Custos e ROI

Quanto de pró-labore o dono dentista deve retirar por mês sem quebrar o caixa da clínica?

Não existe um número mágico de pró-labore. Existe um método: definir uma retirada fixa que cabe no fluxo de caixa, respeita o piso legal de um salário mínimo, não consome todo o lucro líquido e deixa caixa para girar e crescer. Veja a conta completa, com a regra, a tributação e os gatilhos de revisão.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 14 de junho de 2026 · 17 min de leitura
TL;DR

Defina um pró-labore fixo mensal que cabe no caixa: pelo menos um salário mínimo (R$1.621 em 2026), sem consumir todo o lucro líquido, separado da distribuição de lucros e retirado só depois de garantir custos fixos, impostos e reserva. O resto fica na clínica para girar e crescer.

Pontos-chave
  • O piso é legal e inegociável. O salário mínimo nacional em 2026 é R$1.621 (reajuste de 6,79%), segundo a Agência Brasil, e essa é a retirada mínima do sócio-administrador que trabalha na clínica: o pró-labore de quem atua na operação não pode ser menor que um salário mínimo.
  • Pró-labore e lucro são retiradas diferentes. Segundo a FECAP, o pró-labore remunera o trabalho do sócio e sofre INSS (11% retido) mais IRRF progressivo; a distribuição de lucros remunera o capital e hoje é isenta de IR, com naturezas e tributação distintas.
  • O pró-labore mexe no seu imposto. Segundo a Contabilizei, no Simples Nacional o Fator R compara a folha (incluindo pró-labore) com a receita de 12 meses: folha de 28% ou mais leva ao Anexo III (a partir de 6%); abaixo, ao Anexo V (a partir de 15,5%).

Faz parte do guia: Quanto custa e qual o retorno do marketing para clínica odontológica?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. O que é pró-labore (e por que não é "tirar do caixa")
  4. Pró-labore vs distribuição de lucros: as duas retiradas do dono
  5. O piso legal: pelo menos um salário mínimo
  6. Quanto retirar: a regra do teto que protege o caixa
  7. Como o pró-labore entra no fluxo de caixa (e não pode asfixiar o giro)
  8. Tributação do pró-labore: INSS, IRRF e o que muda em 2026
  9. Tributação da distribuição de lucros: a mudança de 2026
  10. Fator R: como o pró-labore pode reduzir o imposto da clínica
  11. O ponto cego do dono: faturar bem não é lucrar
  12. Separe a conta PF da conta PJ (ou perde a leitura do caixa)
  13. Pró-labore fixo vs variável: por que o fixo ganha
  14. O erro de retirar lucro que ainda não existe
  15. Reinvestir para crescer: quanto deixar dentro da clínica
  16. Como o paciente na cadeira sustenta a sua retirada
  17. Checklist: como chegar no seu número de pró-labore
  18. Quando ajustar o pró-labore: gatilhos de revisão
  19. Seu próximo passo
  20. Perguntas frequentes

"Quanto de pró-labore eu, dono dentista, devo retirar por mês sem comprometer o caixa e o crescimento da clínica?"

Você não tem um problema de faturamento. Tem um problema de quanto pode tirar sem furar o caixa.

A clínica fatura bem. No fim do mês, o dinheiro some. E na hora de definir quanto você leva pra casa, a conta vira chute: às vezes sobra, às vezes você tira o lucro que ainda nem existe e trava o próprio crescimento.

A resposta não é um número fixo que serve pra todo mundo. É um método de decisão, e ele cabe numa frase: retire um valor previsível, que respeita o piso legal, não asfixia o capital de giro e deixa caixa para a clínica girar e crescer.

Quem acerta isso para de confundir caixa cheio com lucro. E para de descapitalizar a clínica sem perceber.

Neste guia você vai ver:

  • A diferença entre pró-labore, lucro e "tirar dinheiro do caixa"
  • O piso legal e por que o pró-labore é obrigatório pra quem atua na clínica
  • A regra do teto de retirada e como ela protege o caixa
  • A tributação do pró-labore e o que muda em 2026
  • O Fator R: como o pró-labore pode reduzir o imposto da clínica
  • O checklist para chegar no seu próprio número

O que é pró-labore (e por que não é "tirar do caixa")

Antes da conta, alinhe o conceito. Misturar os termos é a origem da maioria dos erros de retirada.

Pró-labore é a remuneração paga ao sócio pelo trabalho que ele faz na empresa. É o salário do dono dentista que opera na clínica, atende, gere, decide. Segundo a FECAP, ele remunera o trabalho realizado na empresa e sofre desconto de INSS mais IRRF.

"Tirar dinheiro do caixa" é outra coisa. É sacar valor sem regra, sem categoria contábil, sem previsibilidade. É o que descontrola a leitura financeira da clínica.

A diferença na prática:

  • Pró-labore: valor fixo, definido, lançado como custo, tributado. Previsível.
  • Saque informal: valor variável, quando bate a vontade, sem registro claro. Caos.

Pensa assim: pró-labore é você se tratar como um funcionário que precisa ser pago todo mês, com valor combinado. O caixa não é uma conta corrente sua.

Lembre: o pró-labore entra na clínica como custo fixo, igual ao aluguel e à folha. Se você não trata a sua retirada como uma despesa que precisa ser planejada, ela vira o buraco invisível que sangra o capital de giro.

Pró-labore vs distribuição de lucros: as duas retiradas do dono

O dono dentista tem duas portas legais para tirar dinheiro da clínica. Elas não competem, se completam, e cada uma tem regra própria.

Confundir as duas faz você pagar imposto demais ou descapitalizar a clínica. Separá-las é o primeiro passo da gestão financeira do sócio.

Segundo a FECAP, o pró-labore remunera o trabalho e sofre tributação; a distribuição de lucros remunera o capital investido e hoje é isenta de Imposto de Renda. Veja lado a lado:

Critério Pró-labore Distribuição de lucros
O que remunera Seu trabalho na clínica O capital investido na clínica
Tributação (FECAP) INSS (11% retido) + IRRF progressivo Isenta de IR hoje
Frequência típica Mensal e fixa Quando há lucro apurado
Obrigatório? Sim, para o sócio que atua Não, é opcional
Conta no INSS? Sim (gera benefício e Fator R) Não

A leitura estratégica: o pró-labore te dá previsibilidade mensal e benefício previdenciário; a distribuição de lucros é a porta mais leve em imposto para tirar o excedente.

O dono que entende isso retira um pró-labore fixo enxuto e leva o resto, quando há lucro real, como distribuição. É o desenho que mais protege o caixa e o bolso.

Lembre: distribuição de lucros sem lucro apurado não existe. Se você "distribui" o que não sobrou de verdade, está sacando capital de giro disfarçado de lucro. A clínica trava sem você entender por quê.

Aqui o número é objetivo e não admite criatividade. Existe um valor abaixo do qual o pró-labore do sócio que trabalha na clínica não pode ficar.

O sócio-administrador que atua na operação é obrigado a ter pró-labore, porque é sobre ele que incide o INSS do sócio. E esse pró-labore não pode ser menor que um salário mínimo nacional.

Em 2026, segundo a Agência Brasil, o salário mínimo é R$1.621 (reajuste de 6,79% sobre R$1.518), em vigor a partir de 1º de janeiro de 2026.

Traduzindo para a sua decisão:

  • O piso é R$1.621/mês para quem trabalha na clínica.
  • Esse é o mínimo, não o ideal. O dono de clínica que fatura alto raramente para no piso.
  • Zerar o pró-labore "pra economizar INSS" é irregular para quem atua na operação e ainda derruba o Fator R (veja adiante).

O piso resolve a pergunta "qual o menor número permitido". O ideal, que é o que você quer, vem do seu lucro e do seu caixa, nas próximas seções.

Quanto retirar: a regra do teto que protege o caixa

Esse é o teto que protege a clínica de você mesmo. O princípio de gestão financeira que vale como guarda-chuva: a retirada total não pode consumir todo o lucro líquido da clínica.

A lógica é simples. Se a sua retirada come quase todo o lucro, não sobra dinheiro para reinvestir, formar reserva ou absorver um mês fraco. A clínica fica refém da sua retirada.

Como aplicar na prática, em ordem:

  1. Apure o lucro líquido real do mês (receita menos todos os custos, despesas e impostos, já incluindo o seu pró-labore como custo).
  2. Confira se custos fixos, impostos e reserva estão cobertos. A retirada vem depois disso, nunca antes.
  3. Deixe uma folga clara entre a retirada total e o lucro líquido (pró-labore + o que você leva). Quando a retirada chega perto de comer todo o lucro, acende o sinal amarelo.
  4. Deixe o restante girar e crescer. Parte vira reserva, parte vira reinvestimento.

Um exemplo do raciocínio (números ilustrativos, não referência de mercado): clínica com lucro líquido de R$40 mil no mês suporta uma retirada de até cerca de R$12 mil sem se descapitalizar. Tirar R$30 mil "porque faturou bem" é furar o caixa.

Lembre: esse teto é de saúde, não uma meta a ser atingida. Em mês de investimento (nova cadeira, nova contratação), faz sentido retirar até menos e deixar mais dentro. A regra te protege de retirar de mais, não te obriga a retirar tudo.

Como o pró-labore entra no fluxo de caixa (e não pode asfixiar o giro)

Aqui mora o erro que quebra clínica lucrativa. O pró-labore é um custo fixo, e custo fixo precisa estar no fluxo de caixa antes de você decidir quanto leva.

A ordem de prioridade no caixa, todo mês, é esta:

  1. Custos fixos e variáveis (folha, aluguel, material, laboratório).
  2. Impostos (provisionados, não esquecidos).
  3. Reserva de caixa (a fatia que blinda o mês fraco).
  4. Pró-labore e retirada do dono (o que sobra depois de garantir o resto).

Repare na posição da sua retirada: por último. Não porque você vale menos, mas porque uma clínica que paga o dono antes de pagar as contas e o imposto está se descapitalizando em silêncio.

O capital de giro é o que mantém a clínica funcionando entre o que entra e o que sai. Quando a retirada do dono passa por cima dele, a conta fecha no papel e quebra no caixa: chega o mês fraco, o imposto trimestral, a manutenção do equipamento, e não tem dinheiro.

Para aprofundar o número que blinda esses meses, veja quanto de capital de giro a clínica precisa ter e quanto guardar de reserva de emergência.

Tributação do pró-labore: INSS, IRRF e o que muda em 2026

O pró-labore é tributado, e isso muda a conta de quanto você efetivamente leva para casa. Vale entender o desconto antes de definir o valor bruto.

Sobre o pró-labore incidem dois tributos, segundo a Contabilizei:

  • INSS: alíquota de 11% descontada do valor bruto do sócio.
  • IRRF: Imposto de Renda na fonte, pela tabela progressiva, acima da faixa de isenção.

Um exemplo de como o líquido encolhe, segundo a FECAP: num pró-labore bruto de R$4.270, o desconto de INSS é R$469,70 e o de IRRF é R$190,90, resultando em líquido de R$3.609,40. (Tabela de referência maio/2023; em 2026 vale a nova faixa de isenção da Lei 15.270/2025.)

E é aqui que 2026 muda o jogo a seu favor. Pela Lei 15.270/2025, noticiada pelo Senado Federal, fica isento de IRPF quem ganha até R$5.000 por mês, com redução gradual do imposto para rendas até R$7.350 mensais, a partir de janeiro de 2026.

O que isso significa para você: um pró-labore dentro dessa faixa fica mais leve de IR em 2026, o que abre espaço para formalizar uma retirada maior sem o peso tributário de antes.

Tributação da distribuição de lucros: a mudança de 2026

A porta mais leve de retirada vai estreitar para quem tira muito. A distribuição de lucros, hoje isenta, tem regra nova a partir de 2026, e ela afeta diretamente o dono que leva o excedente como lucro.

Segundo a Câmara dos Deputados, a partir de 2026 a distribuição de lucros e dividendos acima de R$50 mil mensais passa a ser tributada na pessoa física, quando antes era integralmente isenta.

Tem uma janela de transição importante: lucros aprovados até 31/12/2025 podem ser distribuídos até 2028 sob a regra antiga.

O que extrair disso para a sua decisão de retirada:

  • Se você distribui menos de R$50 mil/mês de lucro, a regra nova não te alcança: a distribuição segue isenta.
  • Se você tira acima disso, a conta de pró-labore vs lucro precisa ser refeita com o contador, porque a vantagem da isenção total acabou nessa faixa.
  • A transição de lucros já aprovados é planejamento, não improviso: converse com a contabilidade ainda em 2025.

Para o desenho ótimo entre as duas retiradas, veja como equilibrar pró-labore e distribuição de lucro isento.

Fator R: como o pró-labore pode reduzir o imposto da clínica

Esse é o ponto que transforma o pró-labore de despesa em alavanca. No Simples Nacional, o valor que você define de pró-labore pode mudar a alíquota que a clínica inteira paga.

O mecanismo é o Fator R. Segundo a Contabilizei, ele compara a folha de pagamento, incluindo o pró-labore dos sócios, com a receita bruta dos últimos 12 meses:

  • Folha de 28% ou mais da receita: clínica tributada pelo Anexo III, com alíquotas a partir de 6%.
  • Folha abaixo de 28%: cai no Anexo V, com alíquotas a partir de 15,5%.

Leia o que isso significa: aumentar o pró-labore aumenta a folha, e uma folha que cruza os 28% pode jogar a clínica de uma alíquota inicial de 15,5% para 6%. Em muitos casos, retirar um pró-labore maior reduz o imposto total, não aumenta.

Por isso o número do pró-labore nunca é só decisão financeira do dono. É decisão tributária da clínica, e precisa ser fechada com o contador, comparando o INSS a mais do pró-labore com a economia de imposto no enquadramento.

Para entender o cálculo em detalhe, veja como funciona o Fator R no Simples Nacional.

O ponto cego do dono: faturar bem não é lucrar

Aqui está a confusão que faz dono de clínica cheia se descapitalizar. Faturamento, lucro e patrimônio são três coisas diferentes, e quase todo erro de retirada nasce de tratá-las como uma só.

  • Faturamento é o que entra. Diz o tamanho do movimento, não a saúde do negócio.
  • Lucro é o que sobra depois de todos os custos, despesas e impostos. É a base real da sua retirada.
  • Patrimônio é o que a clínica acumula ao longo do tempo (caixa, equipamento, marca).

A clínica pode faturar R$200 mil e lucrar pouco, porque o custo é alto, o ticket está apertado ou o no-show come a agenda. Quem retira pró-labore com base no faturamento, e não no lucro, saca dinheiro que não existe.

Pensa assim: o faturamento é a velocidade no velocímetro; o lucro é quanto combustível sobrou. Você não decide quanto rodar olhando só a velocidade.

Lembre: o número que sustenta a sua retirada é o lucro líquido, não o extrato bancário do dia. Caixa cheio pode ser imposto a pagar, fornecedor a quitar e parcela a honrar. Confundir os dois é a raiz da descapitalização silenciosa.

Separe a conta PF da conta PJ (ou perde a leitura do caixa)

Não dá para gerir o que está embolado. Misturar a conta da clínica com a conta pessoal destrói a única coisa que te diz quanto você pode retirar: a leitura limpa do caixa.

Quando o pró-labore e a despesa pessoal saem da mesma conta da clínica, você nunca sabe quanto a clínica de fato lucrou nem quanto você de fato levou. Tudo vira "saída", e a conta perde o sentido.

A disciplina mínima:

  • Conta PJ recebe a receita e paga os custos da clínica.
  • O pró-labore é transferido, valor fixo, da conta PJ para a sua conta PF, todo mês.
  • Sua despesa pessoal sai da conta PF, nunca direto da clínica.

Com isso, o caixa da clínica passa a dizer a verdade, e você consegue aplicar o teto sobre um lucro que é real, não sobre um número contaminado por gasto pessoal.

Para o passo a passo dessa separação, veja como definir o pró-labore e separar a conta da clínica da pessoal.

Pró-labore fixo vs variável: por que o fixo ganha

Retirada que muda todo mês cria caos; retirada fixa cria gestão. Esse é um dos ajustes mais simples e mais poderosos no financeiro do dono.

Quando o pró-labore é fixo, ele vira um custo previsível no fluxo de caixa, igual ao aluguel. Você planeja em cima dele, o contador calcula o Fator R em cima dele, e a clínica sabe com o que contar.

Quando é variável ("tiro o que sobrar"), três problemas aparecem:

  • O fluxo de caixa perde previsibilidade (você não sabe quanto vai sair).
  • A tentação de sacar o caixa cheio em mês bom descapitaliza a clínica.
  • O Fator R fica instável, e o enquadramento tributário oscila.

O desenho que funciona: pró-labore fixo e enxuto (previsibilidade + Fator R + INSS), e o excedente sai como distribuição de lucros quando há lucro apurado. O fixo dá disciplina; a distribuição dá flexibilidade no que sobra.

O erro de retirar lucro que ainda não existe

Esse é o erro que trava o crescimento sem fazer barulho. Retirar hoje um lucro que a clínica ainda não gerou (ou que precisava para crescer) é descapitalização pura.

Acontece assim: o mês foi bom, o caixa está cheio, e o dono retira pesado. Só que aquele dinheiro era imposto a provisionar, era reserva para o mês fraco, era a cadeira nova que destravaria a capacidade. Ao sacar, o dono troca o crescimento futuro por consumo imediato.

O custo é duplo:

  • Curto prazo: a clínica trava no primeiro imprevisto, porque a reserva virou retirada.
  • Longo prazo: a clínica não reinveste, não expande, e o teto vira o limite permanente.

A retirada saudável é consequência do lucro, nunca antecipação dele. Você retira depois de a clínica provar que lucrou e de garantir o que ela precisa para o próximo passo.

Reinvestir para crescer: quanto deixar dentro da clínica

A clínica que cresce é a que se paga primeiro. Parte do excedente que você não retira não é "dinheiro parado": é o motor de crescimento.

Deixar uma fatia do lucro dentro da clínica é o que financia o próximo degrau sem dívida:

  • Capacidade: mais cadeira, mais sala, mais dentista para tirar você do gargalo.
  • Aquisição de pacientes: verba de marketing que enche a agenda de forma previsível.
  • Estrutura: CRC, comercial e sistema que convertem mais do mesmo lead.

Pensa assim: cada real reinvestido com retorno volta multiplicado; cada real retirado a mais é consumido uma vez só. O dono que segura a retirada nos anos de expansão é o que escala; o que retira tudo congela a clínica no tamanho atual.

Não existe percentual universal de reinvestimento, e cravar um número aqui seria chute. A régua certa é a sua meta: clínica em expansão deixa mais dentro; clínica madura e estável pode retirar mais. O importante é que reinvestimento seja uma linha do orçamento, não a sobra acidental.

Como o paciente na cadeira sustenta a sua retirada

No fim, todo pró-labore sai de uma única fonte: paciente que comparece e paga. Antes de discutir percentual, vale lembrar de onde o lucro vem.

A retirada do dono é sustentável quando o topo do funil é previsível. Não adianta otimizar o pró-labore se o caixa que o alimenta oscila ao sabor da indicação e do mês.

E o caixa só fica previsível quando a clínica captura o paciente que já está procurando. Nas clínicas atendidas pela Odonto Results, no funil completo (IA mais atendimento humano com ligação), a clínica típica converte de 20% a 40% dos leads em agendamento e de 20% a 50% dos agendados em comparecimento, segundo dados internos da Odonto Results.

É essa máquina que enche a cadeira de forma previsível e transforma faturamento oscilante em lucro estável, o lucro de onde sai a sua retirada.

Para ligar a geração de demanda ao caixa, veja quanto investir em marketing para faturar acima de 100 mil.

Checklist: como chegar no seu número de pró-labore

Junte tudo numa sequência executável. Use este checklist para definir a sua retirada sem furar o caixa:

  1. Apure o lucro líquido real do mês (receita menos todos os custos, despesas e impostos).
  2. Garanta o piso legal: pelo menos R$1.621/mês (salário mínimo 2026) para quem atua na clínica.
  3. Cubra antes de retirar: custos fixos, impostos provisionados e reserva de caixa.
  4. Aplique o teto: retirada total que não consome todo o lucro líquido, deixando folga para reserva e reinvestimento.
  5. Fixe o pró-labore num valor previsível e transfira da conta PJ para a PF todo mês.
  6. Rode o Fator R com o contador: confira se um pró-labore maior leva ao Anexo III (a partir de 6%) em vez do Anexo V.
  7. Tire o excedente como distribuição de lucros (atenção ao novo teto de R$50 mil/mês a partir de 2026).
  8. Reserve uma linha de reinvestimento antes de considerar a sobra como sua.

Se algum passo não fecha, o número está errado, não a regra. Ajuste a retirada, não o caixa.

Quando ajustar o pró-labore: gatilhos de revisão

Pró-labore não é decisão de uma vez na vida. É um número que se revisa quando a clínica muda, e ignorar os gatilhos é o que faz a retirada virar âncora.

Reveja o seu pró-labore quando:

  • O lucro líquido cresce de forma consistente (não num mês isolado): há espaço para subir a retirada.
  • O comparecimento cai ou o faturamento esfria: segure a retirada antes que ela coma a reserva.
  • Entra um investimento grande (cadeira, unidade, contratação): reduza temporariamente para deixar mais dentro.
  • A sazonalidade aperta (meses historicamente fracos): planeje a retirada menor nesses meses, não no susto.
  • A folha se aproxima dos 28% da receita: ajustar o pró-labore pode mudar o enquadramento no Fator R.

A revisão é trimestral, não mensal: muda demais e você perde a previsibilidade; nunca muda e a retirada descola da realidade da clínica.

Seu próximo passo

  1. Apure o lucro líquido real dos últimos 3 meses e defina uma retirada total que deixe folga clara sobre esse lucro. Esse é o teto saudável da sua retirada, com o piso de R$1.621 como mínimo.
  2. Leve o número ao contador e rode o Fator R. Confirme se um pró-labore maior baixa o imposto da clínica (Anexo III vs Anexo V) e como fica a distribuição de lucros com a regra de 2026.
  3. Estabilize o topo do funil. Sua retirada só é sustentável se o paciente chega na cadeira de forma previsível, e não no sabor da indicação.

Quer transformar a captação da sua clínica numa máquina previsível de pacientes na cadeira, para que a sua retirada deixe de ser chute e vire decisão? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Qual o valor mínimo de pró-labore do dono dentista em 2026?

O piso é um salário mínimo nacional, que em 2026 é R$1.621, segundo a Agência Brasil. O sócio-administrador que trabalha na clínica é obrigado a ter pró-labore, e ele não pode ser menor que esse valor, porque é a base de cálculo do INSS. Acima disso, o número certo depende do seu lucro e do seu caixa.

Pró-labore e distribuição de lucros são a mesma coisa?

Não. Segundo a FECAP, o pró-labore é a remuneração pelo trabalho do sócio na empresa e sofre INSS mais IRRF; a distribuição de lucros remunera o capital investido e hoje é isenta de Imposto de Renda. São duas retiradas com naturezas e tributação diferentes, e o dono que atua na clínica costuma usar as duas.

O pró-labore reduz o imposto da clínica?

Pode reduzir. Segundo a Contabilizei, no Simples Nacional o Fator R compara a folha de pagamento (incluindo o pró-labore dos sócios) com a receita dos últimos 12 meses: se a folha chega a 28% da receita, a clínica é tributada pelo Anexo III, com alíquotas a partir de 6%, em vez do Anexo V, a partir de 15,5%. Por isso o valor do pró-labore é decisão tributária, não só financeira.

Qual a regra prática para definir quanto retirar?

Comece pelo piso de um salário mínimo, garanta que custos fixos, impostos e reserva estão cobertos no mês e, como teto saudável, não deixe o pró-labore consumir todo o lucro líquido. Quando ele come quase todo o lucro, você está retirando o que devia girar a clínica. O excedente sai como distribuição de lucros, e parte dele fica reinvestida.

Posso aumentar meu pró-labore quando o faturamento sobe?

Sim, mas com critério. Faturamento alto não é lucro: a clínica pode faturar bem e lucrar pouco. Antes de aumentar a retirada, confirme que o lucro líquido cresceu de verdade, que a reserva de caixa está formada e que o aumento não derruba o capital de giro. Aumentar pró-labore com base em faturamento, e não em lucro, é como você descapitaliza a clínica.

O que muda na tributação do dono em 2026?

Duas coisas. Pela Lei 15.270/2025, fica isento de IRPF quem ganha até R$5.000 por mês, com redução gradual até R$7.350, segundo o Senado Federal, o que barateia o pró-labore até essa faixa. E a distribuição de lucros acima de R$50 mil por mês passa a ser tributada na pessoa física, segundo a Câmara dos Deputados, o que afeta quem retira o excedente como lucro isento.