda?

Os dois caminhos usam a mesma base (EBITDA ajustado × múltiplo), mas o que está em jogo é diferente.

Vender 100% (exit): você sai, o comprador assume tudo. Aqui a dependência do dono é decisiva, porque o comprador precisa que a clínica funcione sem você a partir do dia um.

Captar sócio ou investidor: você vende uma fatia e segue operando. Você continua dentro, então o sócio aposta tanto na clínica quanto em você.

Parece que captar sócio "perdoa" a dependência do dono. Não perdoa. Pelo contrário.

O sócio investidor vai depender de você por mais tempo, e isso o deixa mais atento ao risco de a clínica girar em torno de uma pessoa só. Ele quer ver estrutura justamente porque sabe que vocês vão andar juntos por anos.

Veja o resumo:

Critério Vender 100% (exit) Captar sócio
O que você vende A clínica inteira Uma fatia
Você continua operando? Não Sim
Base do cálculo EBITDA ajustado × múltiplo EBITDA ajustado × múltiplo
Foco do comprador Roda sem você? Estrutura + você por mais tempo
Dependência do dono Crítica Crítica (e olhada de perto)

Os erros fatais ao calcular o valor da própria clínica

Quase todo dono comete pelo menos um destes. Cada um custa dinheiro real na mesa.

  • Ancorar em faturamento. "Faturo R$ 3 milhões/ano, então valho X vezes isso." Errado. O comprador paga caixa, não movimento.
  • Ignorar o pró-labore de mercado. Não descontar o salário de quem faria o seu trabalho infla o EBITDA e cria uma expectativa que a due diligence destrói.
  • Superestimar o goodwill. Achar que a reputação vale uma fortuna, quando boa parte dela é o seu nome, e vai embora com você.
  • Cravar um múltiplo redondo ouvido por aí. "Clínica vale 5x" sem analisar risco, porte e dependência é chute disfarçado de cálculo.
  • Confundir percepção com mercado. O número que você acha justo e o número que alguém paga são coisas diferentes.

Esse último merece atenção. É a raiz de quase toda frustração na venda.

Percepção do dono versus valor de mercado real

Existe um abismo entre quanto o dono acha que a clínica vale e quanto o mercado paga.

É natural. Você construiu a clínica, você sangrou por ela, você lembra de cada conquista. Mas o comprador não compra a sua história. Compra caixa futuro e baixo risco.

O dono precifica emoção e esforço. O mercado precifica geração de caixa e previsibilidade.

Toda vez que esses dois números batem de frente, o de mercado vence. Não porque seja mais justo, mas porque é ele que assina o cheque.

A boa notícia: a distância entre os dois números encurta com preparação. Cada ponto que você arruma (dependência, contabilidade, previsibilidade) move o número de mercado na sua direção.

Previsibilidade de pacientes: o ativo de valuation que o dono não vê

Aqui está o fator que conecta tudo isso ao que a Odonto Results faz, e que a maioria das clínicas ignora no valuation.

A maior fonte de risco percebido pelo comprador é uma pergunta simples: de onde vêm os próximos pacientes?

Se a resposta é "indicação", "boca a boca" ou "depende do movimento", o comprador enxerga risco. Receita que não dá para prever é receita que assusta.

Agora vire a chave. Se a clínica tem um motor de aquisição documentado (campanhas rodando, custo por paciente conhecido, fluxo recorrente de novos casos que comparecem e fecham), o comprador enxerga previsibilidade. E previsibilidade é exatamente o que sobe o múltiplo.

Pensa assim: demanda comprovada e medida reduz o risco da projeção de caixa. Risco menor significa taxa de desconto menor no FCD, e múltiplo maior no método de EBITDA. É o mesmo mecanismo dos dois lados.

Por isso o tráfego previsível não é só despesa de marketing na hora de vender. É ativo de valuation. Uma clínica que sabe quanto custa colocar um paciente novo na cadeira, e consegue repetir isso todo mês, vende como negócio, não como autoemprego.

Na base de clínicas atendidas pela Odonto Results, o que estrutura essa previsibilidade é medir o funil até o fim: do anúncio ao comparecimento, com custo por paciente conhecido, conforme dados internos da Odonto Results. É esse registro que transforma "espero que apareçam pacientes" em "sei quantos vão aparecer e a que custo".

Como preparar a clínica para elevar o valuation

Valuation não se conserta na semana da venda. Se prepara com meses de antecedência. Cinco frentes movem o número:

1. Separe pessoa física de pessoa jurídica. Pare de passar conta pessoal pela clínica. Tire pró-labore de mercado. Isso limpa o EBITDA e o torna auditável, o primeiro filtro da due diligence.

2. Reduza a dependência do fundador. Delegue produção e gestão, documente protocolos, forme equipe. Quanto menos a clínica precisar de você, mais ela vale como empresa.

3. Estruture indicadores. Acompanhe ticket médio, conversão de avaliação, comparecimento, custo por paciente. Operação medida transmite confiança.

4. Organize histórico financeiro. Tenha 12 a 24 meses de números limpos e consistentes. Sem histórico, não há valuation, há estimativa.

5. Construa previsibilidade de demanda. Tenha um motor de aquisição de pacientes documentado, com custo conhecido. É o que separa receita previsível de receita torcida.

Veja também quanto vale a sua clínica e como calcular o valuation completo, por que a clínica para de crescer quando o dono para e como ter um faturamento previsível.

Lembre: o múltiplo da sua clínica é, no fundo, uma medida de quanto ela vale sem você. Tudo que você fizer para a clínica rodar, prever e medir sem depender das suas mãos é dinheiro entrando no preço de venda.

Seu próximo passo

  1. Calcule o seu EBITDA ajustado de verdade. Pegue o lucro operacional, desconte um pró-labore de mercado para o seu trabalho na cadeira, tire as despesas pessoais e os gastos não recorrentes. Esse é o número que o comprador vai usar, não o faturamento.
  2. Faça o diagnóstico de dependência. Pergunte com honestidade: quanto do faturamento depende das suas mãos? Se for a maior parte, esse é o primeiro projeto a atacar, porque é o que mais derruba o múltiplo.
  3. Transforme a aquisição de pacientes em ativo previsível. Documente de onde vêm os pacientes, a que custo e em que ritmo. Demanda comprovada e medida é o que faz o comprador enxergar previsibilidade em vez de risco, e previsibilidade é o que sobe o múltiplo.

Quer transformar a captação da sua clínica num motor de pacientes previsível, do anúncio ao comparecimento, e fazer isso virar valor de venda? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Valuation usa múltiplo de faturamento ou de EBITDA?

Comprador sério usa múltiplo de EBITDA ajustado, porque é o que mede a geração de caixa real da operação. Faturamento só é usado como referência em clínica nova, sem lucro estruturado ou em crescimento muito alto, onde ainda não dá para confiar no EBITDA. Quem ancora o preço no faturamento bruto quase sempre superestima o valor.

O que é EBITDA ajustado e por que ele vale mais?

EBITDA ajustado é o lucro operacional recorrente depois de tirar o pró-labore de mercado do dono, as despesas pessoais misturadas na clínica e os gastos não recorrentes. Ele vale mais porque mostra quanto a operação geraria de caixa na mão de outro dono, e é sobre esse número, não sobre o EBITDA bruto reportado, que o múltiplo é aplicado.

Qual o múltiplo de EBITDA de uma clínica odontológica?

O múltiplo varia conforme porte, risco e previsibilidade. Consultório solo dependente do dono fica na base da faixa, e rede multiunidade com gestão e escala alcança múltiplos bem maiores. Como faixa de mercado para clínica específica não é número público confiável, desconfie de quem crava um múltiplo único sem analisar a sua operação.

Qual a diferença entre vender 100% e captar sócio?

Vender 100% é exit: você sai e o comprador assume tudo. Captar sócio é vender uma fatia e seguir operando, o que pressupõe que a clínica vai funcionar com você ainda dentro. Os dois usam a mesma lógica de EBITDA ajustado e múltiplo, mas o sócio investidor olha ainda mais a dependência do dono, porque vai depender de você por mais tempo.

O que o comprador olha primeiro na due diligence?

Financeiro auditável é o primeiro filtro: balanço organizado, separação entre conta pessoal e da clínica, conformidade fiscal e histórico de pelo menos 12 a 24 meses. Depois vêm contratos, carteira de pacientes e dependência do dono. Bagunça contábil não só derruba o múltiplo, muitas vezes derruba a negociação inteira.

Como aumentar o valuation antes de vender ou captar sócio?

Reduza a dependência do dono na produção, separe a contabilidade pessoal da clínica, organize histórico financeiro e demonstre previsibilidade de novos pacientes com custo de aquisição conhecido. Cada ponto desses transforma risco em previsibilidade, e previsibilidade é o que faz o múltiplo subir. A preparação leva meses, não dias.