Gestão da Clínica

Como apresentar as formas de pagamento e parcelamento do tratamento sem o paciente puxar pra negociação de desconto na clínica odontológica?

Pedido de desconto quase nunca é problema de preço. É problema de apresentação: faltou âncora, faltou valor percebido e faltou caminho de pagamento pronto. Veja como separar preço de valor, ancorar, oferecer 2 a 3 condições fechadas e responder objeção sem virar leilão.

Vinícius Ragazzi
Por Vinícius RagazziAtualizado em 25 de junho de 2026 · 17 min de leitura
TL;DR

Você evita o leilão de desconto apresentando valor antes do número, ancorando no tratamento completo e entregando 2 a 3 condições de pagamento já fechadas (à vista, parcelado, financiamento de terceiros). Desconto só com contrapartida, nunca reativo: desconto solto educa o paciente a sempre pedir e corrói margem.

Pontos-chave
  • O preço inicial que você apresenta vira a âncora da decisão. Estudo experimental publicado na Frontiers in Psychology (Zong & Guo, 2022) mediu índices de ancoragem de 0,477 a 0,818: o primeiro número apresentado influencia de forma significativa a percepção de valor e a disposição a pagar.
  • A condição precisa estar fechada antes de você abrir a boca. Quem improvisa número na frente do paciente convida a barganha; quem entrega 2 a 3 opções prontas (à vista com vantagem, parcelado no cartão, financiamento de terceiros) tira a conversa do terreno do "quanto você baixa".
  • Desde 2023 a clínica pode oferecer desconto legalmente, mas isso é estratégia, não obrigação. Em 16/08/2023 o CADE condenou o Conselho Federal de Odontologia (processo 08700.005606/2023-51, multa de R$752,7 mil) e o CFO alterou o Código de Ética via Resolução 271/2025: desconto deixou de ser infração ética, mas continua sendo decisão de margem sua.

Faz parte do guia: Como fazer a gestão da clínica odontológica (agenda, faltas e faturamento)?

Nesta página
  1. TL;DR
  2. Pontos-chave
  3. Por que o paciente puxa para o desconto (e quase nunca é o preço)
  4. Separe preço de valor antes de falar qualquer número
  5. Quem apresenta a condição: o dentista não deveria negociar o próprio preço
  6. Ancoragem: apresente o tratamento completo antes das opções de entrada
  7. Apresente o valor por parcela (e por dia), não só o total cheio
  8. Tenha 2 a 3 condições de pagamento prontas, nunca uma frase aberta
  9. Financiamento de terceiros: tire a negociação de prazo da cadeira
  10. Desconto só com contrapartida, nunca como reflexo ao "tá caro"
  11. A matemática do desconto: por que 10% sai da margem, não do faturamento
  12. Orçamento profissional, por escrito e com validade
  13. Scripts para as objeções clássicas
  14. Use prova de resultado para sustentar o preço, não para baixá-lo
  15. Follow-up de orçamento em aberto: onde o caso de fato fecha
  16. O que o CADE mudou: desconto virou estratégia, não obrigação
  17. Meça a taxa de conversão de orçamento como termômetro do processo
  18. Padronize a oferta com uma ferramenta de condições
  19. Seu próximo passo
  20. Perguntas frequentes

"Como apresentar as formas de pagamento e parcelamento do tratamento sem o paciente puxar pra negociação de desconto na clínica odontológica?"

Quase todo dono de clínica trata o pedido de desconto como problema de preço. Não é.

Na maioria das vezes, o problema é a forma como a condição foi apresentada. Faltou âncora, faltou valor percebido e faltou um caminho de pagamento pronto.

Quando o paciente recebe um número solto, sem nada para comparar e sem opção fechada na mesa, ele faz a única coisa que sobra: tenta baixar.

A boa notícia é que isso é processo, não sorte. Dá para apresentar a condição de um jeito que tira o desconto da pauta antes mesmo de ele aparecer.

Neste guia você vai ver:

  • Por que o pedido de desconto aparece (e por que quase nunca é o preço)
  • Como separar preço de valor antes de falar qualquer número
  • Quem deve apresentar a condição e por que não é sempre o dentista
  • Ancoragem, diluição e as 2 a 3 condições que você deveria ter prontas
  • Scripts para "tá caro", "vou pensar" e "a outra é mais barata"
  • O que o CADE mudou e por que desconto virou estratégia, não obrigação

Por que o paciente puxa para o desconto (e quase nunca é o preço)

Comece pela causa, não pelo sintoma. O pedido de desconto é o sintoma. A causa está na apresentação.

Pensa assim: quando você entrega um valor sem contexto, o paciente não tem régua para julgar se é caro ou justo. A mente dele procura uma âncora, não acha, e a única alavanca disponível para "melhorar" o negócio é pedir para baixar.

Três buracos na apresentação criam o pedido de desconto:

  • Sem âncora. O número aparece sozinho, sem referência. Caro comparado a quê?
  • Sem valor percebido. O paciente não entendeu o que está comprando, então só vê o preço.
  • Sem caminho de pagamento. Você deu o total cheio e parou. Ele precisa resolver "como eu pago isso" sozinho, e desconto vira o atalho.

Repare: nenhum desses três é sobre o número em si. São sobre como o número chegou.

Lembre: desconto pedido quase nunca é objeção de preço. É objeção de apresentação. Conserte a apresentação e o pedido cai antes de você precisar negociar.

Separe preço de valor antes de falar qualquer número

Esse é o movimento que muda tudo. O erro mais comum é abrir o orçamento com o valor. O fechamento bom faz o contrário: constrói valor primeiro, número por último.

Antes de qualquer número, três etapas constroem valor percebido:

1. Escuta ativa. Pergunte o que o paciente busca de verdade. Voltar a sorrir? Parar de sentir dor? Resolver de vez? A condição faz sentido quando responde ao que ele quer, não ao que você quer vender.

2. Anamnese do desejo, não só do dente. O paciente premium decide pelo racional (segurança, durabilidade) somado ao emocional (autoestima, vida social). Mapear isso é o que sustenta o preço depois.

3. Explicação detalhada das etapas e dos materiais. O paciente que entende o que vai acontecer, com quais materiais e por quê, percebe valor. O que ele não enxerga, ele não paga.

Quando você chega no número depois de construir isso, o paciente já tem com o que comparar: o valor que você acabou de mostrar. A âncora deixou de ser o vazio e passou a ser a transformação.

Veja como apresentar orçamento de alto ticket na cadeira para o detalhe dessa sequência.

Quem apresenta a condição: o dentista não deveria negociar o próprio preço

Aqui mora um constrangimento que sabota muita clínica. O dentista é a autoridade técnica. Colocá-lo para negociar o próprio preço na cadeira mistura dois papéis que deveriam ficar separados.

A divisão que funciona:

  • O dentista detalha o clínico. Diagnóstico, fases do tratamento, materiais, prognóstico. É a autoridade que sustenta o valor.
  • A recepção ou a coordenadora de tratamento cuida da condição financeira. Apresenta as opções de pagamento, conduz a parte comercial, responde a objeção de preço.

Por que separar? Porque o paciente baixa a guarda para negociar com quem não é o profissional que vai operar a boca dele. E o dentista não fica na posição desconfortável de defender o próprio honorário enquanto deveria estar transmitindo confiança técnica.

A coordenadora de tratamento, também chamada de consultora de fechamento ou CRC, é quem transforma o plano clínico em decisão de compra. Ela tem treino comercial, conhece as condições de cor e conduz a objeção sem que o dentista precise se expor.

Lembre: quando o dentista negocia o próprio preço, ele vira vendedor aos olhos do paciente e perde autoridade técnica. Separe os papéis: o dentista vale o caso, a CRC fecha a condição.

Veja quem deve apresentar o orçamento, dentista ou comercial.

Ancoragem: apresente o tratamento completo antes das opções de entrada

Agora a parte técnica de como o número entra. A ordem em que você apresenta os valores muda a percepção de quanto é caro.

O efeito de ancoragem é comprovado. Um estudo experimental publicado na Frontiers in Psychology (Zong & Guo, 2022) mediu índices de ancoragem de 0,477 a 0,818: o primeiro número que a pessoa vê influencia de forma significativa o que ela considera justo e quanto se dispõe a pagar.

Na prática, isso significa apresentar nesta ordem:

  1. Primeiro o tratamento completo (a âncora alta). O valor cheio, o plano inteiro, tudo que está incluído.
  2. Depois as opções de entrada e parcelado. Comparadas com o total que ele acabou de ver, parecem acessíveis.

Faça o contrário e você se sabota. Se a primeira coisa que o paciente ouve é a menor parcela, qualquer valor acima dela parece caro. Se a primeira coisa é o tratamento completo bem construído, o parcelado vira alívio.

Veja como ancorar o preço no plano completo.

Apresente o valor por parcela (e por dia), não só o total cheio

Depois da âncora alta, dilua. A dor de pagar é maior quando o paciente olha o número cheio. Quebrar em parcela, ou até em valor por dia, reduz essa dor sem mudar o preço.

"Doze vezes de X" desarma o susto que "o total de Y" provoca. É o mesmo valor, apresentado de um jeito que cabe na cabeça do paciente.

Para tratamentos longos, a diluição por dia funciona ainda melhor: um protocolo que dura anos, dividido pelos dias de uso, vira um número quase simbólico perto do que entrega.

Isso não é truque. É traduzir o investimento para a unidade em que o paciente pensa o orçamento dele. Ninguém planeja a vida em valores cheios de cinco dígitos. Todo mundo planeja em parcela mensal.

Forma de apresentar O que o paciente sente Quando usar
Total cheio sozinho Susto, foco no preço Nunca isolado, só como âncora inicial
Total como âncora + parcela "Cabe no meu mês" Padrão para a maioria dos casos
Valor por dia de uso "Isso é quase nada pelo que resolve" Tratamentos longos e de alto ticket

Tenha 2 a 3 condições de pagamento prontas, nunca uma frase aberta

Este é o ponto que separa a clínica que conduz da que improvisa. Uma frase aberta convida a barganha. Opções fechadas tiram a conversa do "quanto você baixa".

Compare:

  • Frase aberta (errado): "A gente consegue ver uma condição para você." Tradução para o paciente: tem margem, vou puxar.
  • Opções fechadas (certo): "Você tem três caminhos. À vista, com esta vantagem. Parcelado no cartão em X vezes. Ou financiamento, que aprova na hora e você paga em mais parcelas."

Quando você apresenta um cardápio de condições já desenhadas, o paciente para de pensar em "quanto baixa" e passa a pensar em "qual escolho". A decisão muda de eixo.

As três condições padrão que toda clínica deveria ter prontas:

  • À vista com vantagem clara. A vantagem é a contrapartida do pagamento imediato, não um desconto solto (mais sobre isso adiante).
  • Parcelado no cartão. No seu maquininha, dentro do número de parcelas que o seu fluxo de caixa aguenta.
  • Financiamento de terceiros. A financeira paga a clínica à vista e o paciente parcela com ela, em prazos longos.

Ter isso de cor, padronizado, é o que impede o improviso. Número inventado na frente do paciente é convite à negociação.

Veja como criar uma oferta forte sem dar desconto.

Financiamento de terceiros: tire a negociação de prazo da cadeira

O financiamento de terceiros merece destaque porque resolve dois problemas de uma vez.

Como funciona: a financeira (ou crediário especializado em saúde) paga a clínica à vista e assume o parcelamento com o paciente. A clínica não financia nada, recebe o valor cheio na hora, e o paciente parcela em prazos que o cartão não alcança.

O que isso faz pela negociação:

  • Tira o prazo de cima do dentista. A conversa de "em quantas vezes" sai da cadeira e vai para a financeira.
  • Protege o caixa. O dinheiro entra à vista, sem o risco de inadimplência do parcelado próprio.
  • Destrava o sim. O paciente que não tem o valor à vista, e que estouraria o limite do cartão, consegue fechar.

O custo é a taxa da operação, que sai do seu lado. Por isso ela precisa entrar na conta antes de você definir o preço de tabela, não depois. Veja parcelar no próprio carnê ou na financeira para escolher o modelo.

Desconto só com contrapartida, nunca como reflexo ao "tá caro"

Aqui está a regra que protege a sua margem. Desconto não é proibido. Desconto reativo é que mata a clínica.

A diferença é simples:

  • Desconto com contrapartida: vantagem em troca de uma condição concreta. Pagamento à vista, fechar o tratamento completo (não só o que dói), decidir na hora. O paciente ganha algo porque deu algo.
  • Desconto reativo: você baixa o preço como resposta automática ao "tá caro". O paciente não deu nada em troca. Você simplesmente cedeu.

O problema do desconto reativo não é só o caso de hoje. É o que ele ensina.

Quando você baixa por reflexo, você educa o paciente (e a cidade inteira, via boca a boca) a sempre pedir. O preço de tabela vira ficção. Todo mundo aprende que é só pressionar. E pior: o desconto fácil sinaliza que o preço estava inflado, o que corrói a percepção de qualidade do seu trabalho.

Lembre: desconto sem contrapartida não é gentileza, é treinamento. Você está ensinando todo paciente futuro a pedir, e dizendo que o seu preço cheio era mentira.

A contrapartida preserva a lógica: o à vista ganha vantagem porque elimina o custo financeiro e o risco. O tratamento completo ganha vantagem porque é mais valor para a clínica. Sempre há uma troca. Nunca é de graça.

A matemática do desconto: por que 10% sai da margem, não do faturamento

Esse erro de conta sangra clínica que fatura bem. O dono pensa "10% de desconto, tudo bem". A matemática diz outra coisa.

O desconto não sai do faturamento. Sai inteiro da margem.

Pensa assim: se de cada R$100 de tratamento uma parte vai para material, laboratório, custo da cadeira, imposto e equipe, o que sobra de lucro é uma fração do preço. Quando você dá 10% de desconto, esses 10% não saem do bolo todo. Saem do pedaço que já era só seu.

Em margem apertada, 10% de desconto no preço pode representar uma fatia muito maior do que 10% do seu lucro naquele caso. O paciente percebe um pequeno abatimento. Você abre mão de uma parte relevante do que ganharia.

Multiplique isso por todos os casos em que o desconto vira hábito e você tem a explicação de por que a clínica fatura e não sobra. Veja como negociar tratamento de alto ticket sem dar desconto.

Orçamento profissional, por escrito e com validade

A forma do documento também segura o desconto. Orçamento dito de boca, ou rabiscado num papel qualquer, comunica que o preço é negociável. Documento profissional comunica que o preço é o preço.

O que um orçamento profissional precisa ter:

  • Papel timbrado da clínica. Sinaliza seriedade e referência.
  • Etapas do tratamento descritas, na ordem em que acontecem.
  • Materiais que serão usados, quando isso justifica valor.
  • Formas de pagamento já listadas, as 2 a 3 condições prontas.
  • Data de validade. Este é o detalhe que cria urgência sem pressão.

A validade merece atenção. Um orçamento que vence em 30 dias diz, sem ameaçar, que aquela condição é daquele momento. Cria um motivo legítimo para o paciente decidir, sem o vendedor empurrando. Quando o documento tem prazo, a condição tem peso.

Scripts para as objeções clássicas

Agora o terreno onde o desconto costuma aparecer. Objeção bem respondida não vira negociação de preço. Mal respondida, vira leilão. Tenha respostas prontas, não improviso.

"Está caro." Não baixe. Devolva ao valor: "Caro comparado a quê? Deixa eu te mostrar o que está incluído e por que esse é o tratamento que resolve de vez." Reconstrua a âncora. Caro só existe sem referência.

"Vou pensar." Quase sempre é dúvida não resolvida, não preço. "Claro. Para eu te ajudar a pensar, o que ficou de dúvida? É a parte do tratamento, o prazo, ou a condição de pagamento?" Descubra o real e resolva. Veja como contornar a objeção 'vou pensar'.

"A outra clínica é mais barata." Não cubra o preço. "Faz sentido você pesquisar. Posso te perguntar o que está incluído no orçamento de lá? Quase sempre os dois não cobrem a mesma coisa, e o que parece mais barato sai mais caro depois." Compare igual com igual.

"Me dá um desconto." Aqui é onde tudo se decide. Nunca um sim seco. "Consigo melhorar se você fechar à vista" ou "se a gente fechar hoje o tratamento completo, te dou esta condição". Desconto sempre vira contrapartida. Veja como responder à objeção 'dá um desconto'.

O fio comum: toda objeção volta para valor ou vira uma troca. Nenhuma vira corte reativo de preço. Veja como contornar a objeção de preço na cadeira.

Use prova de resultado para sustentar o preço, não para baixá-lo

Quando o paciente hesita, a tentação é baixar. O caminho melhor é provar.

A prova faz o que o desconto não faz: aumenta o valor percebido em vez de derrubá-lo. Três tipos sustentam o preço:

  • Antes e depois (dentro das regras do CFO): mostra a transformação que ele quer, em casos reais.
  • Casos semelhantes ao dele: "tratei várias pessoas com exatamente o seu caso" desarma o medo de errar.
  • Depoimentos: o paciente real contando o resultado vale mais que qualquer argumento de preço.

A lógica é direta. O paciente premium não compra o mais barato. Compra de quem ele confia que não vai errar. Prova é redutor de risco, e risco percebido é o que trava o sim em alto ticket. Quando você prova competência, o preço para de ser o centro da conversa.

Veja como usar prova social e depoimento no fechamento.

Follow-up de orçamento em aberto: onde o caso de fato fecha

O orçamento raramente fecha na primeira conversa. Ele esfria depois, e é aí que a maioria das clínicas perde o caso, não por desistência, mas por abandono.

O paciente pediu para pensar, foi falar com a família, foi ver o financiamento. Se ninguém retoma, ele esfria e some. Não porque decidiu não, mas porque a vida atropelou.

O follow-up que funciona tem três definições claras:

  • Quem liga. A CRC ou coordenadora, não o dentista. Pessoa definida, não "alguém quando der".
  • Em quanto tempo. Cadência fixa (por exemplo 1, 3, 7 dias), não quando lembrar.
  • Como retomar. Acolhendo, não pressionando. "Vim ver se ficou alguma dúvida sobre o seu plano", não "e aí, vai fechar?".

A diferença entre soar como ajuda e soar como vendedor pressionando está no tom. Quem retoma para resolver dúvida recupera caso. Quem retoma para cobrar afasta.

E o follow-up só funciona se o lead responde. Nos dados internos da Odonto Results, no recorte WhatsApp/IA in-channel de 18 clínicas, entre os leads que respondem à clínica a mediana de 23% avança para agendamento (faixa de 20% a 33%). É a janela em que a condução da conversa, incluindo a forma de apresentar a condição, decide o avanço.

Veja como fazer follow-up de orçamento não fechado.

O que o CADE mudou: desconto virou estratégia, não obrigação

Muito dono ainda acha que não pode oferecer desconto na odontologia. Mudou. E entender a mudança ajuda a usá-la com cabeça, não por reflexo.

Em 16/08/2023, o CADE condenou o Conselho Federal de Odontologia (processo 08700.005606/2023-51) por impedir dentistas de oferecer descontos e aceitar cartões de desconto. A multa foi de R$752,7 mil, e a proibição de descontos foi considerada infração à ordem econômica por restringir a concorrência.

Em cumprimento à decisão, o CFO aprovou a Resolução 271/2025 (Assembleia de 17/06/2025), alterando o Código de Ética: o art. 32, XIII e o art. 44, XIV foram modificados, e o oferecimento de serviços por cartões de desconto saiu do rol de infrações éticas.

A análise jurídica especializada confirma: depois da decisão, restrições a promoções e descontos podem criar barreiras artificiais à concorrência, e dentistas passam a poder exibir preços e oferecer descontos promocionais sem penalidade ética.

O ponto que importa para você:

Lembre: poder oferecer desconto não é dever oferecer. O CADE tirou a proibição, não criou uma obrigação. Desconto continua sendo decisão de margem e de estratégia, com contrapartida, nunca reflexo ao "tá caro".

Use a liberdade a seu favor: desconto planejado, com contrapartida, em campanha pensada, é ferramenta. Desconto solto, dado na cadeira por pressão, continua corroendo a margem do mesmo jeito, agora sem nem a desculpa de que "o CFO não deixa".

Meça a taxa de conversão de orçamento como termômetro do processo

Sem medir, você não sabe se o processo funciona. A métrica que importa aqui é a taxa de conversão de orçamento: de cada orçamento apresentado, quantos viram tratamento iniciado.

Ela é o termômetro do seu fechamento. Se está baixa, o problema está na apresentação, na condição ou no follow-up, não na falta de paciente.

Sinal na taxa de conversão O que provavelmente está acontecendo
Muitos orçamentos, poucos fechados Apresentação fraca: faltou âncora ou valor percebido
Fecha só quem pede desconto Condição aberta demais, vira leilão
Cai entre orçamento e início Follow-up inexistente ou mal conduzido
Sobe quando muda quem apresenta Papel do dentista x CRC estava misturado

Acompanhar esse número transforma fechamento em processo gerenciável. Você para de achar que "o paciente está sem dinheiro" e passa a ver onde o seu funil comercial vaza. Veja qual a taxa de aceitação de orçamento ideal.

Padronize a oferta com uma ferramenta de condições

O último antídoto contra o leilão é não improvisar. Quando cada atendente inventa uma condição diferente na frente do paciente, o preço vira ficção e o desconto vira hábito.

Uma calculadora ou tabela de condições padroniza a oferta:

  • Mesmo caso, mesma condição, independente de quem apresenta.
  • Parcelas e prazos já definidos, dentro do que o caixa aguenta.
  • Vantagem do à vista calculada, não chutada.
  • Taxa do financiamento já embutida no preço de tabela.

A padronização faz duas coisas. Tira o improviso (número inventado é convite à barganha) e dá consistência: o paciente que comparar a condição que recebeu com a do vizinho encontra a mesma oferta, o que reforça que o preço é o preço.

Ferramenta não substitui o vendedor. Ela dá ao vendedor a confiança de apresentar uma condição firme, sem hesitar e sem abrir brecha.

Seu próximo passo

  1. Reescreva a sequência de apresentação. Valor antes do número, tratamento completo como âncora, e nunca o dentista negociando o próprio preço. Defina quem detalha o clínico e quem fecha a condição.
  2. Monte as 2 a 3 condições padrão e o orçamento por escrito. À vista com vantagem, parcelado no cartão e financiamento de terceiros, em papel timbrado com etapas, materiais e data de validade. Desconto só com contrapartida, nunca por reflexo.
  3. Meça a conversão de orçamento e estruture o follow-up. Acompanhe quantos orçamentos viram tratamento, defina quem retoma o que ficou em aberto, em qual cadência e com qual tom.

Quer transformar a apresentação de condição da sua clínica num processo que fecha sem virar leilão de desconto? Agende uma apresentação.

Perguntas frequentes

Por que o paciente pede desconto mesmo quando o tratamento é bom?

Na maioria das vezes não é o preço, é a apresentação. Quando a condição chega sem âncora, sem valor percebido e sem um caminho de pagamento claro, o paciente preenche o vazio com a única alavanca que sobra: pedir para baixar. Apresentar valor antes do número e entregar opções fechadas reduz o pedido na raiz.

Quem deve apresentar o valor do tratamento: o dentista ou a recepção?

O dentista detalha as fases clínicas e os materiais; a parte financeira fica melhor com a recepção ou uma coordenadora de tratamento. Isso evita o constrangimento do profissional negociar o próprio preço na cadeira e dá ao paciente um interlocutor dedicado à condição de pagamento, sem misturar técnica com barganha.

Dar desconto na odontologia é permitido pelo CFO?

Sim. Em 16/08/2023 o CADE condenou o CFO por proibir descontos e cartões de desconto, e o CFO alterou o Código de Ética pela Resolução 271/2025, retirando o oferecimento de cartões de desconto do rol de infrações éticas. Poder oferecer não significa dever oferecer: continua sendo decisão de margem e de estratégia.

Como responder quando o paciente diz que a outra clínica é mais barata?

Não cubra o preço de imediato. Reconheça a pesquisa, devolva o foco para o que está incluído (materiais, etapas, acompanhamento, garantia do que é garantível) e pergunte o que exatamente está comparando. Preço só compara igual com igual: quase sempre o orçamento mais barato não cobre a mesma coisa.

Quanto custa dar 10% de desconto reativo?

Mais do que parece. O desconto sai inteiro da margem, não do faturamento: se a sua margem líquida é uma fração do preço, 10% de desconto pode representar uma fatia bem maior do seu lucro naquele caso. Por isso desconto solto, dado por reflexo ao "tá caro", corrói o resultado mais rápido do que o dono imagina.

Financiamento de terceiros vale a pena para a clínica?

Para tirar a negociação de prazo de cima do dentista, sim. A clínica recebe à vista da financeira e o paciente parcela com ela, então o caixa não financia o tratamento e a conversa de parcela sai da cadeira. O custo é a taxa da operação, que você precisa colocar na conta antes de definir o preço de tabela.