Como montar a comissão da CRC e dos dentistas sem incentivar empurrar tratamento ou dar desconto pra fechar?
Comissão 100% sobre venda fechada cria conflito de interesse: o time empurra plano caro e derruba preço pra bater meta. O desenho saudável comissiona o valor líquido (pós-desconto), separa a indicação clínica do fechamento comercial e trava a comissão num gate de qualidade. Veja a estrutura completa, com régua de desconto e fonte neutra.
Você evita o sobretratamento e o desconto-pra-fechar comissionando sobre o valor líquido (pós-desconto, não a tabela), separando quem indica o tratamento de quem ganha por fechar, e travando a comissão num gate de qualidade (comparecimento, satisfação, plano cumprido). O incentivo segue o que você paga: pague margem e qualidade, não volume bruto.
- Pagamento por produção aumenta o volume de procedimentos. Revisão sistemática Cochrane (Gosden et al.) mostra que médicos pagos por produção (fee-for-service) prestam mais consultas, mais encaminhamentos a especialistas e mais serviços diagnósticos e curativos do que os pagos por capitação ou salário, evidência de que o modelo de pagamento molda o comportamento clínico.
- O incentivo financeiro vira sobretratamento justamente em quem precisa de menos. Em estudo experimental publicado no PMC/NCBI, pacientes sob produção receberam mais que o dobro de serviços (6,95 vs 3,22 unidades, p<0,01) e o excesso foi MAIOR para quem precisava de menos cuidado, resposta ao dinheiro, não à necessidade clínica.
- A lei trava a comissão por encaminhamento. O Código de Ética Médica brasileiro veda remunerar ou receber comissão por paciente encaminhado ou recebido (Art. 87), referência ética direta para a Odontologia: a comissão de equipe não pode se confundir com gratificação por aliciar paciente.
Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- O que é a CRC e por que o modelo de comissão dela molda a venda
- CRC consultiva x vendedor puro: dois modelos, dois resultados
- Modelos de comissão para a CRC (e o que cada um incentiva)
- Modelos de remuneração para o dentista (e onde o conflito nasce)
- O problema central: comissão sobre produção cria conflito de interesse
- A evidência: pagamento por produção aumenta o volume de procedimentos
- Comissione o valor líquido, não o de tabela: como o desconto destrói a margem
- A régua de desconto: alçada, faixas e quando cada condição se aplica
- Métricas de qualidade que freiam o sobretratamento
- O gate de qualidade: a trava que libera (ou não) a comissão
- Separe quem indica o tratamento de quem ganha por fechar
- Governança: como auditar e blindar o sistema
- O limite ético: comissão por trabalho x comissão por encaminhamento
- O erro que ninguém vê: lista de erros comuns ao montar a comissão
- Como o marketing e a IA aliviam a pressão de fechar
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"Como montar a comissão da CRC e dos dentistas sem incentivar empurrar tratamento desnecessário ou dar desconto pra fechar?"
A comissão é a alavanca mais poderosa que você tem para alinhar a equipe. E a mais perigosa.
Mal desenhada, ela faz o seu time trabalhar contra o paciente e contra a sua margem ao mesmo tempo: empurra o plano mais caro que o caso pede e derruba o preço para fechar logo.
O problema não é pagar comissão. É comissionar o número errado.
Quando o ganho depende só de fechar venda, o incentivo financeiro contamina a decisão clínica e a negociação. O time vira refém da meta, e o paciente vira alvo.
Neste guia você vai ver:
- Por que a comissão da CRC molda o comportamento de venda da clínica inteira
- Como o pagamento por produção gera sobretratamento (com evidência neutra)
- A diferença entre comissionar o valor de tabela e o valor líquido
- A régua de desconto que protege a margem sem amarrar o time
- O gate de qualidade que trava a comissão quando o atendimento foi ruim
- O limite ético que separa comissão legítima de comissão por encaminhamento
O que é a CRC e por que o modelo de comissão dela molda a venda
Antes de desenhar a comissão, entenda o que você está incentivando. A CRC (Coordenadora de Relacionamento com o Cliente) é quem recebe o lead, qualifica, agenda, acompanha e, na maioria das clínicas que faturam alto, conduz o fechamento do orçamento.
Ela é o gargalo do faturamento. É por onde o paciente entra e por onde a maioria some. Veja o que é a CRC e por que ela decide o faturamento.
E aqui está o ponto que quase todo dono ignora: a comissão da CRC não é só um custo, é um programa de comportamento. Ela define para onde a CRC empurra a energia todos os dias.
Pensa assim: você não recebe o que deseja. Você recebe o que recompensa.
- Comissiona agendamento? A CRC enche a agenda de curioso que não comparece.
- Comissiona venda fechada a qualquer custo? Ela empurra o plano caro e derruba o preço.
- Comissiona paciente que compareceu, fechou e ficou satisfeito? Ela protege a qualidade.
O comportamento sempre segue o incentivo. Então o desenho da comissão é, na prática, o desenho da sua operação comercial.
CRC consultiva x vendedor puro: dois modelos, dois resultados
Existe uma bifurcação que decide tudo. Você quer uma CRC consultiva ou um vendedor puro?
O vendedor puro fecha a qualquer custo. A meta é o número do mês. O paciente é um alvo. Desconto é a ferramenta favorita, plano caro é o atalho, e o relacionamento acaba na assinatura do contrato.
A CRC consultiva constrói relacionamento de longo prazo. O foco é o paciente certo, no tratamento certo, que volta, que indica e que recompra. O fechamento é consequência da confiança, não de pressão.
A diferença não está no perfil da pessoa. Está no que você paga.
Lembre: o modelo de comissão escolhe, sozinho, qual dos dois você vai ter. Se o único número que paga é a venda fechada hoje, até a melhor CRC consultiva vira vendedor puro no fim do mês, quando a meta aperta.
Modelos de comissão para a CRC (e o que cada um incentiva)
Não existe um modelo único. Existe o que cada um faz o time fazer. Veja os mais usados e a armadilha de cada um.
| Modelo | Como funciona | O que incentiva (o risco) |
|---|---|---|
| Percentual fixo sobre venda fechada | Um percentual sobre o valor de cada plano fechado (o modelo mais comum no mercado) | Empurrar o plano mais caro e descontar para fechar logo, se incidir sobre a tabela cheia |
| Por meta (bônus ao bater alvo) | Valor fixo quando atinge a meta do mês | Esforço concentrado no fim do mês, com desconto agressivo para "fechar a meta" |
| Por categoria de procedimento | Percentuais diferentes por tipo de tratamento | Direcionar o paciente para o que paga mais comissão, não para o que ele precisa |
| Escalonada com acelerador | Percentual sobe conforme bate faixas de meta | Saudável SE houver gate de qualidade; sem ele, intensifica o empurra-empurra |
Repare no padrão: todo modelo que olha só para o valor fechado pode degenerar em sobretratamento e desconto. A diferença entre um modelo saudável e um tóxico não é o tipo, é o que você atrela a ele (líquido, gate, separação de papéis). Já cobrimos a base do desenho em vale a pena dar comissão para a CRC e o closer.
Modelos de remuneração para o dentista (e onde o conflito nasce)
O mesmo raciocínio vale para quem executa o tratamento. As formas mais comuns de remunerar o dentista:
- Percentual sobre produção (fee-for-service): o dentista ganha um percentual sobre tudo que produz. O mais comum, e o que mais cria conflito de interesse.
- Valor fixo por procedimento: uma tabela de valores por tipo de procedimento executado.
- Fixo mais variável (híbrido): uma base garantida somada a uma parte que varia com produção ou metas.
- Salário ou CLT: valor fixo, independente do volume produzido.
Cada um puxa o comportamento para um lado. E o lado para onde o pagamento por produção puxa tem nome e tem evidência.
O dentista pago só por produção tem um incentivo financeiro direto para indicar mais tratamento. Não porque é desonesto, mas porque o sistema o coloca para escolher entre o bolso dele e o necessário do paciente, todo dia, em cada plano.
Para o passo a passo de comissão de dentista sem comer a margem, veja como definir a comissão dos dentistas da clínica.
O problema central: comissão sobre produção cria conflito de interesse
Aqui está o coração da sua pergunta. Por que comissão 100% sobre venda fechada empurra tratamento desnecessário?
Porque ela alinha o ganho do time ao volume, não à necessidade do paciente. E quando o ganho depende do volume, o volume cresce, com ou sem necessidade clínica.
Isso não é opinião. É um dos achados mais consistentes da economia da saúde.
Segundo a Wikipedia sobre fee-for-service, o pagamento por produção cria um conflito de interesse financeiro potencial com o paciente, porque incentiva a superutilização: volume ou custo de tratamento excessivo e inadequado. O sistema, nas palavras da fonte, incentiva atividade, então o profissional é incentivado a oferecer mais serviços.
Traduzindo para a sua clínica: quando o time ganha por produção, ele tende a produzir mais. Inclusive onde não precisava produzir nada.
Lembre: o conflito não exige má-fé. Um profissional bem-intencionado, sob um incentivo de produção, tende a ver mais tratamento como necessário do que veria sob salário. O incentivo molda a percepção antes de moldar a conduta.
A evidência: pagamento por produção aumenta o volume de procedimentos
Você não precisa acreditar na minha palavra. A literatura clínica mediu o efeito do modelo de pagamento sobre o comportamento, e o resultado é direto.
A revisão sistemática Cochrane (Gosden et al., 2000) encontrou evidência de que médicos da atenção primária prestam maior quantidade de serviços sob pagamento por produção do que sob capitação ou salário. O pagamento por produção resultou em mais consultas, mais encaminhamentos a especialistas e mais serviços diagnósticos e curativos.
Ou seja: muda a forma de pagar, muda a quantidade de procedimento. O modelo molda a conduta.
E há um achado ainda mais incômodo sobre o destino desse excesso. Um estudo experimental publicado no PMC/NCBI mostrou que, sob pagamento por produção, os pacientes receberam mais que o dobro de serviços em comparação à capitação (cerca de 6,95 contra 3,22 unidades de serviço, p<0,01).
Agora o detalhe que devia preocupar todo dono de clínica: o sobretratamento foi MAIOR justamente para quem precisava de menos cuidado. O excesso respondia ao incentivo financeiro, não à necessidade clínica.
| Achado da literatura | O que mostra | Fonte |
|---|---|---|
| Produção gera mais consultas, encaminhamentos e exames que capitação/salário | O modelo de pagamento molda a conduta clínica | Cochrane (Gosden et al.) |
| Sob produção, pacientes receberam mais que o dobro de serviços (6,95 vs 3,22; p<0,01) | O incentivo financeiro infla o volume | PMC / NCBI |
| O excesso foi maior para quem precisava de menos cuidado | O sobretratamento responde ao dinheiro, não à necessidade | PMC / NCBI |
Some isso ao fato de que o paciente que sente que foi empurrado não volta e fala mal. O sobretratamento não é só ético, é um custo de reputação e de recompra que sangra a clínica no médio prazo.
Comissione o valor líquido, não o de tabela: como o desconto destrói a margem
Agora o segundo vício: o desconto-pra-fechar. E ele tem uma causa de desenho que quase ninguém corrige.
Quando a comissão incide sobre o valor de tabela (o cheio), o vendedor não sente o desconto que concede. Ele dá 20% de desconto para fechar mais rápido, recebe a comissão sobre o valor cheio, e quem absorve a perda inteira é a clínica.
Veja a conta. Um plano de R$ 10.000, comissão de 10%:
- Comissão sobre a tabela: o vendedor dá R$ 2.000 de desconto, fecha por R$ 8.000, e ainda recebe R$ 1.000 (10% de R$ 10.000). A clínica perde R$ 2.000 de receita E paga comissão como se não houvesse desconto.
- Comissão sobre o líquido: o vendedor recebe R$ 800 (10% de R$ 8.000). O desconto dói no bolso dele também, então ele pensa duas vezes antes de derrubar o preço.
A diferença é brutal. No primeiro modelo, o desconto é grátis para o vendedor. No segundo, ele divide o custo.
Comissione sempre sobre o valor líquido, pós-desconto. Isso alinha o incentivo do time à margem da clínica, não ao volume de contratos fechados. O vendedor passa a defender o preço por conta própria, porque o desconto sai do ganho dele também.
Lembre: quando o desconto é de graça para quem vende, ele vira a primeira ferramenta de fechamento. Quando custa, vira o último recurso. A régua é só essa.
A régua de desconto: alçada, faixas e quando cada condição se aplica
Comissionar o líquido segura o desconto pelo bolso. A régua de desconto segura pela política. As duas juntas blindam a margem.
Régua de desconto é a política que define quem pode descontar, até quanto e em que condição. Sem ela, cada negociação vira improviso e o desconto vira o atalho padrão.
Uma régua funcional tem três faixas claras:
- Faixa livre (alçada da CRC): um teto pequeno que a CRC concede sozinha, sem pedir aprovação. Resolve a negociação comum sem travar o atendimento.
- Faixa de aprovação: acima da alçada livre, o desconto só sai com aprovação do gestor ou do dono. Cria fricção proposital onde o estrago seria maior.
- Teto absoluto: o piso de preço que ninguém ultrapassa, nunca. Abaixo dele, o caso não fecha, porque fechar daria prejuízo.
E defina QUANDO cada condição se aplica. Desconto à vista é diferente de desconto para fechar na hora, que é diferente de desconto por indicação. Sem regra de condição, o desconto vira moeda solta.
| Faixa de desconto | Quem decide | Quando se aplica |
|---|---|---|
| Faixa livre | A própria CRC | Negociação comum, pagamento à vista |
| Faixa de aprovação | Gestor ou dono | Caso de alto ticket, condição especial justificada |
| Acima do teto | Ninguém | Não se aplica: o caso não fecha com prejuízo |
A régua transforma desconto de ferramenta de pressão em exceção justificada. Para desenhar oferta forte sem cair no desconto reflexo, veja como criar uma oferta forte sem dar desconto.
Métricas de qualidade que freiam o sobretratamento
Líquido e régua resolvem o desconto. Mas e o empurra-empurra de tratamento? Esse você freia atando a comissão a indicadores de qualidade, não só a faturamento.
O sobretratamento prospera quando o único número que importa é o valor fechado. Adicione números que só sobem quando o paciente foi bem atendido, e o incentivo muda de direção.
As métricas que seguram a qualidade:
- Comparecimento: agendamento que não comparece é zero. Premiar comparecimento desincentiva agendar curioso para inflar volume.
- Taxa de retorno e recompra: o paciente que volta é o que confiou. Sobretratamento queima a recompra, então medir retorno pune o empurra-empurra.
- Satisfação do paciente (NPS): quem se sentiu empurrado não recomenda. A nota de satisfação é o termômetro direto do atendimento abusivo.
- Proporção do plano cumprido: comparar o plano apresentado com o plano que de fato foi executado e mantido. Plano inflado que o paciente abandona na metade vira sinal de alerta.
Atrele parte da comissão a esses indicadores, ou use indicação e recompra como métrica de bônus. A CRC consultiva que constrói relacionamento passa a ganhar mais que o vendedor que fecha caro uma vez e some.
O gate de qualidade: a trava que libera (ou não) a comissão
Aqui está a peça que separa um sistema de comissão maduro de um perigoso: o gate de qualidade.
Gate é uma condição que precisa ser cumprida para a comissão ser liberada, independente do valor fechado. Sem o gate, vendeu, ganhou. Com o gate, vendeu bem, ganhou.
Funciona assim: a comissão é calculada sobre o líquido, mas só é paga se o caso passar pela trava de qualidade. Exemplos de gate:
- O paciente compareceu à primeira sessão (não some depois de fechar no impulso).
- O desconto ficou dentro da régua (nada fora da alçada sem aprovação).
- A satisfação ou o comparecimento do time fica acima de um piso no mês.
O gate inverte a lógica. Sem ele, a comissão recompensa fechar a qualquer custo. Com ele, fechar mal não paga, então o time para de fechar mal.
E o gate combina perfeitamente com comissão escalonada. O acelerador (percentual que sobe conforme bate metas) só liga depois que o gate de qualidade está cumprido. Você ganha o melhor dos dois: ambição por volume, travada por qualidade.
Lembre: sem gate, comissão escalonada é gasolina no sobretratamento, quanto mais empurra, mais ganha. Com gate, o acelerador só funciona para quem fecha do jeito certo. A trava de qualidade é o que torna o acelerador seguro.
Separe quem indica o tratamento de quem ganha por fechar
Este é o princípio estrutural que resolve o sobretratamento na raiz. E quase nenhuma clínica aplica.
O plano de tratamento é uma decisão clínica, do dentista. O fechamento é uma etapa comercial, da CRC. Quando a mesma pessoa indica o tratamento E ganha por fechá-lo, o conflito de interesse é inevitável.
Por quê? Porque a evidência mostra que o incentivo financeiro contamina a percepção do que é necessário. Um estudo no PubMed constatou que profissionais sob incentivos financeiros explícitos baseados em perfil têm maior probabilidade de perceber conflito de interesse na própria conduta diante do paciente.
A solução é separar os papéis:
- O dentista indica o que o caso clínico exige, sem ganhar mais por inflar o plano.
- A CRC fecha o que foi indicado, sem poder de redesenhar o tratamento para cima.
Quem define o tamanho do tratamento não pode ser quem é pago por engordá-lo. Essa separação tira o incentivo financeiro de dentro da decisão clínica, que é onde o estrago começa.
Governança: como auditar e blindar o sistema
Desenho bom sem governança vira letra morta. Você precisa de mecanismos que tornem o abuso visível e raro.
Quatro controles que sustentam a estrutura:
- Tabela de preços fechada. Preço de tabela não se negocia caso a caso na conversa. A régua de desconto é a única flexibilidade permitida. Tira a invenção de preço do balcão.
- Registro de descontos concedidos. Todo desconto fica registrado: quem deu, quanto, por quê. O que é medido para de ser abusado. O dono enxerga o padrão de quem desconta demais.
- Revisão de planos de alto ticket por segundo dentista. Caso caro passa por uma segunda opinião clínica antes de fechar. Isso quebra o conflito de interesse no plano que mais importa.
- Auditoria periódica do funil até a cadeira. Cruze fechamento com comparecimento, recompra e satisfação. Vendedor que fecha muito e tem comparecimento baixo está empurrando, não vendendo.
Esses controles não existem para desconfiar do time. Existem para que o time bom não seja punido pela meta e o desvio não passe despercebido.
O limite ético: comissão por trabalho x comissão por encaminhamento
Antes de montar qualquer estrutura, conheça a linha que não se cruza. E ela é jurídica, não só de gestão.
Comissão de equipe sobre o próprio trabalho é uma coisa. Pagar (ou receber) por paciente encaminhado ou aliciado é outra, e essa cruza a fronteira ética.
O Código de Ética Médica brasileiro veda, no Art. 87, remunerar ou receber comissão ou vantagens por paciente encaminhado ou recebido. É um princípio de referência direta para a Odontologia: a comissão do seu time não pode se confundir com gratificação por aliciar ou encaminhar paciente.
Na prática, isso significa:
- Pode: remunerar a CRC e o dentista pelo trabalho que executam (atendimento, fechamento, produção clínica), dentro de uma estrutura clara.
- Cuidado: remuneração desenhada para pressionar prescrição ou indicação de tratamento, que é exatamente o que o incentivo de produção pura faz, entra em terreno eticamente perigoso.
- Não pode: pagar por cabeça de paciente trazido ou encaminhado, como se fosse corretagem.
Lembre: o desenho da comissão é também uma decisão de compliance. Antes de fechar a estrutura, consulte o seu CRO e o seu jurídico. Este guia orienta a lógica de gestão, não substitui parecer profissional.
O erro que ninguém vê: lista de erros comuns ao montar a comissão
Junte os vícios num só lugar. Se a sua estrutura tem qualquer um destes, ela está incentivando o que você quer evitar.
- Comissionar só sobre o valor de tabela (o cheio). O desconto vira grátis para quem vende, e a clínica absorve sozinha cada centavo cortado.
- Não ter teto de desconto. Sem régua, o desconto vira a primeira ferramenta de fechamento, não a última.
- Não ter gate de qualidade. Vendeu, ganhou, mesmo que o paciente não compareça nem volte. O sistema paga o fechamento ruim igual ao bom.
- Premiar volume sem comparecimento. Comissionar agendamento ou lead enche a agenda de curioso. A métrica certa é paciente que compareceu e fechou.
- Comissão 100% sem base fixa. Sem rede, o time entra em desespero no fim do mês e o desconto-pra-bater-meta vira regra. Base mais variável estabiliza o comportamento.
- Mesma pessoa que indica o tratamento ganha por fechá-lo. O conflito de interesse fica embutido na decisão clínica.
Cada erro desses puxa o time para o sobretratamento ou para o desconto. Corrigir é, na maioria das vezes, mudar o número que você paga, não trocar as pessoas.
Como o marketing e a IA aliviam a pressão de fechar
Tem um fator que quase ninguém liga à comissão, mas que muda tudo: a qualidade do que chega na cadeira.
Pensa assim: por que o time empurra tratamento e desconta? Em boa parte, porque o lead que chega é fraco e a pressão de fechar o pouco que entra é alta. Quando a clínica depende de poucos pacientes ruins, cada fechamento vira questão de sobrevivência, e aí o desconto e o empurra-empurra aparecem.
Quando entra fluxo previsível de paciente qualificado, a equação inverte. Com mais paciente certo na agenda, o time não precisa forçar o fechamento de quem não tem perfil. A escassez é que cria a pressão; a previsibilidade a dissolve.
Duas alavancas reduzem essa pressão na origem:
- Captação que qualifica o lead antes de chegar na cadeira. Paciente pronto fecha sem ser empurrado. O gargalo deixa de ser fechar o curioso a qualquer custo.
- IA de atendimento que responde em segundos, 24 horas por dia. Nas clínicas atendidas pela Odonto Results, a IA responde o lead em mediana 4,4 segundos, e 43,8% dos leads chegam fora do horário comercial, dados internos da Odonto Results. Lead respondido na hora chega mais quente e fecha com menos atrito.
Não é que o marketing substitua a boa comissão. É que ele tira o desespero da operação. Time que tem agenda boa não precisa empurrar nem descontar para bater meta. Veja como atrair paciente particular, e não de convênio.
Seu próximo passo
- Troque a base de cálculo da comissão para o valor líquido. Pare de comissionar a tabela cheia. Faça o desconto doer no bolso de quem vende e crie a régua de desconto com três faixas (livre, aprovação, teto).
- Instale o gate de qualidade e separe os papéis. Trave a comissão em comparecimento e satisfação, e garanta que quem indica o tratamento (o dentista) não seja quem ganha por fechá-lo (a CRC). Registre todo desconto concedido.
- Reduza a pressão de fechar pela origem. Estruture captação que qualifica e resposta em segundos, para o time parar de empurrar e descontar por desespero de agenda. Paciente certo na cadeira é o que torna a comissão saudável sustentável.
Quer um sistema que leva paciente qualificado e pronto até a sua cadeira, para o seu time fechar sem empurrar nem descontar? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
Comissão de 100% sobre a venda fechada é um bom modelo?
Não. É o modelo que mais gera conflito de interesse. Quando o ganho do time depende só de fechar, o incentivo empurra para o sobretratamento e para o desconto agressivo. A evidência em saúde mostra que pagamento puro por produção aumenta o volume de procedimentos. O caminho saudável é base mais variável, com a variável atada a margem e a qualidade.
Devo comissionar sobre o valor de tabela ou sobre o valor com desconto?
Sobre o valor líquido, pós-desconto. Se a comissão incide sobre a tabela cheia, o time não sente o desconto que concede, então derruba preço para fechar mais rápido, e a clínica absorve sozinha a perda de margem. Comissionar o líquido faz o vendedor dividir o custo de cada desconto e segurar o preço por conta própria.
O que é uma régua de desconto e por que ela protege a margem?
É a política que define quem pode dar desconto, até quanto e em que condição. Sem régua, cada negociação vira improviso e o desconto vira o atalho padrão para bater meta. Com alçada definida (faixa livre da CRC, faixa que exige aprovação, teto que ninguém passa), o desconto deixa de ser ferramenta de pressão e volta a ser exceção justificada.
Como a comissão pode incentivar o supertratamento sem ninguém perceber?
Quando o plano de tratamento, que é decisão clínica, é desenhado por quem ganha para fechar. O incentivo financeiro contamina a indicação e infla o plano. A separação é a proteção: o dentista indica o que o caso exige; a CRC fecha o que foi indicado. Quem define o tratamento não pode ser quem é pago por engordá-lo.
Comissão por indicação de paciente é permitida na clínica?
Não. O Código de Ética Médica veda remunerar ou receber comissão por paciente encaminhado ou recebido (Art. 87), princípio de referência direta para a Odontologia. Comissão de equipe sobre o próprio trabalho é uma coisa; pagar por aliciar ou encaminhar paciente é outra, e essa cruza a linha ética. Consulte o seu CRO e o jurídico para o desenho final.
Que métricas freiam o sobretratamento numa estrutura de comissão?
As de relacionamento e qualidade, não só faturamento: comparecimento, taxa de retorno e recompra, satisfação do paciente e proporção do plano apresentado que de fato foi cumprido. Atar parte da comissão a esses indicadores, ou usá-los como gate que libera a variável, alinha o time ao paciente que volta e indica, não ao que fecha caro uma vez e some.