A agência que quero contratar também é dona de uma rede de clínicas: isso é conflito de interesse?
Agência que também opera a própria rede de clínicas não é conflito automático. Vira conflito quando a rede dela disputa o mesmo paciente no seu raio: leilão, dado operacional e prioridade de equipe passam a jogar contra você. Veja o teste do raio, o que o Código de Ética Odontológica exige, as cláusulas que seguram e quando sair.
Só é conflito de interesse quando a rede dela disputa o mesmo paciente no seu mapa. Fora do seu raio, é experiência operacional a seu favor. Dentro dele, você paga para financiar leilão, benchmark e expansão do seu concorrente.
- O dono da clínica responde junto pelo que a agência publica. O Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012, Art. 45) determina que, pela publicidade em desacordo com o Código, respondem solidariamente os proprietários, o responsável técnico e os demais profissionais que concorreram na infração, na medida da culpabilidade.
- Existe um artigo específico sobre poder econômico. O mesmo Código trata como infração ética valer-se do poder econômico visando a estabelecer concorrência desleal com entidades congêneres ou profissionais individualmente (Art. 32, V), leitura relevante quando o mesmo grupo é fornecedor de mídia e operador de clínicas.
- Disputar a mesma busca custa dinheiro dos dois lados. A documentação do Google Ads explica que a classificação do anúncio nasce de seis fatores, entre eles o lance, a qualidade do anúncio e da página de destino e a concorrência do leilão, e registra que, conforme a diferença de classificação aumenta, o anúncio mais bem classificado tende a vencer a posição podendo pagar um custo por clique maior por essa mesma razão.
Faz parte do guia: Como escolher uma agência de marketing odontológico?
Nesta página
- TL;DR
- Pontos-chave
- Antes de julgar, defina o arranjo: são três coisas diferentes
- Os três cenários que o mercado confunde
- O teste do raio: vocês disputam o mesmo paciente no mesmo mapa?
- Conflito de leilão: quando os dois pagam um pelo outro
- Assimetria de informação: seus números viram benchmark operacional deles
- Seu mercado virando o mapa de expansão da rede
- Prioridade de recurso: quem ganha o melhor gestor quando a house account é do dono
- O que o Código de Ética Odontológica coloca no seu colo
- O contra-argumento honesto: quem opera cadeira sabe coisas que agência de mídia não vive
- Por que "a clínica deles cresce" não prova nada sobre a sua
- Cláusulas com dente: o que escrever antes de assinar
- Os limites jurídicos da não concorrência (o que derruba a cláusula)
- Propriedade dos ativos e o perfil do Google
- Due diligence prática: cinco checagens antes da segunda reunião
- As perguntas da reunião e as respostas que reprovam na hora
- Matriz de decisão: contratar, negociar ou sair
- Alternativas quando o conflito é real, mas você quer a competência deles
- Seu próximo passo
- Perguntas frequentes
"A agência que quero contratar também é dona de uma rede de clínicas: isso é conflito de interesse?"
Depende de uma coisa só, e não é a intenção deles.
Depende de vocês disputarem, ou não, o mesmo paciente no mesmo mapa.
Se a rede da agência opera longe de você, o que existe é um fornecedor que conhece cadeira, comparecimento e ocupação de agenda por dentro. Isso joga a seu favor. Se a rede opera no seu raio, ou está indo para lá, você passa a financiar leilão, benchmark e expansão de um concorrente com o seu próprio orçamento.
O erro caro é decidir isso pelo discurso da reunião. Conflito de interesse não se resolve com promessa, se resolve com mapa, contrato e propriedade de ativo.
Neste guia você vai ver:
- Como separar os três arranjos que o mercado chama pelo mesmo nome
- O teste do raio e os três cenários que mudam a decisão
- Os riscos concretos: leilão, assimetria de informação, mapa de expansão e prioridade de equipe
- O que o Código de Ética Odontológica coloca no seu colo, inclusive responsabilidade solidária
- As cláusulas com dente, os limites jurídicos delas e a matriz de decisão final
Antes de julgar, defina o arranjo: são três coisas diferentes
O mercado joga tudo na mesma sacola. Não é a mesma sacola, e o risco de cada uma é distinto.
1. Agência que só presta serviço. Vende mídia, criativo, gestão. Não opera cadeira. O conflito possível é atender concorrente seu, tema que já tratamos em a agência pode atender um concorrente direto.
2. Agência verticalizada, que opera clínicas próprias. O mesmo grupo econômico é fornecedor de marketing e operador de clínicas. Ele vende para você e compete no varejo de tratamento.
3. Sócio dentista com participação em rede ou franquia. A agência não opera, mas um dos sócios tem parte numa rede, numa franqueadora ou é franqueado. O grupo econômico é difuso, e por isso mais difícil de mapear.
Repare no detalhe: o arranjo 2 e o arranjo 3 produzem quase o mesmo incentivo, mas só o arranjo 2 aparece no site. O 3 aparece no quadro societário.
Lembre: conflito de interesse não é sobre caráter. É sobre incentivo. Quando o mesmo grupo ganha vendendo serviço para você e ganha atendendo o paciente que seria seu, existe um ponto onde os dois interesses se cruzam. Seu trabalho é saber onde fica esse ponto e escrever no contrato o que acontece lá.
Os três cenários que o mercado confunde
A mesma estrutura societária produz três situações com decisões diferentes. Separe antes de reagir.
Cenário A: a rede está fora do seu raio. As unidades ficam em outra cidade, outro estado, outra região metropolitana. O paciente dela não se desloca até você e o seu não se desloca até ela. Aqui o conflito é teórico e o benefício operacional é real.
Cenário B: a rede está dentro do seu raio. Existe unidade disputando o mesmo bairro, a mesma cidade, o mesmo procedimento. Aqui o conflito é concreto, presente e mensurável no seu custo de mídia.
Cenário C: a rede está em expansão e ainda não chegou. É o cenário mais perigoso, porque parece o A e vira o B. Você contrata em paz, entrega seu dado de demanda, e algum tempo depois a unidade nova abre exatamente onde a sua campanha mostrou que existe paciente.
O cenário C é o que quase nunca entra na conversa da reunião. E é justamente o que precisa de gatilho contratual, não de confiança.
O teste do raio: vocês disputam o mesmo paciente no mesmo mapa?
Esse é o teste que resolve a maior parte da dúvida em poucos minutos. Ele tem três perguntas, nesta ordem.
1. Geografia. Qual é a unidade da rede mais próxima da sua clínica, medida em deslocamento real do paciente, não em linha reta no mapa?
2. Procedimento. A unidade dela disputa o mesmo recorte que paga a sua conta (implante, protocolo, lente, ortodontia de adulto) ou é clínica de outro perfil de ticket?
3. Canal. Vocês aparecem nas mesmas buscas, no mesmo mapa e para o mesmo público de anúncio?
Se as três respostas apontarem para o mesmo paciente, é conflito concreto. Uma resposta divergente já reduz muito o atrito. As três divergentes e você está no cenário A.
| Situação | Sinal prático | Decisão recomendada |
|---|---|---|
| Rede fora do raio, outro recorte de procedimento | Nenhuma sobreposição de busca ou de mapa | Contratar, com confidencialidade e gatilho de expansão |
| Rede fora do raio, mesmo recorte de procedimento | Aprendizado circula, paciente não | Contratar, exigindo segregação de dados e não aliciamento |
| Rede em expansão para a sua região | Vagas de franquia, unidades novas, anúncios de cidade vizinha | Só com gatilho de saída sem multa e exclusividade de praça |
| Rede dentro do raio, mesmo procedimento | Vocês aparecem lado a lado na mesma busca | Não contratar, ou contratar só com exclusividade de praça paga e contas separadas |
Lembre: o mapa decide, não a promessa. Escreva no contrato o raio em quilômetros, por bairro ou por cidade, com o número acordado por escrito. Combinado verbal não sobrevive à primeira unidade nova.
Conflito de leilão: quando os dois pagam um pelo outro
Aqui está o risco que ninguém coloca no PowerPoint da reunião, e que aparece direto na sua fatura de mídia.
Quando a sua clínica e a unidade da rede disputam a mesma palavra-chave e o mesmo público, vocês entram no mesmo leilão. A documentação do Google Ads sobre a classificação do anúncio explica que a posição nasce de seis fatores, entre eles o lance, a qualidade do anúncio e da página de destino e a concorrência do leilão.
E ela é explícita sobre o efeito de dois anúncios disputando a mesma posição: conforme a diferença de classificação entre eles aumenta, o anúncio mais bem classificado tende a vencer a posição, podendo pagar um custo por clique maior por essa mesma razão.
Traduzindo para a sua realidade: mais um anunciante forte na mesma busca não é neutro. Ele pressiona posição e custo. Se esse anunciante é gerido pelo mesmo grupo que gere a sua conta, quem decide onde a pressão dói é o fornecedor, não você.
Existe ainda a camada de plataforma. As políticas de publicidade restringem o uso de contas coordenadas para ocupar mais espaço na mesma busca, e essa leitura muda conforme a política vigente. Não trate isso como parecer jurídico. Trate como pergunta de contrato: quem opera as duas contas, com quais times, sob qual isolamento.
O que exigir por escrito:
- Contas de anúncio separadas, sem gestor compartilhado entre você e a rede.
- Declaração de que a sua conta não será usada para calibrar lance ou criativo da rede.
- Relatório de termos de busca aberto, para você mesmo enxergar sobreposição.
Assimetria de informação: seus números viram benchmark operacional deles
Esse é o risco silencioso, e é o mais difícil de reverter depois.
Para rodar sua campanha, a agência precisa saber o essencial do seu negócio: custo por lead por procedimento, ticket praticado, taxa de comparecimento, conversão de avaliação em tratamento, ocupação de agenda, sazonalidade da sua região.
Numa agência que só presta serviço, esse dado é insumo de trabalho. Numa agência que opera clínicas, esse mesmo dado é inteligência competitiva de um operador que atende o mesmo tipo de paciente.
Não é preciso má fé para o dano acontecer. Basta o gestor da sua conta virar o gestor da conta da rede no trimestre seguinte, carregando na cabeça a sua régua de preço e a sua taxa de fechamento.
Por isso a exigência não é "prometa não usar". A exigência é estrutural:
- Segregação de time: quem opera a sua conta não opera a conta das unidades da rede.
- Segregação de acesso: seu CRM, seu banco de leads e seus relatórios ficam em ambiente com acesso nominal e revogável.
- Confidencialidade com prazo e penalidade, não declaração genérica de sigilo.
Vale lembrar do enquadramento de dados. Quando a agência trata a sua base de leads e de pacientes, ela atua como operadora, e a LGPD, no artigo 46, obriga os agentes de tratamento a adotar medidas de segurança técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados. Base de paciente dentro de um fornecedor que também é concorrente é exatamente o caso em que segregação de acesso deixa de ser burocracia.
Seu mercado virando o mapa de expansão da rede
Pense no que a sua campanha produz além de paciente: ela produz um mapa de demanda.
Volume de busca por bairro, custo por lead por região, qual procedimento puxa mais no seu recorte, em que faixa de preço o paciente da sua cidade avança, onde a taxa de comparecimento é melhor. Você paga por esse mapa com verba de mídia e com tempo de equipe.
Quem opera rede usa exatamente esse tipo de informação para decidir o ponto da próxima unidade.
Não estou afirmando que toda agência verticalizada faz isso. Estou dizendo que ela pode fazer, que o dado está na mão dela, e que você não teria como provar depois. Risco que depende de boa vontade não é risco controlado, é risco terceirizado.
A proteção prática é o gatilho contratual: se o grupo abrir unidade dentro do raio acordado durante a vigência ou dentro de um período definido após o fim do contrato, você encerra sem multa, leva os ativos e a confidencialidade continua valendo.
Prioridade de recurso: quem ganha o melhor gestor quando a house account é do dono
Agência tem recurso finito. Gestor sênior, verba de teste, primeiro lote de criativo novo, tempo de análise. Tudo isso é escasso e alguém decide a fila.
Numa agência verticalizada, existe uma conta que não pede desconto, não cobra relatório e não vai embora: a do próprio dono.
Faça as perguntas na ordem certa:
- Quem é o gestor nomeado da minha conta e quantas contas ele opera hoje?
- Ele opera alguma unidade da rede do grupo?
- Criativo e formato novo entram primeiro em qual conta?
- Quando a equipe está no limite, qual conta é atendida primeiro?
Resposta vaga aqui é resposta. Se ninguém consegue nomear o gestor e listar a carteira dele, a fila já está definida e você não está no topo dela.
O que o Código de Ética Odontológica coloca no seu colo
Muita clínica trata publicidade como assunto do fornecedor. O Código não trata.
Pelo Código de Ética Odontológica (Resolução CFO-118/2012), Art. 45, pela publicidade e propaganda em desacordo com as normas do Código respondem solidariamente os proprietários, o responsável técnico e os demais profissionais que tenham concorrido na infração, na medida de sua culpabilidade.
Leia de novo com os olhos de dono: a agência escreve o anúncio, e você responde junto por ele.
O mesmo Código, no Art. 44, VII, trata como infração ética aliciar pacientes, praticando ou permitindo a oferta de serviços através de informação ou anúncio falso, irregular, ilícito ou imoral, com o intuito de atrair clientela, ou outros atos que caracterizem concorrência desleal ou aviltamento da profissão, citando especialmente a utilização da expressão "popular".
E o Art. 32, V, trata como infração ética valer-se do poder econômico visando a estabelecer concorrência desleal com entidades congêneres ou profissionais individualmente.
O conjunto importa por dois motivos práticos:
- Você não terceiriza a responsabilidade. Quem assina a clínica responde pela publicidade veiculada em nome dela.
- Poder econômico tem artigo próprio. Quando o mesmo grupo é fornecedor de mídia e operador de clínicas, essa leitura deixa de ser hipótese de manual e vira pergunta legítima na hora de contratar.
Isso não é parecer jurídico. É o texto do Código, e a leitura do seu caso concreto passa pelo seu advogado e pelo seu CRO.
O desdobramento contratual é direto: exija aprovação prévia de peça, guarda do material publicado e cláusula de não aliciamento de pacientes e de equipe, com penalidade escrita.
O contra-argumento honesto: quem opera cadeira sabe coisas que agência de mídia não vive
Seria desonesto tratar o arranjo como defeito puro. Existe uma vantagem real, e ela é grande.
Agência que opera clínica convive com o que acontece depois do clique: paciente que não comparece, CRC que não retorna, agenda com buraco na terça, orçamento em aberto que ninguém reabre, ticket que cai quando o desconto vira hábito.
Esse repertório muda o desenho da campanha. Quem já perdeu dinheiro com lead barato que não comparece não vende volume de lead como resultado.
Onde a vantagem é legítima:
- A rede fica fora do seu raio de disputa.
- O aprendizado circula (o que funciona em criativo, oferta e follow-up), o dado sensível não.
- A régua de sucesso proposta é paciente na cadeira, não número de formulário preenchido.
Onde ela vira desculpa: quando "a gente entende de clínica porque temos as nossas" é usado para justificar a ausência de segregação de dados e de exclusividade de praça. Experiência operacional é argumento a favor. Não é substituto de cláusula.
Por que "a clínica deles cresce" não prova nada sobre a sua
Esse é o argumento mais usado na reunião e o mais frágil de todos.
Uma unidade da rede crescendo diz respeito àquela unidade: a equipe dela, o ponto dela, a maturidade de marca dela naquela cidade, o nível de concorrência local naquele momento.
Entre clínicas, a dispersão de resultado é enorme mesmo com a mesma campanha. Duas unidades com o mesmo criativo e a mesma verba entregam resultados diferentes quando a recepção atende em ritmos diferentes, quando uma tem cirurgião com agenda cheia e a outra não, quando uma cidade tem poucos concorrentes anunciando e a outra tem o leilão lotado.
Pergunte pela mecânica, não pelo troféu:
- De quantos leads, quantos viraram agendamento?
- Dos agendados, quantos compareceram?
- Dos que compareceram, quantos fecharam, e em qual ticket?
- Esse resultado é de qual período, e o que mudou de estrutura na clínica no mesmo período?
Se a resposta vier em prints de faturamento e não em taxa de conversão por etapa, você recebeu marketing, não evidência.
E o que decide o seu resultado costuma estar do lado de cá. Nos dados internos da Odonto Results, num recorte de 5.205 leads, 43,8% chegam fora do horário comercial e 19,8% no fim de semana, a IA de atendimento responde em mediana 4,4 segundos, e entre os leads que respondem o agendamento fica em torno de 23%. Quem é dono da agência não muda esses números. O que acontece com o seu lead nos primeiros segundos, muda.
Cláusulas com dente: o que escrever antes de assinar
Confiança não é cláusula. Se o cenário é B ou C, o contrato precisa dizer o que acontece quando o interesse do grupo e o seu se separarem.
| Cláusula | O que ela precisa dizer | O que ela evita |
|---|---|---|
| Exclusividade de praça | Raio ou lista de bairros e cidades onde o grupo não atende outra clínica nem opera unidade própria | Disputa direta financiada pelo seu contrato |
| Gatilho de expansão | Se o grupo abrir unidade no raio acordado, você rescinde sem multa, com transferência de ativos | Cenário C virando cenário B sem saída |
| Não aliciamento | Proibição de abordar seus pacientes e sua equipe durante a vigência e por período definido depois | Perda de base e de gente treinada |
| Confidencialidade com dente | Definição do que é informação sensível, prazo, penalidade e devolução ou eliminação de dados | Seu CPL e seu ticket virando régua da rede |
| Segregação de time e de dados | Gestor nomeado, vedação de operar contas da rede, acesso nominal e revogável, log de acesso | Vazamento por rotação interna de equipe |
| Propriedade dos ativos | Contas, pixel, domínio, criativos e perfil do Google no CNPJ da clínica | Sair sem levar o que você pagou |
| Aprovação de peça | Fluxo de aprovação prévia e guarda do material publicado | Responsabilidade solidária por publicidade fora da norma |
Detalhe o gatilho de expansão com data e raio. Cláusula genérica de "boa fé" não produz consequência.
Veja também o que já precisa estar no acordo, verticalizado ou não, em o que deve constar no contrato com a agência.
Os limites jurídicos da não concorrência (o que derruba a cláusula)
Cláusula ampla demais não protege, porque cai. Vale conhecer o limite antes de pedir o impossível.
Restrição de concorrência sustentável costuma ter quatro elementos:
- Limite temporal. Prazo definido, não vigência eterna após o fim do contrato.
- Limite espacial. Área delimitada, coerente com o mercado real de disputa, não território nacional inteiro.
- Objeto específico. O que exatamente fica restrito, para qual atividade e para qual público.
- Contrapartida, quando a restrição limita de forma relevante a atividade econômica da outra parte.
E existe um limite conceitual que muita minuta ignora: não é possível privatizar conhecimento ordinário da profissão. Impedir que um profissional use técnica corrente de mídia ou de atendimento, aprendida no mercado, não se sustenta. O que se protege é informação confidencial identificável (sua base, seus números, sua estratégia documentada), não o repertório geral do ofício.
Peça ao seu advogado para revisar redação, prazo e área. Cláusula que não sobrevive à leitura de um juiz é falsa sensação de segurança.
Propriedade dos ativos e o perfil do Google
Essa é a proteção mais decisiva de todas, e a mais negligenciada: quem é dono do que você paga.
O padrão correto não muda por causa da estrutura da agência, mas com uma agência que opera rede ele fica ainda mais crítico, porque saída conflituosa é cenário plausível.
Fique no CNPJ da clínica, sempre:
- Conta do Google Ads e Business Manager do Meta.
- Pixel, tags e conversões configuradas.
- Domínio, hospedagem e páginas de captação.
- Criativos, com licença de uso das imagens.
- Perfil da clínica no Google, com você como proprietário.
O perfil do Google merece parágrafo próprio. A regra da plataforma é de um perfil por empresa em cada localização, e ele concentra avaliações, fotos, telefone e rota. Deixar a propriedade desse perfil na mão de quem opera uma rede concorrente é entregar o ativo local mais sensível que a clínica tem.
Agência pode ter acesso de gerente. Proprietário é a clínica. Detalhamos o assunto em conta de anúncios e pixel ficam comigo?.
Due diligence prática: cinco checagens antes da segunda reunião
Você não precisa de investigação particular. Precisa de meia hora e de fontes públicas.
- QSA do CNPJ da agência. Consulte o quadro de sócios e administradores e cruze os nomes com os CNPJs das clínicas da rede. É onde o arranjo do sócio dentista aparece.
- Registro das unidades no CRO. Clínica odontológica tem inscrição e responsável técnico. Confira quantas unidades existem e onde ficam.
- Biblioteca de Anúncios do Meta. Veja os anúncios ativos das páginas da rede. Ela mostra em que praças o grupo está anunciando agora, inclusive praças onde ainda não há unidade aberta.
- Perfis no Google Maps. Localize cada unidade e meça o deslocamento real até a sua clínica. Cheque também se há perfis novos recém-criados na sua região.
- Circular de Oferta de Franquia, se for franquia. A franqueadora é obrigada a entregar a circular a interessados, e ela costuma descrever unidades, território e plano de expansão.
Feche a checagem perguntando diretamente: existe plano de abrir unidade na minha cidade ou região nos próximos períodos? Registre a resposta por escrito e transforme em cláusula.
Se quiser o roteiro completo de verificação de fornecedor, veja due diligence antes de fechar com a agência.
As perguntas da reunião e as respostas que reprovam na hora
Leve estas oito perguntas impressas. O que você quer observar não é só a resposta, é a naturalidade dela.
- O grupo opera clínicas próprias? Quais CNPJs e quais endereços?
- Qual a unidade mais próxima da minha e qual o plano de expansão para a minha região?
- Quem é o gestor nomeado da minha conta e quais contas ele opera?
- Esse gestor opera alguma unidade do grupo?
- Como vocês segregam dados da minha clínica dos dados das unidades?
- Vocês aceitam exclusividade de praça escrita, com raio definido?
- Se o grupo abrir unidade no meu raio, eu saio sem multa e levo os ativos?
- Contas, pixel, domínio, criativos e perfil do Google ficam no meu CNPJ?
As respostas que reprovam na hora:
- "Isso nunca foi um problema com nenhum cliente." (não responde nada)
- "Somos éticos, pode confiar." (confiança não é cláusula)
- "A conta fica no nosso Business Manager porque é mais prático." (ativo capturado)
- "Não damos exclusividade para ninguém." (aceitável se vier com o resto blindado, alarmante se vier sozinho)
- "A gente não fala do plano de expansão." (você já ouviu a resposta)
Matriz de decisão: contratar, negociar ou sair
Junte o teste do raio com a disposição deles de escrever no papel.
| Situação | Postura da agência | Decisão |
|---|---|---|
| Rede fora do raio | Aceita confidencialidade e gatilho de expansão | Contratar |
| Rede fora do raio | Recusa gatilho de expansão | Contrato curto, com renovação condicionada, ou passar |
| Rede em expansão para a sua região | Aceita exclusividade de praça e saída sem multa | Contratar com prazo curto e revisão |
| Rede em expansão | Evita falar de plano de expansão | Não contratar |
| Rede dentro do raio | Aceita exclusividade de praça paga, contas e times separados | Negociar com auditoria periódica |
| Rede dentro do raio | Recusa exclusividade e mistura times | Sair |
Lembre: o sinal mais confiável não é o tamanho da rede deles, é a disposição de transformar promessa em cláusula. Fornecedor que se recusa a escrever aquilo que fala já respondeu sua pergunta.
Alternativas quando o conflito é real, mas você quer a competência deles
Nem sempre a resposta é sair. Às vezes o time é bom e o conflito é administrável a um preço.
- Exclusividade de praça paga. Exclusividade é privilégio negociado, não direito. Se você quer bloquear a praça, aceite pagar por ela e escreva o raio.
- Split de time com nomeação. Gestor, analista e redator nomeados no contrato, vedados de operar contas das unidades do grupo, com aviso obrigatório em caso de troca.
- Auditoria de conta. Acesso de leitura para um terceiro seu (consultor ou seu próprio time) revisar termos de busca, públicos e sobreposição, em periodicidade definida.
- Contrato curto com gatilho de saída. Prazo menor, renovação condicionada a metas e saída sem multa se a rede entrar no seu raio, com a multa rescisória calibrada nos dois sentidos.
- Escopo partido. Mídia com um fornecedor, dado e CRM sob seu controle direto. Reduz o que sai da sua casa sem abrir mão da execução.
O objetivo não é desconfiar de todo mundo. É garantir que, se os interesses se separarem, você não precise da boa vontade de ninguém para se proteger.
Seu próximo passo
- Rode o teste do raio hoje. Localize cada unidade da rede no mapa, meça o deslocamento real até a sua clínica e classifique o caso em cenário A, B ou C antes da próxima reunião.
- Transforme as respostas em cláusula. Leve as oito perguntas, exija exclusividade de praça com raio escrito, gatilho de saída sem multa, não aliciamento, segregação de time e de dados, e todos os ativos no CNPJ da clínica.
- Mude a régua da avaliação. Pare de comparar case e comece a comparar mecânica: do total de leads que entra, quantos agendam, quantos comparecem, quantos fecham e a que ticket. É isso que separa fornecedor de vitrine.
Quer avaliar quem cuida da sua captação com a régua de paciente na cadeira, e não com promessa de reunião? Agende uma apresentação.
Perguntas frequentes
Agência que é dona de clínica pode atender outra clínica?
Pode. Não existe proibição legal genérica para uma empresa prestar serviço de marketing e operar clínicas próprias. O que existe é dever contratual e dever ético. A pergunta prática não é se pode, é o que você perde se a rede dela disputar o mesmo paciente que você no mesmo mapa.
Como eu descubro se a agência tem clínicas próprias?
Comece pelo quadro de sócios e administradores do CNPJ da agência e cruze com os CNPJs das clínicas da rede. Depois confira o registro das unidades no CRO do estado, os perfis das unidades no Google Maps e os anúncios ativos na Biblioteca de Anúncios do Meta. Se for franquia, peça a Circular de Oferta de Franquia.
Qual é o teste rápido para saber se há conflito real?
Pergunte se vocês disputam o mesmo paciente no mesmo mapa. Se a unidade mais próxima da rede está fora do raio de deslocamento do seu paciente e fora do seu recorte de procedimento, o conflito é teórico. Se está dentro, é concreto e precisa virar cláusula ou virar não.
Que cláusula protege a clínica nesse caso?
Quatro cláusulas fazem a maior parte do trabalho: exclusividade de praça com raio escrito, gatilho contratual de saída sem multa se a rede abrir unidade no seu raio, não aliciamento de pacientes e de equipe, e segregação de time e de dados com confidencialidade. Some a isso a propriedade dos ativos no CNPJ da clínica.
O contrato pode proibir a agência de abrir clínica perto de mim para sempre?
Não. Restrição de concorrência sem limite de tempo e de território costuma ser considerada abusiva. Cláusula que sobrevive tem prazo definido, área delimitada, objeto específico e, quando restringe atividade econômica de forma relevante, contrapartida. Vale checar a redação com o seu advogado antes de assinar.
Tem algum lado bom em contratar uma agência que opera clínicas?
Tem, e é honesto reconhecer. Quem opera cadeira convive com comparecimento, CRC, ocupação de agenda e ticket, e costuma desenhar campanha olhando para paciente na cadeira, não para volume de lead. O ganho é real quando a rede está fora do seu raio e os dados ficam segregados.