Custos e ROI

Reforma tributária (IBS, CBS e split payment): como ela afeta a clínica de odontologia que fatura R$100 mil+?

ISS, PIS e COFINS saem; IBS e CBS entram. A saúde tem redução de 60% da alíquota, mas o split payment retém o imposto antes do dinheiro cair no caixa e a folha não gera crédito. Veja o que muda de verdade na clínica que fatura R$100 mil+, com fonte oficial.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 20 de junho de 2026 · 17 min de leitura
TL;DR

A reforma troca cinco tributos por IBS e CBS, com redução de 60% da alíquota para serviços de saúde (LC 214/2025), o que tende a baixar a carga nominal. O choque real é o split payment, que retira o imposto na hora do pagamento, antes do dinheiro entrar no seu caixa.

Pontos-chave
  • A saúde tem alíquota reduzida. A Lei Complementar nº 214/2025 prevê redução de 60% das alíquotas de IBS e CBS para serviços de saúde, abrangendo 27 tipos de serviços, conforme a [Câmara dos Deputados](https://www.camara.leg.br/noticias/1082446-projeto-que-regulamenta-a-reforma-tributaria-preve-aliquota-reduzida-para-medicamentos-e-servicos-medicos/).
  • A folha não gera crédito. No novo modelo de IVA, a folha de pagamento não gera crédito e representa cerca de 50% a 60% do custo operacional das clínicas, segundo o [Migalhas](https://www.migalhas.com.br/depeso/449861/reforma-tributaria-e-saude-o-impacto-nas-clinicas-medicas), o que pesa em atividade intensiva em mão de obra como a odontologia.
  • O split payment muda o caixa. No split payment, a parcela do imposto é segregada na liquidação da transação e vai direto ao governo, sem entrar na conta da clínica, gerando choque de liquidez para quem dependia do float mensal do imposto, conforme o [Migalhas](https://www.migalhas.com.br/depeso/449861/reforma-tributaria-e-saude-o-impacto-nas-clinicas-medicas).

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. O que muda na prática: ISS, PIS e COFINS saem; IBS e CBS entram
  4. A redução de 60% para serviços de saúde: a odontologia entra?
  5. Alíquota padrão x alíquota efetiva: por que o número nominal engana
  6. Crédito tributário e não cumulatividade: o que gera crédito e o que não gera
  7. O problema central da odontologia: a folha de pagamento não gera crédito
  8. Como a estrutura de especialistas muda a conta de crédito
  9. Split payment: o imposto retido antes do dinheiro cair no caixa
  10. Impacto no fluxo de caixa: o fim do float e o choque de liquidez
  11. Simples Nacional x regime regular: o que muda para cada um
  12. A nova nota fiscal nacional: NFS-e unificada obrigatória em 2026
  13. Transparência do imposto na nota e a percepção de preço do paciente
  14. Cronograma de transição: 2026 a 2033
  15. Tributação de lucros, dividendos e a estrutura societária
  16. Por que quem fatura R$100 mil+ precisa modelar caixa, não só alíquota
  17. Checklist de preparação para a clínica de R$100 mil+
  18. A avaliação de 2030 e o gatilho dos 26,5%: o risco a monitorar
  19. Seu próximo passo
  20. Perguntas frequentes

"Como a reforma tributária com IBS, CBS e split payment vai afetar a minha clínica de odontologia que fatura acima de R$100 mil por mês?"

Você ouviu que a saúde "paga menos imposto" na reforma. Tecnicamente, é verdade.

Mas esse é o número que aparece na tabela. O que decide o seu caixa é outro: a partir de quando o imposto sai antes do dinheiro entrar, e o quanto da sua estrutura (folha, especialistas, materiais) gera ou não gera crédito.

A clínica que fatura R$100 mil+ não sente a reforma na alíquota nominal. Sente no fluxo de caixa e na conta de crédito.

Quem só olha o percentual leva susto quando o split payment começa a reter na origem. Quem modela o caixa antes se prepara.

Este guia traduz a reforma da linguagem de advogado tributarista para a linguagem do dono de clínica: o que muda, quando muda e onde dói de verdade.

Antes de seguir: este conteúdo é orientação de gestão, não consultoria jurídica ou contábil. Decisão de regime e modelagem fiscal você fecha com o seu contador.

Neste guia você vai ver:

  • O que sai (ISS, PIS, COFINS) e o que entra (IBS e CBS), o IVA dual
  • A redução de 60% para saúde e se a odontologia entra
  • Por que a alíquota nominal engana e a efetiva é o que importa
  • Split payment: o imposto retido antes do dinheiro cair no caixa
  • O ponto sensível da odontologia: a folha não gera crédito
  • O cronograma de transição e o gatilho dos 26,5%
  • O checklist de preparação para quem fatura R$100 mil+

O que muda na prática: ISS, PIS e COFINS saem; IBS e CBS entram

Antes de falar de caixa, alinhe o vocabulário. A reforma substitui um emaranhado de tributos por um modelo de IVA dual.

O que sai (sobre consumo de serviços): ISS (municipal), PIS e COFINS (federais), além de ICMS e IPI no caso de bens.

O que entra:

  • CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços): a parte federal, recolhida pela União.
  • IBS (Imposto sobre Bens e Serviços): a parte de estados e municípios, num único imposto.

Por isso o nome IVA dual: dois impostos (um federal, um subnacional) que funcionam com a mesma lógica de não cumulatividade.

Para você, dono de clínica, o efeito prático é direto: em vez de calcular ISS no município, PIS e COFINS na federal, você passa a lidar com IBS e CBS sobre o serviço odontológico.

Lembre: a reforma não é só "trocar a sigla do imposto". Ela muda o momento em que o imposto é recolhido (split payment) e a lógica de abater crédito. É aí que mora o impacto no seu caixa.

A redução de 60% para serviços de saúde: a odontologia entra?

Essa é a primeira boa notícia, e ela é real. A saúde recebeu tratamento favorecido.

A Lei Complementar nº 214/2025 prevê redução de 60% das alíquotas de IBS e CBS para serviços de saúde, segundo a Câmara dos Deputados. A regra abrange 27 tipos de serviços, desde todas as especialidades médicas reconhecidas até serviços hospitalares, biomedicina, nutrição, laboratórios e bancos de material biológico.

E a odontologia? Entra.

O Conselho Federal de Odontologia confirma que a redução de 60% incide sobre a alíquota das notas fiscais de serviços odontológicos, conforme o Artigo 130 da LC 214/2025. Ou seja: a sua clínica está no grupo beneficiado pela redução, não na alíquota cheia.

A base legal está amarrada. Segundo o portal Contábeis, a redução de 60% para saúde está nos artigos 128, 130 e 131 da LC 214/2025, com base na autorização constitucional da EC nº 132/2023.

Repare: redução de alíquota, não isenção. Você continua dentro do sistema de IBS/CBS, com nota, crédito e recolhimento. Só que sobre uma alíquota menor.

Alíquota padrão x alíquota efetiva: por que o número nominal engana

Aqui começa a parte que separa quem leu a manchete de quem entendeu a conta.

Você vai ver dois números circulando, e eles não são a mesma coisa:

  • Alíquota padrão (combinada): o teto do sistema, que vale para a maioria dos setores.
  • Alíquota da saúde: a padrão com a redução de 60% aplicada.

Segundo o Contábeis, sobre uma alíquota padrão combinada de cerca de 25%, a redução de 60% resulta em alíquota efetiva de aproximadamente 10% para serviços de saúde.

Conceito O que é Ordem de grandeza
Alíquota padrão combinada (IBS + CBS) Teto do sistema, maioria dos setores ~25% (Contábeis)
Redução para saúde (LC 214/2025) Desconto sobre a padrão 60% (Câmara dos Deputados)
Alíquota da saúde após redução O que tende a incidir no serviço odontológico ~10% (Contábeis)

Então parece simples: a clínica cai para algo perto de 10% e pronto.

Não é tão simples.

A alíquota nominal (o percentual sobre a nota) e a alíquota efetiva (o que você de fato desembolsa depois de abater créditos) podem divergir. E o que define essa divergência é o crédito que a sua estrutura gera, ou deixa de gerar. É exatamente o próximo ponto.

Lembre: o número de tabela é o ponto de partida, não o resultado. Sua carga efetiva depende de quanto da sua operação gera crédito. Na odontologia, esse detalhe muda tudo.

Crédito tributário e não cumulatividade: o que gera crédito e o que não gera

O coração do IVA é a não cumulatividade. Em tese, você paga imposto só sobre o valor que agrega, abatendo o que já foi tributado na cadeia.

Funciona assim: quando você compra um insumo com nota, o imposto embutido nessa compra vira crédito, e você abate do imposto que deve sobre o seu serviço.

Na clínica, geram crédito (quando há nota e o tributo incidiu na etapa anterior):

  • Materiais e insumos odontológicos comprados de fornecedor.
  • Equipamentos e tecnologia (cadeira, scanner, software de gestão).
  • Serviços tomados de outras pessoas jurídicas (laboratório de prótese PJ, terceirizados PJ).
  • Aluguel e despesas operacionais com nota e tributo destacado.

E o que não gera crédito? Esse é o ponto cego que pega a odontologia em cheio.

O problema central da odontologia: a folha de pagamento não gera crédito

Aqui está a distorção que importa para a sua clínica. Guarde esta frase.

Segundo o Migalhas, no novo modelo de IVA a folha de pagamento não gera crédito, e a folha representa cerca de 50% a 60% do custo operacional das clínicas. Isso cria distorção em atividades intensivas em mão de obra como serviços de saúde, que têm baixa capacidade de gerar créditos para abater do imposto devido.

Traduzindo para a sua realidade: o seu maior custo é gente.

Recepção, CRC, auxiliares, dentistas CLT, equipe administrativa. Tudo isso é folha. E folha, no novo modelo, não vira crédito para abater do IBS/CBS.

O efeito é direto. Uma indústria que compra muito insumo gera muito crédito e paga pouco imposto líquido. Uma clínica, que gasta a maior parte em pessoas, gera pouco crédito e fica mais perto da alíquota cheia da saúde.

Pensa assim: dois negócios com a mesma alíquota nominal podem ter carga efetiva bem diferente. Quem compra insumo abate; quem paga gente, não. A odontologia é do segundo time.

Por isso o número de ~10% pode ser otimista para a sua clínica específica. A alíquota efetiva sobe na medida em que a folha domina o seu custo e gera pouco crédito.

Isso não significa que a reforma te prejudica. Significa que você não pode planejar pela alíquota de tabela. Tem que modelar a sua estrutura de custo real.

Como a estrutura de especialistas muda a conta de crédito

Há uma alavanca de gestão escondida nesse ponto, e ela vale ouro para a clínica de R$100 mil+.

A forma como você contrata os dentistas especialistas muda o crédito que entra:

  • Especialista CLT (folha): custo que não gera crédito.
  • Especialista PJ que presta serviço com nota: o serviço tomado de outra pessoa jurídica tende a gerar crédito.

Isso não é convite para "pejotizar" às cegas. Decisão trabalhista tem risco próprio e passa pelo seu jurídico e contador.

Mas é um sinal claro: a estrutura societária e de contratação da sua clínica deixa de ser só uma questão trabalhista e vira também uma questão de crédito tributário. Vale revisar com quem cuida da sua contabilidade.

Veja como pensar o desenho do regime em qual regime tributário para a clínica que fatura acima de 100 mil.

Split payment: o imposto retido antes do dinheiro cair no caixa

Agora chegamos no que realmente muda o seu dia a dia. Esqueça a alíquota por um instante.

Hoje, você recebe o pagamento do paciente, o dinheiro entra na conta da clínica, e o imposto você recolhe depois (no mês seguinte, no prazo). Nesse intervalo, o valor do imposto fica no seu caixa. É o float.

O split payment acaba com isso.

Segundo o Migalhas, no split payment os recursos são segregados no momento da liquidação financeira da transação: a parcela do imposto vai direto para o governo e nunca entra na conta da clínica.

Na prática, quando o paciente paga (Pix, cartão, boleto), o sistema de pagamento já separa a fatia do imposto e a envia ao fisco. Você recebe líquido. O imposto não passa pela sua conta.

Veja o contraste:

Etapa Modelo atual Com split payment
Paciente paga Valor cheio cai no caixa Sistema separa o imposto na hora
Imposto Fica em caixa até o recolhimento Vai direto ao governo
O que entra na conta Bruto (com o imposto dentro) Líquido (sem o imposto)
Recolhimento Você faz no prazo (float a seu favor) Já foi feito na origem

É uma mudança de mecânica, não de alíquota. Mas o impacto no caixa é enorme.

Impacto no fluxo de caixa: o fim do float e o choque de liquidez

Esse é o ponto que mais pega a clínica de R$100 mil+ desprevenida. Não é o imposto que sobe. É a sua liquidez que cai.

O Migalhas é explícito: o split payment gera choque imediato de liquidez para clínicas que dependem do float mensal do imposto em caixa.

Entenda o que você perde. Muita clínica, sem perceber, usa o dinheiro do imposto como capital de giro temporário. O valor fica na conta alguns dias e ajuda a pagar fornecedor, folha, contas. Quando chega o prazo, recolhe.

Com o split payment, esse colchão some. O dinheiro do imposto nunca esteve seu para começar. O caixa que parecia confortável encolhe.

Para quem fatura R$100 mil+, a conta não é trivial. Quanto maior o faturamento, maior o valor de imposto que deixa de transitar pela conta. O ajuste de capital de giro precisa ser planejado antes, não descoberto no mês em que falta caixa.

A boa notícia: isso é previsível. Você sabe que vem. Dá para reforçar o capital de giro e ajustar o fluxo com antecedência. Veja como controlar o fluxo de caixa da clínica.

Lembre: o split payment não te faz pagar mais imposto. Ele faz o imposto sair na origem. O risco não é de carga, é de liquidez. Quem não ajusta o capital de giro sente no caixa, mesmo pagando o mesmo total.

Simples Nacional x regime regular: o que muda para cada um

Aqui depende de onde a sua clínica está hoje. Os dois caminhos têm efeitos diferentes.

Clínica no regime regular (lucro presumido ou real): entra de cheio na lógica de IBS/CBS, com a redução de 60% da saúde, o crédito da cadeia e o split payment. É onde a modelagem de crédito (a conta da folha) pesa mais.

Clínica no Simples Nacional: o Simples continua existindo. O ponto novo é a opção pelo "Simples híbrido": você pode optar por apurar o IBS e a CBS por fora do Simples, justamente para poder transferir crédito cheio aos clientes pessoa jurídica.

Mas repare numa particularidade da odontologia: o seu paciente, na esmagadora maioria, é pessoa física. Pessoa física não aproveita crédito. Logo, o incentivo de gerar crédito para o cliente, que move muita empresa B2B, é menor numa clínica de consumo final.

Isso não significa "ignore". Significa que a sua decisão de Simples x regular passa a considerar uma variável nova (o crédito de IBS/CBS), e a resposta certa depende do seu mix de pacientes e da sua folha.

Compare os caminhos em Simples Nacional ou Lucro Presumido para a clínica.

A nova nota fiscal nacional: NFS-e unificada obrigatória em 2026

Tem uma mudança operacional que chega antes de tudo isso, e ela já tem data. Vale resolver agora.

Segundo o Conselho Federal de Odontologia, a partir de 1º de janeiro de 2026 passa a ser obrigatória a emissão de notas fiscais no padrão nacional unificado da NFS-e (portal gov.br/nfse), substituindo as plataformas municipais.

Quem é atingido:

  • Pessoas jurídicas (clínicas, consultórios PJ, laboratórios de prótese): obrigadas ao novo padrão.
  • Dentistas autônomos: seguem usando o app Receita Saúde, sem alteração.

O CFO informa ainda que o uso opcional do novo padrão ficou disponível de outubro a dezembro de 2025, para quem quis se antecipar.

A NFS-e nacional roda no portal oficial gov.br/nfse, a infraestrutura centralizada do governo com padrão nacional, painel municipal, consulta pública e integração via API. O layout é padronizado, o que reduz inconsistências e erros na declaração fiscal.

Para a sua clínica, o recado é prático: o sistema de emissão de nota precisa estar adequado ao padrão nacional. Confirme com o seu software de gestão e com a sua contabilidade se já está pronto.

Transparência do imposto na nota e a percepção de preço do paciente

Tem um efeito da reforma que ninguém te conta e que toca diretamente o seu comercial.

A reforma traz mais transparência do imposto na nota. O paciente passa a enxergar com mais clareza quanto do valor é tributo.

Isso é neutro no papel, mas tem consequência prática na cadeira.

Quando o imposto fica visível, o paciente sensível a preço pode usar o número como gancho de objeção ("tanto disso é imposto?"). A sua equipe de CRC e quem apresenta o orçamento precisa estar preparada para conduzir a conversa de valor, não de tributo.

A defesa é a de sempre: ancorar a decisão no resultado do tratamento, não no preço nem na composição dele. Tratamento bem vendido não se discute por imposto na nota. Se discute por transformação, segurança e plano.

Cronograma de transição: 2026 a 2033

A reforma não vira a chave de uma vez. É uma transição longa, em fases. Saber a linha do tempo te dá fôlego para planejar.

A transição funciona em camadas, ao longo de vários anos:

  1. 2026: ano de teste/início, com a CBS e o IBS começando em alíquotas simbólicas e a NFS-e nacional já obrigatória para PJ.
  2. 2027: a CBS entra plena e o PIS/COFINS é extinto.
  3. 2029 a 2032: o IBS sobe de forma gradual, enquanto ICMS e ISS são reduzidos na mesma proporção.
  4. 2033: o modelo novo entra plenamente em vigor e os tributos antigos são extintos.

O ponto de gestão: você tem tempo de adaptar sistema, capital de giro e estrutura. Mas "tempo" não é "depois". A NFS-e e os primeiros efeitos começam em 2026.

Quem trata a reforma como problema de 2033 chega atrasado nos ajustes de 2026.

Tributação de lucros, dividendos e a estrutura societária

A reforma do consumo (IBS/CBS) anda junto de um debate sobre a tributação da renda e dos dividendos, e isso toca a forma como você retira dinheiro da clínica.

Hoje, muito dono de clínica organiza a PJ para distribuir lucro de forma eficiente. Mudanças na tributação de dividendos podem alterar essa conta.

Como o desenho final desse ponto ainda se move no Congresso, o certo aqui é qualitativo: a estrutura societária da sua clínica (como a PJ é montada, como o lucro é distribuído, se há holding) deixa de ser decisão "para sempre" e vira algo a revisar com o contador no ritmo da regulamentação.

Para a clínica de R$100 mil+, com lucro relevante, esse é um ponto de atenção contínuo, não um detalhe. Veja como recuperar créditos tributários da clínica.

Por que quem fatura R$100 mil+ precisa modelar caixa, não só alíquota

Junte as peças e o quadro fica claro. A sua clínica não é uma planilha de alíquota. É um fluxo de caixa.

Três fatos da reforma, somados, mudam a sua gestão:

  • A alíquota da saúde cai (redução de 60%), mas a folha não gera crédito, então a sua efetiva pode não cair tanto.
  • O split payment retira o imposto na origem, derrubando o float e o capital de giro.
  • A NFS-e nacional e a transição começam já em 2026.

Para uma clínica pequena, isso é um ajuste. Para uma clínica de R$100 mil+, é uma decisão de gestão financeira com valor relevante em jogo todo mês.

A armadilha é olhar só o percentual e concluir "vou pagar menos, ótimo". O percentual pode até cair, e ainda assim o seu caixa apertar por causa do split payment.

A régua certa não é "qual a minha alíquota". É "como fica o meu caixa, mês a mês, com o imposto saindo na origem e a folha sem crédito". Quem modela isso antes entra na transição no controle. Quem espera, reage no susto.

Checklist de preparação para a clínica de R$100 mil+

Chega de teoria. Aqui está o que dá para acionar agora, com o seu contador, antes da transição apertar.

  1. Separe as contas de verdade. Conta da clínica não se mistura com a pessoal. Com o split payment, enxergar o líquido real é vital. Comece por separar o pró-labore e a conta da clínica.
  2. Exija nota de todo fornecedor. Cada compra com nota é crédito potencial de IBS/CBS. Compra sem nota é crédito perdido. Padronize a exigência.
  3. Revise os contratos de especialistas. A forma de contratar (CLT x PJ com nota) muda o crédito. Revise com jurídico e contador, com olho trabalhista e tributário juntos.
  4. Modele o split payment no seu fluxo. Calcule quanto de imposto deixa de transitar pela conta e ajuste o capital de giro com antecedência.
  5. Adeque a emissão de nota à NFS-e nacional. Confirme com o software de gestão e a contabilidade se já estão no padrão gov.br/nfse.
  6. Reveja o regime tributário. Simples híbrido x regular, com o crédito de IBS/CBS na conta, considerando que o seu paciente é pessoa física.

A avaliação de 2030 e o gatilho dos 26,5%: o risco a monitorar

Por fim, um ponto que poucos acompanham e que pode mexer com a redução da saúde lá na frente. Vale ter no radar.

A redução de 60% não é cláusula pétrea. Há um mecanismo de controle de teto.

Segundo a Câmara dos Deputados, se a soma das alíquotas de referência do IBS e da CBS no período for maior que 26,5%, o governo terá de enviar projeto ao Congresso propondo o corte das reduções (30% para profissionais liberais e 60% para diversos grupos). A primeira avaliação ocorrerá com base no ano-calendário de 2030, com projeto a ser enviado até março de 2031.

O que isso significa para você, sem alarde: a redução de 60% da saúde é o cenário atual, mas existe um gatilho que pode revisá-la se a alíquota de referência estourar o teto, com efeito a partir de 2033.

Não é motivo para pânico. É motivo para acompanhar.

Quem planeja a clínica para os próximos anos deve considerar que a alíquota efetiva da saúde tem um piso protegido hoje, mas um ponto de revisão marcado. Mais um motivo para gestão fiscal ser um processo contínuo, não um evento único.

Seu próximo passo

  1. Modele o seu caixa com o split payment, não só a alíquota. Pegue o seu faturamento médio, calcule quanto de imposto deixa de transitar pela conta e veja o efeito real no capital de giro.
  2. Reúna-se com o contador para revisar regime, crédito e estrutura. Folha x especialistas PJ, Simples híbrido x regular, NFS-e nacional. A conta certa é a da sua clínica, não a da tabela.
  3. Trate gestão fiscal como processo, não evento. A transição vai de 2026 a 2033, com avaliação em 2030. Acompanhe e ajuste a cada fase.

Quer que a captação da sua clínica continue previsível enquanto você ajusta a casa para a reforma? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

A reforma tributária aumenta ou diminui o imposto da clínica de odontologia?

Depende da estrutura. Para serviços de saúde, a LC 214/2025 prevê redução de 60% das alíquotas de IBS e CBS, o que tende a baixar a carga nominal frente à alíquota padrão. Mas como a folha não gera crédito e ela pesa muito na odontologia, a alíquota efetiva da sua clínica pode não cair tanto quanto o número de tabela sugere. Modele o seu caso com o contador.

O que é o split payment e por que ele preocupa a clínica?

É a retenção automática do imposto na liquidação da transação (Pix, cartão, boleto). A parcela do imposto vai direto ao governo e nunca entra na conta da clínica. Segundo o Migalhas, isso gera choque de liquidez para quem dependia de manter o imposto em caixa por alguns dias antes de recolher.

Odontologia entra na redução de 60% para serviços de saúde?

Sim. O Conselho Federal de Odontologia confirma que a redução de 60% incide sobre a alíquota das notas fiscais de serviços odontológicos, conforme o Artigo 130 da LC 214/2025. A regra trata a odontologia dentro do conjunto de serviços de saúde beneficiados.

A nova nota fiscal nacional é obrigatória para a minha clínica?

Para clínica que é pessoa jurídica, sim. O CFO informa que a partir de 1º de janeiro de 2026 passa a ser obrigatória a emissão da NFS-e no padrão nacional (portal gov.br/nfse). Dentista autônomo segue usando o app Receita Saúde, sem alteração.

Clínica no Simples Nacional também é afetada pela reforma?

É afetada, mas de forma diferente. O Simples segue existindo, e o que muda mais para quem está nele é a decisão sobre apropriar ou não o crédito de IBS/CBS para os clientes pessoa jurídica. Como o paciente da clínica em geral é pessoa física, o efeito tende a ser menor, mas precisa ser modelado.

O que o dono de clínica que fatura R$100 mil+ deve fazer agora?

Modelar o caixa, não só a alíquota. Separe as contas, exija nota dos fornecedores para não perder crédito, revise os contratos com especialistas e simule o efeito do split payment no seu fluxo. O número de tabela engana; quem decide é o caixa mês a mês.